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quinta-feira, 17 de junho de 2010

A ambientalização dos conflitos sociais

Divulgamos aqui a palestra do Prof. José Sérgio Leite Lopes, "A ambientalização dos conflitos sociais", uma das grandes inspirações do nosso projeto. Colocamos aqui alguns trechos, e na sequência divulgaremos em novas postagens alguns momentos do evento "Cidade das Águas", que reuniu técnicos, pesquisadores, estudantes e habitantes do arroio, envolvidos com a gestão ambiental na cidade. Parte desta palestra pode ser conferida no artigo "Sobre processos de "ambientalização" dos conflitos e sobre dilemas da participação", publicado na Revista Horizontes Antropológicos, que está disponível online:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832006000100003&script=sci_arttext





As leis ambientais têm sua origem em conflitos sociais:




Sobre José Sérgio Leite Lopes:


José Sérgio Leite Lopes
é Professor de Antropologia no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de pesquisador bolsista do CNPq. Em 2003 e 2004 desenvolveu atividades como pesquisador e professor visitante na Universidade Federal de Pernambuco (na pós-graduação de Sociologia). Durante mais de vinte anos tem trabalhado na temática da cultura das classes trabalhadoras no Brasil. Nos últimos anos vem também dando atenção à história social da sociologia do trabalho, à antropologia do esporte, assim como à relação entre meio ambiente e modos de controle público. É autor de O Vapor do Diabo: O Trabalho dos Operários do Açúcar (Paz e Terra, 1976) e A Tecelagem dos Conflitos de Classe na Cidade das Chaminés (Marco Zero/ Ed.UnB, 1988) e organizador de livros sobre mudança e reprodução social no Nordeste e cultura e identidade operária. Destacamos, sobre a temática ambiental, "A Ambientalização dos Conflitos Sociais: participação e controle público da poluição industrial",
José Sérgio Leite Lopes (coord.); Diana Antonaz, Rosane Prado, Gláucia Silva (orgs.). Relume Dumar, 2004. Uma resenha sobre o livro pode ser encontrada em: http://antropologia.com.br/res/res29_1.htm





quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O caso do Beco dos Marianos

Segue abaixo uma síntese da pesquisa de campo que está sendo realizada pela bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial Renata Ribeiro, na região da Rua Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana e que contempla parte de uma das ações do “Projeto Habitantes do Arroio”, financiado pelo CNPq. Esta pesquisa será apresentada na Feira de Iniciação Científica da UFRGS, a realizar-se no dia 20 de outubro de 2009, na Reitoria da UFRGS, Campus Central, Paulo Gama nº110, das 13 às 18hs. Contamos com a sua presença.

O Projeto Habitantes do Arroio vem sendo realizado desde janeiro de 2009, e tem como principais objetivos disseminar entre grupos urbanos e instituições locais, informações técnicas e científicas a respeito dos recursos hídricos, da bacia hidrográfica do Lago Guaíba e da microbacia do Arroio Dilúvio, a partir da construção de narrativas audiovisuais (que são postados no blog do projeto), referentes aos desafios e aos impactos ambientais, econômicos e sociais implicados na destinação adequada e no tratamento de esgotos.
Rua João Alfredo (antiga Rua da Margem). Autor: Luna Carvalho.

Memórias do antgo riacho na Cidade Baixa:

Com a finalidade de fazer uma primeira aproximação com objeto da pesquisa, iniciei as minhas saídas a campo, no dia 24/04/2009, na região da Cidade Baixa, local onde Luna, minha colega, desenvolve seu estudo. Durante a etnografia de rua procurei descobrir os vários lugares por onde outrora corriam as águas do riacho (o dilúvio antes das obras) – rememorando o seu percurso. Constatei que aquela região guarda muitos causos referentes às enchentes, à cultura carnavalesca e quilombola da cidade, uma importante contribuição para a reconstrução da memória ambiental daquela região e de Porto Alegre.

Rua Beco dos Marianos vista do alto do Morro Snatana. Autor: Renata Ribeiro.

