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segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Paisagem Urbana do Arroio

video

A paisagem do Arroio Dilúvio não é apenas um elemento “natural” da morfologia dos morros e vales de Porto Alegre. O arroio não é, tampouco, um canal artificial irremediavelmente degradado pela vida urbana. Sua paisagem possui muitas camadas de sentido, é possível conhecê-la de muitas maneiras, dependendo do olhar que lhe dirigimos, dos gestos que praticamos às suas margens, da escuta que lhe dedicamos, de como percebemos sua presença em nosso cotidiano.
Por isso mesmo, a pesquisa do Projeto Habitantes do Arroio tem adotado diferentes estratégias de investigação, utilizando a própria produção de imagens sobre a Avenida Ipiranga, as águas, as pontes, os animais, como uma forma de perceber diferentes composições de tantos elementos heterogêneos. Inspiramo-nos no conceito de Georg Simmel sobre a paisagem: a paisagem é uma forma construída em meio à vida social, elegemos um conjunto de elementos que percebemos no mundo, e os ordenamos segundo determinadas ordens, arranjos, incluindo ou retirando, destacando ou escamoteando o esgoto, a água, as árvores, o trânsito, os pedestres, a grama, os canos, na hora de compor um quadro. E a partir desta composição elaborada, agimos no mundo, praticamos a ordem negociada das coisas. Aquilo que o Arroio Dilúvio pode se tornar na paisagem urbana de Porto Alegre depende da nossa capacidade de imaginar, negociar e praticar novos arranjos.

“… o animal também não deixa de superar distâncias, e sempre do modo mais hábil e mais complexo, mas ele não faz ligação entre o começo e o fim do percurso, ele não opera o milagre do caminho… É com a construção da ponte que esta prestação atinge o seu ponto máximo. Aqui parecem se opor à vontade humana de juntar espaços não só a resistência passiva da exterioridade espacial mas a resistência ativa de uma configuração particular. Superado o obstáculo, a ponte simboliza a extensão da nossa esfera volitiva no espaço. Para nós, e só para nós, as margens do rio não são apenas exteriores uma à outra, mas ‘separada’; e a noção de separação estaria despojada de sentido se não houvéssemos começado por uni-las, nos nossos pensamentos finalizados, nas nossas necessidades, na nossa imaginação.”
Georg Simmel: “A Ponte e a Porta”, in REVISTA POLÍTICA & TRABALHO, João Pessoa, n°12, 1996. p. 10 a 14. Disponível online em:
http://www.cchla.ufpb.br/ppgs/politica/index12.html

Aqui no blog é possível encontrar diferentes composições, expressas nas lembranças de antigos moradores, nos projetos de técnicos, nos impasses de diferentes realidades dos bairros da cidade. Mas também ensaiamos, a partir da captação de imagens nas margens do arroio, e na montagem de pequenas seqüências de imagens, esses olhares e escutas da paisagem: de dentro do arroio, a partir da avenida, em meio aos cruzamentos, do topo de edifícios, sobre as
pontes, de baixo das pontes, a pé, de carroça, de carro, de barco. O ritmo das imagens (cortes, movimentos) evoca diferentes usos (contemplação, esgoto, lazer, trabalho). Os caminhos e as correntezas das águas e do trânsito que convergem na Avenida Ipiranga, na sua paisagem sonora.


Envie para o blog do Habitantes do Arroio algumas composições (em foto, vídeo, texto, desenho, som) que gostaria de compartilhar. Envie um email para habitantesdoarroio.leitor@blogger.com e faça circular as suas imagens.

domingo, 26 de julho de 2009

A Comunidade "CEEE"

Bolsista Renata Ribeiro

Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Estas e outras questões me guiaram durante o desenvolvimento desta saída a campo. Por meio delas tento resgatar parte dos fragmentos da memória ambiental deste espaço referente à região do Beco dos Marianos.


Mapa da região do Beco dos Marianos - Desenho: Renata Ribeiro

Diário de campo - 01/07/2009


Em virtude dos riscos existentes na região do Beco dos Marianos e da necessidade de ir mais adiante, em minhas saídas a campo, pedi a um amigo que me acompanhasse. Muito bem disposto aceitou meu convite e juntos fomos em direção ao local de pesquisa. Com a câmera fotográfica em mãos, logo comecei a registrar as imagens do arroio, bem como da Rua 1 (Um) e das pessoas que por ali passavam. Em seguida, decidimos continuar a caminhada, subindo a Rua Beco dos Marianos até a entrada do Acesso Heitor Pereira da Silva localizada em uma região alta em relação ao Arroio, na subida do Morro Santana.

