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terça-feira, 19 de maio de 2009

O Arroio Sem Nome (1)

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, instituição da qual parte este projeto, está intimamente ligada ao Arroio Dilúvio. Uma das suas interfaces ocorre através do Arroio Sem Nome, uma “sanga”, conforme os moradores locais, que é justamente a divisa de município entre Porto Alegre e Viamão. Nesta fronteira encontra-se também o Campus do Vale da UFRGS, constituindo-se, portanto, em território de responsabilidade do Governo Federal, entre os dois municípios.

Assim como o Arroio Sem Nome, muitas pessoas cruzam diariamente essa fronteira: estudantes, moradores de Viamão, funcionários da UFRGS, motoqueiros preenchem o confuso espaço sonoro que anuncia a presença da água, nas ruas que levam à Vila Santa Isabel.

O Arroio, sem nome, quase sem margem, nomeado pela quase negação de sua característica natural, se encontra espremido entre um muro que a Universidade construiu, e os caminhos e terrenos apropriados traçados em sua margem ocupada.


Encontramos Carlos, morador da Vila Santa Isabel, e proprietário da Escadinha que presta serviço de cópias para os estudantes da UFRGS. Carlos, da porta de seu negócio, observa o comportamento daqueles que passam em frente ao arroio. Alguns o ignoram, outros lançam sacos de lixo em suas águas, em suas margens. Carlos nos conta os conflitos que observou, envolvendo a Prefeitura de Viamão, a Universidade Federal, a Prefeitura de Porto Alegre, O Ministério Público e os moradores da Vila. Carlos nos relatava iniciativas contraditórias entre estas instituições: o cercamento da margem por parte da UFRGS, a obrigatoriedade da construção de fossas sépticas na beira do arroio por parte da Prefeitura de Viamão, a instalação de uma lixeira pública na margem do arroio, como forma de remediar o uso popular do local como depósito de lixo. São todas medidas que negam aquilo a que este arroio nunca alcançou, o reconhecimento da sua importância para a bacia hidrográfica com a qual contribuiu, e a manutenção de suas características naturais.

Os moradores que encontramos nos relatam suas próprias iniciativas de limpeza do arroio, de dragagem caseira de suas margens, de táticas para driblar a presença do esgoto dos vizinhos atravessando seu quintal para chegar até à sanga. Surpreendeu-me a iniciativa desses moradores, em expor essa relação. Encontraram na equipe de gravação, estudantes da UFRGS, que conduzi até seu cotidiano, uma escuta diferenciada, e uma forma de fazer sua palavra atravessar a fronteira invisível que os segrega.

Narrando suas trajetórias e itinerários pela cidade que os levaram até a beira do arroio, os vizinhos Catarina e Oscar nos contam seus projetos, suas iniciativas, seus impasses. Evidenciam um cotidiano no qual se encontram ligados pelas águas, pela água da chuva, pela água potável cuja conta é divida entre as casas, pela água do arroio nas cheias, pela água do esgoto nos pátios.

Paradoxalmente, a ocupação irregular do arroio parece ser a única que o reconhece, e com ele convive.

A questão é pertinente:

A quem pertence este arroio?

A quem cabe nomeá-lo?

Melhor seria perguntar:

Quem é responsável por ele?

O Arroio Sem Nome tem suas nascentes no Morro Santana, ele desce pela Vila Santa Isabel, costeando o Campus do Vale da UFRGS até a barragem construída pela Universidade no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), direcionando-se então para o Arroio Dilúvio.


Saídas de Campo realizadas nos dias 06 e 13 de maio de 2009. Participaram das gravações o Bolsista DTI do Projeto Habitantes do Arroio Rafael Devos (Pesquisador Associado BIEV/UFRGS) e os bolsistas do BIEV/UFRGS, estudantes de Ciências Sociais da UFRGS, Ana Paula Parodi, Luciana Tubello Caldas, Patrick Barcelos e Stéphanie Bexiga.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A lógica hídrica não respeita as divisões por bairros

A lógica hídrica parece não respeitar as divisões por bairros, tão característica de Porto Alegre.
Retornando à campo, fomos até o acesso de pedestres que "deságua" do morro Bom Jesus, costeando uma pequena sanga, na Av. Ipiranga e no Arroio Dilúvio. Na ponta do beco, uma ruelinha dá passagem para o final do morro onde fica o Bairro Bom Jesus e o começo de ruas estreitas e uma grande avenida. Conversamos com alguns moradores, iniciando um contato: - Ah, isso aí não tem solução. - Dizem que vão fazer uma rua aí. Duvido!

Pergunto o nome do lugar, ou da sanga. O arroio/sanga não tem nome, ou pelo menos, era desconhecido de nosso interlocutor. O lugar é o Beco do Albatroz. Pergunto se é recente o beco, reparando em um conjunto de casas recém construídas, a tinta recém pintada, lado a lado ao final do beco. Ele diz que não, que é antiga. O morador fala que a rua que passa mais atrás vai sair na Antônio de Carvalho. Ao fundo das casinhas, vejo um grande condomínio residencial em construção que se enxerga da Avenida Ipiranga. Em frente segue uma larga avenida que sobe o Morro. Pela presença da sanga, imaginamos a água correndo sob esta avenida. O padrão das casas é a “autoconstrução”, ou seja, feita pelo morador, com ajuda de parentes ou vizinhos, em muitos casos. Como foi feito o “saneamento” de cada casa, dentro da autoconstrução? Como aproveitá-lo/transformá-lo para realizar o saneamento do “valão”? Falar da construção da casa pode ser uma forma de chegar em memórias subterrâneas, pluviais. É preciso retomar o contato com esses moradores.