A Comunidade “CEEE”:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/07/comunidade-da-ceee_6311.html

Familiarizada com esta área onde antigamente passava o arroio Dilúvio, iniciei meu trabalho de campo no extremo oposto, ou seja, na região do Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana, dividido pelos Bairros Jardim Carvalho e Agronomia. Minhas primeiras saídas a campo foram guiadas pelo intuito de descobrir a forma com que os moradores daquela região do Morro Santana se autodenominavam: sentiam-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou para eles esta era apenas uma rua, como outra qualquer, no mapa da cidade.

Durante este estudo, procurei resgatar, por meio dos relatos dos moradores desta localidade, fragmentos de suas memórias que pudessem elucidar as seguintes questões: Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Além de buscar as respostas para estas e outras perguntas, tenho buscado compreender a diversidade sócio-cultural relativa à combinação entre o rural e o urbano neste espaço.

Ao longo de minha etnografia conheci Anderson, um jovem bastante pobre, de 21 anos de idade – antigo morador do Morro Santana. Este rapaz é quem, no primeiro momento, elucida minha etnografia, pois me fez saber que a região do Beco dos Marianos é denominada de “CEEE” pelos moradores, em virtude da existência de uma subestação da companhia elétrica, no alto do Morro Santana. Além disso, também contou que a rua considerada a mais importante, pelos moradores daquela região, é a Atenas e não a Beco dos Marianos, como nós pesquisadores pensávamos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Anderson também falou do porquê, na visão dele, de tanto lixo no arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá.

Na medida em que me familiarizava com aquele espaço denominado “CEEE”, eu ia me sentindo mais segura para subir o extenso aclive da Rua Beco dos Marianos. Na primeira ocasião em que estive no alto do morro, tive a feliz oportunidade de conhecer o Sr. Joyne, um homem de 53 anos de idade, de origem alemã e polonesa, residente no Morro Santana desde que nasceu.

Este homem foi quem me falou sobre ocupação daquele local cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. As primeiras pessoas foram retiradas por oficiais de justiça, disse-me. Além disso, também me falou da relação perturbada que a comunidade mantém com o DMAE, em função dos vazamentos de água que não são prontamente estancados.

Tendo em vista as suas interessantes colocações e a boa aproximação que obtive com este senhor, a equipe do projeto decidiu realizar uma entrevista com ele. Para que esta fosse bem sucedida e para que todos da equipe estivessem a par de tudo, desenvolvi um roteiro, bem como um mapa para nos situarmos melhor no local.

Meu objetivo nesta entrevista era trazer para o tempo do mundo fragmentos de suas lembranças referentes ao Morro Santana e ao seu processo de ocupação, bem como da memória ambiental daquele espaço. Para que isso acontecesse de forma natural foi necessário que o provocássemos a expor a sua singular trajetória social e seus itinerários urbanos. Para que, por meio de sua história de vida, tivéssemos a oportunidade de conhecer e compreender muitas coisas relacionadas ao Arroio Dilúvio.

Em outra oportunidade de saída a campo, ao chegar ao pé do Morro Santana, deparei-me com o desenvolvimento de uma obra realizada pelo DMAE na Rua 1 (Um). Ao descobrir a importância desta e ao ouvir os relatos dos trabalhadores, a equipe do projeto decidiu realizar uma filmagem com eles. Esta gravação nos rendeu uma crônica (narrativa audiovisual), com relatos de pessoas que conheciam uma outra cidade: a Porto Alegre subterrânea.

Obras de Instalação de Interceptores na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/08/produzimos-este-video-quando-retornamos.html

Ao realizar minha etnografia de rua, por diversas vezes deparei-me com informantes que presenciaram os mesmos acontecimentos; contudo, eles relembraram partes diferentes destes, possivelmente aquilo que mais lhes marcou individualmente. Justamente por isso procurei resgatar, de cada um deles, fragmentos de suas lembranças, instigando-os a pontuarem suas recordações do tempo subjetivo no tempo do mundo. Para que depois eu pudesse unir essas partes e então localizar “as raízes do presente, em solo do passado”.