Durante todo o trajeto observamos vários níveis na altitude do relevo, de forma que do local onde nos encontrávamos, as várias paisagens apareciam como se estivessem sobrepostas umas às outras. O local, que é uma espécie de beco é todo de chão batido, boa parte repleta de barro. Assim como no restante da região do Beco dos Marianos é possível perceber que no Acesso Heitor Pereira, as casas também levam dois números: um para o DMAE e outro para a CEEE. No entanto, ao contrário do restante da região, o acesso é predominantemente preenchido com casas de madeira bastante precárias, algumas mistas (madeira e alvenaria) e poucas somente de alvenaria, estas mais bem estruturadas, as primeiras do acesso em relação à Rua Beco dos Marianos.

Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Ao longo do trajeto vai surgindo uma maior variação de estilos de casa, sendo que no fim do acesso pude observar que elas são bastante precárias. As que encontrei no final do acesso não respeitam simetria alguma, foram construídas com diferentes pedaços de madeira, são pequeninas e encontram-se cortadas por uma água que corre de cima do morro, provavelmente oriunda de alguma nascente lá no alto, desaguando no Arroio Dilúvio, à altura da Rua 1 (Um), onde estão sendo instalados os interceptores. Outras casas conseguem ser ainda mais inferiores, cercadas de muito lixo e tendo como teto simples lonas de plástico. São construções extremamente frágeis, impossível não sofrerem com apenas uma chuva leve. Contudo, certamente essas moradias representam ainda proteção e amparo aos que ali construíram o seu espaço.

Casebre no Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Já na Rua Beco dos Marianos, meu amigo e eu decidimos subir em direção ao Centro Comunitário da Vila Grécia – uma associação de moradores – para tentar contato com a presidente, Dona Ivone. Antes que chegássemos ao local, um rapaz nos abordou, perguntando sobre o que eu estava fotografando. Apresentei-me e expliquei-lhe o que eu estava fazendo naquela região. Perguntei seu nome e se era morador dali. Anderson, como disse chamar-se, falou-me que tinha nascido naquele local, que residia na Rua Grécia, número 41 e que tinha 21 anos de idade. Durante a conversa perguntei como a comunidade daquela região se denominava. Se eles se consideravam pertencentes à comunidade Beco dos Marianos e se esta de fato existe. Anderson explicou-me que os moradores chamam aquele local de “CEEE”, em função da existência da companhia elétrica naquele local. Contou-me ainda que o Bairro Agronomia está dividido em duas partes: a “CEEE” , referente ao local onde nos encontrávamos e a Tamanca, que é justamente a região onde se encontra a UFRGS. Fiquei bastante surpresa e novamente, indaguei perguntando qual das ruas é considerada a principal pelos residentes da “CEEE”. Disse-me que a principal é a Rua Atenas e que ela é considerada a mais importante não somente pelos moradores, mas por todos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Fiquei muito surpresa, pois acreditava que a principal era a Beco dos Marianos. Durante o conversa perguntei a Anderson, de que forma ele via a obra que estava sendo realizada pelo DMAE, qual era a importância da instalação dos interceptores para ele. Respondeu-me que os interceptores eram muito importantes, pois acreditava que terminariam com a poluição do arroio. Contou-me que alguns moradores da comunidade têm o costume de jogar coisas dentro do arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá – disse-me. Despedi-me de Anderson e seguimos caminho em direção à associação bastante próxima daquele local onde nos encontrávamos.

Morro Santana, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Chegando ao Centro Comunitário da Vila Grécia fomos em direção a um grupo de meninos que ali estavam. Cumprimentei-os e me apresentei falando-lhes que gostaria de encontrar a Dona Ivone a presidente da associação. Disseram-me que ela não se encontrava no local. Agradeci, dei tchau e segui fotografando um jogo de futebol que acontecia no pátio da associação.

