A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, instituição da qual parte este projeto, está intimamente ligada ao Arroio Dilúvio. Uma das suas interfaces ocorre através do Arroio Sem Nome, uma “sanga”, conforme os moradores locais, que é justamente a divisa de município entre Porto Alegre e Viamão. Nesta fronteira encontra-se também o Campus do Vale da UFRGS, constituindo-se, portanto, em território de responsabilidade do Governo Federal, entre os dois municípios.
Assim como o Arroio Sem Nome, muitas pessoas cruzam diariamente essa fronteira: estudantes, moradores de Viamão, funcionários da UFRGS, motoqueiros preenchem o confuso espaço sonoro que anuncia a presença da água, nas ruas que levam à Vila Santa Isabel.
O Arroio, sem nome, quase sem margem, nomeado pela quase negação de sua característica natural, se encontra espremido entre um muro que a Universidade construiu, e os caminhos e terrenos apropriados traçados em sua margem ocupada.
Encontramos Carlos, morador da Vila Santa Isabel, e proprietário da Escadinha que presta serviço de cópias para os estudantes da UFRGS. Carlos, da porta de seu negócio, observa o comportamento daqueles que passam em frente ao arroio. Alguns o ignoram, outros lançam sacos de lixo em suas águas, em suas margens. Carlos nos conta os conflitos que observou, envolvendo a Prefeitura de Viamão, a Universidade Federal, a Prefeitura de Porto Alegre, O Ministério Público e os moradores da Vila. Carlos nos relatava iniciativas contraditórias entre estas instituições: o cercamento da margem por parte da UFRGS, a obrigatoriedade da construção de fossas sépticas na beira do arroio por parte da Prefeitura de Viamão, a instalação de uma lixeira pública na margem do arroio, como forma de remediar o uso popular do local como depósito de lixo. São todas medidas que negam aquilo a que este arroio nunca alcançou, o reconhecimento da sua importância para a bacia hidrográfica com a qual contribuiu, e a manutenção de suas características naturais.
Os moradores que encontramos nos relatam suas próprias iniciativas de limpeza do arroio, de dragagem caseira de suas margens, de táticas para driblar a presença do esgoto dos vizinhos atravessando seu quintal para chegar até à sanga. Surpreendeu-me a iniciativa desses moradores, em expor essa relação. Encontraram na equipe de gravação, estudantes da UFRGS, que conduzi até seu cotidiano, uma escuta diferenciada, e uma forma de fazer sua palavra atravessar a fronteira invisível que os segrega.
Narrando suas trajetórias e itinerários pela cidade que os levaram até a beira do arroio, os vizinhos Catarina e Oscar nos contam seus projetos, suas iniciativas, seus impasses. Evidenciam um cotidiano no qual se encontram ligados pelas águas, pela água da chuva, pela água potável cuja conta é divida entre as casas, pela água do arroio nas cheias, pela água do esgoto nos pátios.
Paradoxalmente, a ocupação irregular do arroio parece ser a única que o reconhece, e com ele convive.
A questão é pertinente:
A quem pertence este arroio?
A quem cabe nomeá-lo?
Melhor seria perguntar:
Quem é responsável por ele?
O Arroio Sem Nome tem suas nascentes no Morro Santana, ele desce pela Vila Santa Isabel, costeando o Campus do Vale da UFRGS até a barragem construída pela Universidade no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), direcionando-se então para o Arroio Dilúvio.
Saídas de Campo realizadas nos dias 06 e 13 de maio de 2009. Participaram das gravações o Bolsista DTI do Projeto Habitantes do Arroio Rafael Devos (Pesquisador Associado BIEV/UFRGS) e os bolsistas do BIEV/UFRGS, estudantes de Ciências Sociais da UFRGS, Ana Paula Parodi, Luciana Tubello Caldas, Patrick Barcelos e Stéphanie Bexiga.