Foi-me possível perceber que aquela comunidade alimenta costumes rurais, como: a criação de cavalos, galinhas, gansos e o cultivo de pequenas hortas. Por meio de alguns relatos constatei inclusive que alguns nativos da comunidade “CEEE” vieram da zona rural, para o Morro Santana, em busca de oportunidades para uma vida melhor.

Criança e animais em meio a Rua Beco dos Marianos. Autor: Renata Ribeiro.

Como as aprendizagens das tecnologias perpassam a minha etnografia?

Concomitantemente ao desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, eu e a equipe do projeto produzimos, por meio do tratamento documental dos dados recolhidos em campo (fotografia e vídeo), narrativas audiovisuais, crônicas, que foram postadas no blog, onde também há nossos diários de campo e as primeiras conclusões quanto à pesquisa.

O processo de construção destas crônicas iniciou-se pela filmagem previamente roteirizada. Por meio de um programa instalado nos computadores do BIEV e do Instituto Anthropos, a equipe do projeto dividiu as filmagens em episódios que passaram por um processo de catalogação, onde receberam nomes e comentários técnicos quanto à imagem e som. Em seguida, escolhemos e marcamos em cada episódio, os momentos mais importantes. Depois de todo este processo tecnológico de construção das narrativas audiovisuais, a equipe do Projeto Habitantes do Arroio postou estas crônicas, junto a diários de campo e prévias conclusões da pesquisa, no blog do projeto, com o intuito de possibilitar a interatividade entre o pesquisador, o pesquisado e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir com seus relatos e críticas, bem como aos que estão em busca de conhecimento a respeito do Arroio Dilúvio.

Quanto a minha etnografia, as conclusões mais recentes postadas no Blog são as seguintes: a região da Rua Beco dos Marianos, no Morro Santana, dividida pelos bairros Agronomia e Jardim Carvalho esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1 (Um), além de outras pequenas travessas, becos e ruas, que juntas formam a Comunidade “CEEE”.

Este é o espaço que tenho estudado e tentado compreender, cuja ocupação tumultuada teve seu início na década de 70. Hoje os residentes deste local consideram-se pertencentes à “CEEE”. Averigüei também que uma parcela significativa deles veio da zona rural do Estado em busca de novas oportunidades. Em virtude disso o estilo de vida predominante neste espaço pode-se dizer que é formado por uma combinação de costumes rurais e urbanos. Além disso, segundo meus informantes residentes mais antigos do Morro Santana, quando chegaram ali, o arroio já se encontrava poluído. Contudo, ainda era possível pescar.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O destino da Lomba do Asseio


No que a pesquisa sobre a memória ambiental urbana pode ajudar na compreensão da polêmica da ocupação da orla? A forma como entendemos a trajetória dessa relação da cidade com sua orla reflete nos projetos para o futuro dessa relação. A transformação desse lugar encontra ecos na própria memória da canalização do Arroio Dilúvio - que fez surgir uma área muita valorizada onde havia um “vazio” na cidade, a Avenida Ipiranga.

Dia 23 de agosto de 2009 ocorre mais um capítulo das transformações na orla de Porto Alegre. Um votação coloca em jogo o destino da “Ponta do Melo”, do “Pontal do Estaleiro”, da “Lomba do Asseio”. Um lugar que até pouco tempo atrás parecia não ter a menor importância no cotidiano da cidade, é agora um território polêmico.

O local onde se projeta erguer o empreendimento “Pontal do Estaleiro” sobre as ruínas do Estaleiro Só S.A. é descrito como um local abandonado pela cidade, esquecido, perigoso até. Uma descrição que convence, se tudo que sabemos dele é o que se pode observar ao contemplar o mato tomando conta do lugar, os restos da antiga ocupação. Mas essa é uma imagem bem elaborada, uma ruína é tão produto da ação humana quanto uma construção. A imagem de abandono do local, o vazio que se cria neste canto da orla é uma jogada clássica do modelo de ocupação urbana brasileiro, como demonstram inúmeros estudos sobre o assunto – o poder público investe na dotação de infra-estrutura de saneamento, estrutura viária, e então, em um curto espaço de tempo, terrenos se valorizam imensamente, grandes empreendimentos se viabilizam.