Retornamos após essa conversa, pois nosso tempo de estacionamento já tinha esgotado. Voltamos à Av. Ipiranga contornando a sanga/valo/arroio. O caminho de volta revela o sentido oposto, é como se o pedestre “desaguasse” na via pública, servida por transporte, infra-estrutura urbana, já que os demais pontos de contato do morro com a Avenida Ipiranga são a distante Avenida Antônio de Carvalho, e a Avenida Joaquim Porto Vilanova, próximo às instalações da CEEE. O Beco do Albatroz, a sanga, parecem vestígios de uma antiga geografia e de uma configuração urbana que seguia o curso hídrico. Novamente, percebe-se este como um componente dos itinerários que a canalização do Arroio Dilúvio inaugurou na região. Conforme a antropóloga Teresa Caldeira (na obra “Cidade de Muros” e também em “A Política dos Outros”), o padrão de segregação das cidades brasileiras segue essa lógica da dotação de infra-estrutura urbana (transporte, saneamento, iluminação) para grandes avenidas, promovendo ao mesmo tempo a especulação imobiliária e a ocupação irregular, em novos “vazios” que surgem na paisagem urbana. Escutar a gênese dessas ocupações, nas lembranças de alguns moradores das vilas em torno do Dilúvio, pode apresentar de outra forma o surgimento de bairros e comunidades intimamente ligados ao Arroio Dilúvio. Do outro lado da margem do Dilúvio, é também nesta região que chegam as águas do Arroio Moinho, que divide outro morro entre a Vila São José e a Vila João Pessoa. Mais um dado a investigar.



O que deságua no arroio?

Percorrendo o arroio em sua extensão dificilmente percebemos a forma da sub-bacia do arroio, ou seja, a sua ligação com outras regiões da cidade a partir de arroios afluentes, “sangas”, e águas subterrâneas, que chegam ao Dilúvio vindas de morros, de vilas, ou do subsolo de bairros urbanizados. Dia 16 de fevereiro, enquanto observávamos um ponto do arroio, produzindo imagens, constatamos a presença de uma pequena sanga que revela como se combinam ruas, águas, habitações e pedestres na região.

O trabalho de campo começava na passarela/ponte
da CEEE, feita de madeira de eucalipto. Embora seja uma região de contato do arroio com grandes “favelas” urbanas (as vilas de Porto Alegre), é também uma região que se encontra em processo de valorização imobiliária. Grandes condomínios em construção, muitas lojas no estilo “megastore”, revendas de automóveis, prédios comerciais de escritórios anunciam novidades neste mesmo local, que permanece identificado, o trecho final da Av. Ipiranga, com o Bairro Jardim Botânico, no mapa da cidade.Neste ponto, lojas de pneus, borracharias, lavagens de carro, um condomínio em construção, bares, e a primeira surpresa do dia: a ponte é muito utilizada por pedestres. Não são apenas carros e ônibus que freqüentam o final da Avenida Ipiranga. Neste mesmo trecho, constatam-se novos usos para o arroio: a prática de esportes, caminhadas ao pôr-do-sol. Durante 30 minutos que ficamos ali, passaram umas 20 pessoas, muitas cruzaram a Avenida Ipiranga e logo voltaram. Detalhe – poucos olhavam para o arroio enquanto passavam pela ponte.
Avançando um pouco mais, descobrimos mais um dado, há uma pequena “sanga”, que corre até o arroio, vindo do morro da Bom Jesus. Trata-se de u
m afluente do arroio, ainda não canalizado? Enquanto fazíamos imagens “dentro” do arroio, percorrendo seus taludes, observamos que tal “sanga” serve também de caminho para acesso ao morro, utilizado pelos pedestres. Planejamos retornar ao local, um ponto de contato do Arroio Dilúvio com o morro do Bairro Bom Jesus e as vilas Pinto, Mato Sampaio, Divinéia, entre outras.

Retornamos alguns dias depois, ao ponto observado. Gravamos a entrada do beco e depois entramos, costeando a sanga. Alguns pedestres passam, um tanto constrangidos: mulheres com crianças, adolescentes e jovens, mulheres mais velhas. É um ponto onde os moradores têm acesso às paradas de ônibus e às lotações da Avenida Ipiranga.

Constatamos o odor típico do “valão”, como são conhecidos os arroios que se fundem com o esgoto doméstico e o lixo que é lançado em suas águas. Na margem, do outro lado, uma casinha de madeira, galinhas ciscando. Dentro do arroio muito lixo: carcaça de máquina de lavar, os indefectíveis pneus, sacolas, muito material de construção, embalagens. Mas o cheiro era de matéria orgânica. De onde vinham? (continua na próxima postagem)


ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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