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domingo, 26 de julho de 2009

A Comunidade "CEEE"

Bolsista Renata Ribeiro

Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Estas e outras questões me guiaram durante o desenvolvimento desta saída a campo. Por meio delas tento resgatar parte dos fragmentos da memória ambiental deste espaço referente à região do Beco dos Marianos.


Mapa da região do Beco dos Marianos - Desenho: Renata Ribeiro

Diário de campo - 01/07/2009


Em virtude dos riscos existentes na região do Beco dos Marianos e da necessidade de ir mais adiante, em minhas saídas a campo, pedi a um amigo que me acompanhasse. Muito bem disposto aceitou meu convite e juntos fomos em direção ao local de pesquisa. Com a câmera fotográfica em mãos, logo comecei a registrar as imagens do arroio, bem como da Rua 1 (Um) e das pessoas que por ali passavam. Em seguida, decidimos continuar a caminhada, subindo a Rua Beco dos Marianos até a entrada do Acesso Heitor Pereira da Silva localizada em uma região alta em relação ao Arroio, na subida do Morro Santana.

Durante todo o trajeto observamos vários níveis na altitude do relevo, de forma que do local onde nos encontrávamos, as várias paisagens apareciam como se estivessem sobrepostas umas às outras. O local, que é uma espécie de beco é todo de chão batido, boa parte repleta de barro. Assim como no restante da região do Beco dos Marianos é possível perceber que no Acesso Heitor Pereira, as casas também levam dois números: um para o DMAE e outro para a CEEE. No entanto, ao contrário do restante da região, o acesso é predominantemente preenchido com casas de madeira bastante precárias, algumas mistas (madeira e alvenaria) e poucas somente de alvenaria, estas mais bem estruturadas, as primeiras do acesso em relação à Rua Beco dos Marianos.

Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Ao longo do trajeto vai surgindo uma maior variação de estilos de casa, sendo que no fim do acesso pude observar que elas são bastante precárias. As que encontrei no final do acesso não respeitam simetria alguma, foram construídas com diferentes pedaços de madeira, são pequeninas e encontram-se cortadas por uma água que corre de cima do morro, provavelmente oriunda de alguma nascente lá no alto, desaguando no Arroio Dilúvio, à altura da Rua 1 (Um), onde estão sendo instalados os interceptores. Outras casas conseguem ser ainda mais inferiores, cercadas de muito lixo e tendo como teto simples lonas de plástico. São construções extremamente frágeis, impossível não sofrerem com apenas uma chuva leve. Contudo, certamente essas moradias representam ainda proteção e amparo aos que ali construíram o seu espaço.

Casebre no Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Já na Rua Beco dos Marianos, meu amigo e eu decidimos subir em direção ao Centro Comunitário da Vila Grécia – uma associação de moradores – para tentar contato com a presidente, Dona Ivone. Antes que chegássemos ao local, um rapaz nos abordou, perguntando sobre o que eu estava fotografando. Apresentei-me e expliquei-lhe o que eu estava fazendo naquela região. Perguntei seu nome e se era morador dali. Anderson, como disse chamar-se, falou-me que tinha nascido naquele local, que residia na Rua Grécia, número 41 e que tinha 21 anos de idade. Durante a conversa perguntei como a comunidade daquela região se denominava. Se eles se consideravam pertencentes à comunidade Beco dos Marianos e se esta de fato existe. Anderson explicou-me que os moradores chamam aquele local de “CEEE”, em função da existência da companhia elétrica naquele local. Contou-me ainda que o Bairro Agronomia está dividido em duas partes: a “CEEE” , referente ao local onde nos encontrávamos e a Tamanca, que é justamente a região onde se encontra a UFRGS. Fiquei bastante surpresa e novamente, indaguei perguntando qual das ruas é considerada a principal pelos residentes da “CEEE”. Disse-me que a principal é a Rua Atenas e que ela é considerada a mais importante não somente pelos moradores, mas por todos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Fiquei muito surpresa, pois acreditava que a principal era a Beco dos Marianos. Durante o conversa perguntei a Anderson, de que forma ele via a obra que estava sendo realizada pelo DMAE, qual era a importância da instalação dos interceptores para ele. Respondeu-me que os interceptores eram muito importantes, pois acreditava que terminariam com a poluição do arroio. Contou-me que alguns moradores da comunidade têm o costume de jogar coisas dentro do arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá – disse-me. Despedi-me de Anderson e seguimos caminho em direção à associação bastante próxima daquele local onde nos encontrávamos.

Morro Santana, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Chegando ao Centro Comunitário da Vila Grécia fomos em direção a um grupo de meninos que ali estavam. Cumprimentei-os e me apresentei falando-lhes que gostaria de encontrar a Dona Ivone a presidente da associação. Disseram-me que ela não se encontrava no local. Agradeci, dei tchau e segui fotografando um jogo de futebol que acontecia no pátio da associação.

Ainda dentro da associação encontrei um homem de meia idade, sentado perto de um cavalo em frente à sede do centro comunitário. Dirige-me até ele, saudei-o, explicando sobre o nosso projeto. Muito receptivo, falou estar disposto a ajudar no que estivesse ao seu alcance. Disse chamar-se Joyne que residia na Rua Beco dos Marianos, número 575 e que era funcionário publico estadual da Secretária da Segurança. Contou-me ser morador da região desde que nasceu há 53 anos. Recordou-se do tempo em que naquelas redondezas só havia a casa de sua mãe (que ainda é viva), mais umas duas outras ou três – o resto era mato – disse. Falou-me das ocupações cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. Contou que as primeiras pessoas a se instalarem ali na região foram retiradas por oficiais de justiça a mando da prefeitura, mas não demorou muito para a área ser novamente ocupada. Joyne falou-me também que a sede da associação, que é um galpão, pertencia a CEEE, mais precisamente a topografia. Em seguida, ele apontou para onde estávamos sentados, dizendo que aquilo era um equipamento para elevar os carros da companhia elétrica, durante a troca de óleo.

Ao falar de suas lembranças referentes àquele espaço, o Sr. Joyne resgatou memórias de um tempo subjetivo sobre o local, trazendo-as para o tempo do mundo. No entanto essas recordações resgatadas por ele, hoje representam apenas fragmentos de um passado mais ou menos distante, não sendo mais possível trazê-las para o tempo do mundo de forma fiel e integral. Assim, um dos meus principais objetivos dentro desta comunidade é justamente buscar reunir estes fragmentos de recordações revividos pelo Sr. Joyne, bem como as de outros moradores daquele espaço. Afinal, é justamente por meio do resgate destes fragmentos que será possível parte da reconstituição da memória ambiental do Arroio Dilúvio dentro daquele espaço.

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