Em 1888 essa ponta ganhou o nome de “Ponta do Melo” em função da propriedade que ali existia e que não incluía a orla. A beira do Guaíba era uma área pública de terras marinhas. Naquele local, no início do século XX foi construído um trapiche para o despejo dos cubos, dos cabungos, com dejetos recolhidos das casas de famílias da cidade. Uma estrada de ferro foi feita para levar o esgoto doméstico da cidade até o trapiche, para ser então despejado no Guaíba. A região ficou conhecida com o nome de Lomba do Asseio, que assim como o cheiro dos cabungos, ainda está presente na memória de muitos moradores da cidade, como nosso interlocutor, Sr. Marco Antônio, morador do antigo Areal da Baronesa:

http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/06/rede-de-saneamento-e-rede-de-memorias.html

Como atesta o artigo de Elmar Bones, no Jornal Já, a área permaneceu pública, “propriedade do Estado do Rio Grande do Sul em 1944, quando foi devolvida ao município de Porto Alegre e, seis anos depois, concedida pela prefeitura à empresa Só & Cia, então a mais tradicional ferraria e fundição da cidade que pretendia construir um estaleiro no local. Inaugurado em 1952, o Estaleiro Só, tornou-se uma das maiores empresas do Rio Grande do Sul. Tinha 1.200 empregados em 1967, quando a Câmara Municipal votou a lei 3.076 autorizando o resgate do terreno, isto é, a transferência definitiva da sua propriedade para o Estaleiro Só... Mas a mudança não foi efetivada na época. Pouco depois, em dificuldades, o Estaleiro Só foi vendido para a Empresa Brasileira de Indústria Naval (Ebin), do Rio de Janeiro, com o aval do governo federal. Só nove anos depois, em 1976, foi assinada, pelo então prefeito Guilherme Socias Vilella, a “escritura pública de remissão de foro”, ou seja, a transferência efetiva da propriedade do terreno para a empresa.”

http://www.jornalja.com.br/2009/04/30/pontal-do-estaleiro-na-origem-uma-area-publica-2/

O Estaleiro Só, estabelecendo então conexões com a indústrial naval no país, teve um grande crescimento, que entra em declínio a partir da década de 90, quando diminuem os interesses no setor em Porto Alegre. Com a empresa falida em 1995, o terreno foi levado à leilão em 1999, sendo comprado por um grupo de empresas por R$ 7,2 milhões, mas permanecia ainda com seus usos definidos por lei, impedindo atividades residenciais, comerciais e de serviço. Em 2002, foi aprovada a Lei Complementar nº 470, que definiu os padrões de construção permitidos no local, autorizando a construção de empreendimentos comerciais.

Enquanto isso, toda essa região passava por grandes transformações, como a remoção da conhecida “Vila Cai-Cai” e a construção de um hipermercado em seu lugar, a canalização do Arroio Sanga da Morte, a construção do Museu Iberê Camargo, a construção de um Shopping Center, a duplicação da Avenida Diário de Notícias e a remoção de novas habitações populares. Com todos estes investimentos, o terreno na orla do Guaíba, uma área que por lei é de interesse público, cedida ao grupo de empresas por 7,2 milhões em 1999, já se encontrava valorizada em R$ 150 milhões em 2006. E agora, com o grande aumento da circulação de pessoas na região, a Ponta do Melo é tudo, menos abandonada. A aparente ruína é, na verdade, uma área de grande beleza natural, tomada por vegetação que é importante para a manutenção da dinâmica hídrica da orla, para a circulação dos ventos, e que certamente não comporta o aumento de esgoto doméstico que o empreendimento causaria. Por outro lado, é um lugar ideal para a construção de um parque ou uma área pública de lazer, dando continuidade aos usos da orla que ocorrem no Parque Marinha do Brasil e na orla que segue a Av. Guaíba.

Pouca gente sabe que o Parque Marinha do Brasil se encontra num aterro que foi realizado, originalmente, para construção de empreendimentos residenciais. O aterro da Praia de Belas, antiga forma que a baía da cidade possuía, era mais uma jogada do mercado imobiliário, na década de 1960. Felizmente, o empreendimento não despertou interesse de mercado, pois havia ainda receio de uso residencial do imenso aterro. A área acabou sendo destinada para uso público, em lei promulgada em 1967, sendo hoje, um dos parques mais importantes da capital.

A área da Ponta do Melo parece, no entanto, seguir outros caminhos nos embates legais. Em 7 de junho de 2006, o Jornal do Comércio, de Porto Alegre, já noticiava o seguinte:
“- As pretensões do empreendedor só serão viabilizadas, com a alteração da lei complementar n.º 470, de 2002, que, entre outras coisas, veda a construção de prédios residenciais naquele trecho da orla do Guaíba. O diretor-presidente da SVB Participações, Saul Veras Boff, o diretor do grupo Maggi, Fischel Baril e o arquiteto Jorge Debiagi já apresentaram, em maio, ao prefeito José Fogaça, um esboço do projeto. O passo seguinte será convencer os vereadores de Porto Alegre a alterar a lei.”
http://www.ecoagencia.com.br/?open=artigo&id===AUVZ0cWtGZXJlVaVXTWJVU

Em 2009, a alteração foi votada e aprovada pela câmera de vereadores, mas devido à forma como foi votada, e com a grande manifestação de descontentamento de entidades profissionais, associações ambientalistas e da população em geral, o Prefeito José Fogaça vetou a alteração, abrindo para consulta popular a decisão de aprovar ou não atividade residencial neste espaço da orla do Guaíba.
Sobre esse processo, ver a matéria no Jornal Já: http://www.jornalja.com.br/2009/04/29/pontal-do-estaleiro-uma-lei-sob-medida-1/

Se podemos tirar algum proveito dessa história toda, é, pelo menos, o fato de que essa se tornou uma questão pública para a capital, tendo gerada toda uma comunidade ética, voltada para o debate do assunto.

Dia 23, a votação responde à pergunta, um tanto quanto estranha:

“Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar nº 470, de 02 de janeiro de 2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?”

As respostas disponíveis:
1 – ( ) NÃO
2 – ( ) SIM

Confira seu local de votação, das 9h às 17h:

http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/cs/usu_doc/local_de_vota_por_zona.pdf


Rafael Victorino Devos
bolsista do projeto "Habitantes do Arroio"

domingo, 26 de julho de 2009

A Comunidade "CEEE"

Bolsista Renata Ribeiro

Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Estas e outras questões me guiaram durante o desenvolvimento desta saída a campo. Por meio delas tento resgatar parte dos fragmentos da memória ambiental deste espaço referente à região do Beco dos Marianos.


Mapa da região do Beco dos Marianos - Desenho: Renata Ribeiro

Diário de campo - 01/07/2009


Em virtude dos riscos existentes na região do Beco dos Marianos e da necessidade de ir mais adiante, em minhas saídas a campo, pedi a um amigo que me acompanhasse. Muito bem disposto aceitou meu convite e juntos fomos em direção ao local de pesquisa. Com a câmera fotográfica em mãos, logo comecei a registrar as imagens do arroio, bem como da Rua 1 (Um) e das pessoas que por ali passavam. Em seguida, decidimos continuar a caminhada, subindo a Rua Beco dos Marianos até a entrada do Acesso Heitor Pereira da Silva localizada em uma região alta em relação ao Arroio, na subida do Morro Santana.

Durante todo o trajeto observamos vários níveis na altitude do relevo, de forma que do local onde nos encontrávamos, as várias paisagens apareciam como se estivessem sobrepostas umas às outras. O local, que é uma espécie de beco é todo de chão batido, boa parte repleta de barro. Assim como no restante da região do Beco dos Marianos é possível perceber que no Acesso Heitor Pereira, as casas também levam dois números: um para o DMAE e outro para a CEEE. No entanto, ao contrário do restante da região, o acesso é predominantemente preenchido com casas de madeira bastante precárias, algumas mistas (madeira e alvenaria) e poucas somente de alvenaria, estas mais bem estruturadas, as primeiras do acesso em relação à Rua Beco dos Marianos.

Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Ao longo do trajeto vai surgindo uma maior variação de estilos de casa, sendo que no fim do acesso pude observar que elas são bastante precárias. As que encontrei no final do acesso não respeitam simetria alguma, foram construídas com diferentes pedaços de madeira, são pequeninas e encontram-se cortadas por uma água que corre de cima do morro, provavelmente oriunda de alguma nascente lá no alto, desaguando no Arroio Dilúvio, à altura da Rua 1 (Um), onde estão sendo instalados os interceptores. Outras casas conseguem ser ainda mais inferiores, cercadas de muito lixo e tendo como teto simples lonas de plástico. São construções extremamente frágeis, impossível não sofrerem com apenas uma chuva leve. Contudo, certamente essas moradias representam ainda proteção e amparo aos que ali construíram o seu espaço.

Casebre no Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Já na Rua Beco dos Marianos, meu amigo e eu decidimos subir em direção ao Centro Comunitário da Vila Grécia – uma associação de moradores – para tentar contato com a presidente, Dona Ivone. Antes que chegássemos ao local, um rapaz nos abordou, perguntando sobre o que eu estava fotografando. Apresentei-me e expliquei-lhe o que eu estava fazendo naquela região. Perguntei seu nome e se era morador dali. Anderson, como disse chamar-se, falou-me que tinha nascido naquele local, que residia na Rua Grécia, número 41 e que tinha 21 anos de idade. Durante a conversa perguntei como a comunidade daquela região se denominava. Se eles se consideravam pertencentes à comunidade Beco dos Marianos e se esta de fato existe. Anderson explicou-me que os moradores chamam aquele local de “CEEE”, em função da existência da companhia elétrica naquele local. Contou-me ainda que o Bairro Agronomia está dividido em duas partes: a “CEEE” , referente ao local onde nos encontrávamos e a Tamanca, que é justamente a região onde se encontra a UFRGS. Fiquei bastante surpresa e novamente, indaguei perguntando qual das ruas é considerada a principal pelos residentes da “CEEE”. Disse-me que a principal é a Rua Atenas e que ela é considerada a mais importante não somente pelos moradores, mas por todos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Fiquei muito surpresa, pois acreditava que a principal era a Beco dos Marianos. Durante o conversa perguntei a Anderson, de que forma ele via a obra que estava sendo realizada pelo DMAE, qual era a importância da instalação dos interceptores para ele. Respondeu-me que os interceptores eram muito importantes, pois acreditava que terminariam com a poluição do arroio. Contou-me que alguns moradores da comunidade têm o costume de jogar coisas dentro do arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá – disse-me. Despedi-me de Anderson e seguimos caminho em direção à associação bastante próxima daquele local onde nos encontrávamos.

Morro Santana, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Chegando ao Centro Comunitário da Vila Grécia fomos em direção a um grupo de meninos que ali estavam. Cumprimentei-os e me apresentei falando-lhes que gostaria de encontrar a Dona Ivone a presidente da associação. Disseram-me que ela não se encontrava no local. Agradeci, dei tchau e segui fotografando um jogo de futebol que acontecia no pátio da associação.

Ainda dentro da associação encontrei um homem de meia idade, sentado perto de um cavalo em frente à sede do centro comunitário. Dirige-me até ele, saudei-o, explicando sobre o nosso projeto. Muito receptivo, falou estar disposto a ajudar no que estivesse ao seu alcance. Disse chamar-se Joyne que residia na Rua Beco dos Marianos, número 575 e que era funcionário publico estadual da Secretária da Segurança. Contou-me ser morador da região desde que nasceu há 53 anos. Recordou-se do tempo em que naquelas redondezas só havia a casa de sua mãe (que ainda é viva), mais umas duas outras ou três – o resto era mato – disse. Falou-me das ocupações cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. Contou que as primeiras pessoas a se instalarem ali na região foram retiradas por oficiais de justiça a mando da prefeitura, mas não demorou muito para a área ser novamente ocupada. Joyne falou-me também que a sede da associação, que é um galpão, pertencia a CEEE, mais precisamente a topografia. Em seguida, ele apontou para onde estávamos sentados, dizendo que aquilo era um equipamento para elevar os carros da companhia elétrica, durante a troca de óleo.

Ao falar de suas lembranças referentes àquele espaço, o Sr. Joyne resgatou memórias de um tempo subjetivo sobre o local, trazendo-as para o tempo do mundo. No entanto essas recordações resgatadas por ele, hoje representam apenas fragmentos de um passado mais ou menos distante, não sendo mais possível trazê-las para o tempo do mundo de forma fiel e integral. Assim, um dos meus principais objetivos dentro desta comunidade é justamente buscar reunir estes fragmentos de recordações revividos pelo Sr. Joyne, bem como as de outros moradores daquele espaço. Afinal, é justamente por meio do resgate destes fragmentos que será possível parte da reconstituição da memória ambiental do Arroio Dilúvio dentro daquele espaço.

terça-feira, 17 de março de 2009

O impacto ambiental no Arroio Dilúvio: a enfermidade da água

O impacto ambiental urbano pode ser medido pela qualidade da água dos arroios que atravessam a cidade. O Arroio Dilúvio, com 14 km de extensão, é um dos melhores exemplos para demonstrar como o incremento da densidade de edificação e das atividades ao longo de seu curso aumentam o impacto ambiental. O diagnóstico ambiental do Dilúvio revelou a existência de três zonas de distintos graus de qualidade de água. Na zona de baixo impacto, região das cabeceiras onde se encontram as nascentes do arroio próximas ao parque Saint-Hillaire e as encostas do Morro Santana, as águas ainda são cristalinas. Com densidade de edificação muito baixa, nessa região os cursos de seus afluentes são, na maior parte dos casos, ainda naturais. Na zona de médio impacto, que se refere ao segmento intermediário situado entre a Avenida Antonio de Carvalho e a Rua Vicente da Fontoura, as águas já se encontram comprometidas.

Região das nascentes: zona de baixo impacto

Nesse trecho, o leito principal do arroio e os de alguns de seus afluentes estão canalizados. Na zona de alto impacto, que se refere ao segmento final do Dilúvio, desde a Rua Vicente da Fontoura até a foz no Lago Guaíba, o estado das águas é crítico e permite avaliar as conseqüências da urbanização sobre a drenagem natural das águas. Nessa zona, o canal do arroio foi retificado. As diferenças entre a situação atual e a original podem ser visualizadas pela comparação entre o mapa e os blocos-diagramas abaixo e a reconstrução da sub-bacia realizada a partir de mapas antigos.

Próximo a Rua Vicente da Fontoura: zona de médio impacto

A análise dos indicadores químicos e biológicos das águas ao longo do curso do arroio permitiu o estabelecimento de um gradiente de qualidade da água e a delimitação de zonas com qualidade ambiental diferenciada. Os resultados sintetizados no Mapa de Zoneamento Ambiental do Arroio Dilúvio e nos blocos-diagramas mostram que as regiões do arroio próximas às áreas urbanizadas apresentam os maiores graus de poluição, ao contrário do que ocorre nas suas nascentes, onde os valores são bem mais baixos. A elevação dos indicadores de poluição orgânica e a redução de valores de oxigênio dissolvido na água em direção a foz são diagnósticos do aumento da poluição. A coincidência desse padrão com o aumento da intensidade de ocupação urbana das margens do arroio nessa direção indica que a atividade antrópica é o principal fator de comprometimento da qualidade ambiental da água estudada. Até mesmo algumas nascentes do arroio estão parcialmente comprometidas, como indica a quantidade de coliformes fecais ali registrados.


Desembocadura no Guaíba: zona de alto impacto

A zona de baixo impacto apresenta os menores teores de poluentes do tipo orgânico. Todavia, pode-se observar em alguns segmentos a presença de coliformes fecais indicando ocupação urbana. Na zona de médio impacto, há um aumento significativo de coliformes fecais e a ocorrência de poluentes inorgânicos. Na zona de alto impacto, todos os parâmetros apresentam teores máximos para a bacia do Dilúvio, destacando-se a quantidade de poluentes orgânicos e inorgânicos.

Autores: Maria Luiza Porto e Paulo Luiz de Oliveira

Fonte: Atlas ambiental de Porto Alegre. Rualdo Menegat (Coord.). Ed. Universidade/UFRGS, 1998. Pg. 174

ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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