Ainda dentro da associação encontrei um homem de meia idade, sentado perto de um cavalo em frente à sede do centro comunitário. Dirige-me até ele, saudei-o, explicando sobre o nosso projeto. Muito receptivo, falou estar disposto a ajudar no que estivesse ao seu alcance. Disse chamar-se Joyne que residia na Rua Beco dos Marianos, número 575 e que era funcionário publico estadual da Secretária da Segurança. Contou-me ser morador da região desde que nasceu há 53 anos. Recordou-se do tempo em que naquelas redondezas só havia a casa de sua mãe (que ainda é viva), mais umas duas outras ou três – o resto era mato – disse. Falou-me das ocupações cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. Contou que as primeiras pessoas a se instalarem ali na região foram retiradas por oficiais de justiça a mando da prefeitura, mas não demorou muito para a área ser novamente ocupada. Joyne falou-me também que a sede da associação, que é um galpão, pertencia a CEEE, mais precisamente a topografia. Em seguida, ele apontou para onde estávamos sentados, dizendo que aquilo era um equipamento para elevar os carros da companhia elétrica, durante a troca de óleo.

Ao falar de suas lembranças referentes àquele espaço, o Sr. Joyne resgatou memórias de um tempo subjetivo sobre o local, trazendo-as para o tempo do mundo. No entanto essas recordações resgatadas por ele, hoje representam apenas fragmentos de um passado mais ou menos distante, não sendo mais possível trazê-las para o tempo do mundo de forma fiel e integral. Assim, um dos meus principais objetivos dentro desta comunidade é justamente buscar reunir estes fragmentos de recordações revividos pelo Sr. Joyne, bem como as de outros moradores daquele espaço. Afinal, é justamente por meio do resgate destes fragmentos que será possível parte da reconstituição da memória ambiental do Arroio Dilúvio dentro daquele espaço.

domingo, 19 de julho de 2009

Projeto de despoluição e revitalização

Estamos lançando uma novidade no Blog do Habitantes do Arroio. São colaborações de leitores do blog. Se você quiser colaborar, saiba como, ao final desta mensagem. As colaborações publicadas serão comentadas pela equipe ao final da mensagem.

Segue a primeira colaboração recebida:


Prezados Amigos do Blog HABITANTES DO ARROIO:

Gostaria de postar esse Projeto para que todos possam apreciar, discutir, criticar e aperfeiçoar. Um grande abraço. Luiz C. Vaz Ferreira (Design)


ARROIO DILÚVIO: PROJETO DE DESPOLUIÇÃO E REVITALIZAÇÃO - 2009 -
Proj: Luiz Carlos Vaz Ferreira Fone: (51) 9306 6367

Despoluição
Visa dividir o leito do dilúvio em 3 (três) vias, sendo a via do centro um corredor de estrutura de concreto armado em módulos, onde apenas correria a água pura e cristalina. Nos 2 (dois) lados opostos, teríamos corredores exclusivos para a captação das redes cloacais e pluviais, estas redes antes de entrar em contato com os novos corredores passariam por Estações de Reciclagem Primária para conter areia e pequenos resíduos de lixos domésticos. Estes corredores seriam transformados em Galerias de Esgoto, pois receberiam coberturas com chapas de concreto móveis para eventualmente serem retiradas para a manutenção da limpeza quando necessária e no final dos seus cursos, seriam desembocadas em duas Estações de Tratamento de Esgoto para depois desaguar no Lago Guaíba. Com a construção das Estações de Reciclagem Primária, para uma pré-seleção e, com a construção das novas galerias, de imediato poderíamos perceber que lixos domésticos, restos de obras, pneus velhos e tudo que se possa imaginar jogados no dilúvio, já seriam evitados, isto possibilitará que tenhamos um melhor fluxo.

Revitalização
Com um córrego de água cristalina deslizando sobre uma estrutura de concreto em formato oval para melhor ser visualizada, poderemos imaginar um projeto de urbanização adaptado para a comunidade apreciar e desfrutar do novo cartão postal da cidade. Além de estar voltado para os benefícios do meio ambiente, estaremos recuperando a memória histórica de um rio, que no passado passava sob a Ponte de Pedras, construída pelos escravos em 1848, teve o seu curso alterado na década de 1930 e está preservada no Largo dos Açorianos A realização desse projeto possibilitará que Porto Alegre seja considerada modelo para outras cidades como uma referência mundial.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pescando imagens da fauna do arroio


Quem tem passado na Avenida Ipiranga com um olhar mais atento para o Arroio Dilúvio pode se surpreender com a grande quantidade de garças sobrevoando as águas. Vultos brancos, graciosos, movimentam-se entre a copa das árvores, os taludes e as pequenas ilhas em meio às águas do Dilúvio, evitando as pistas movimentadas dos automóveis. Se olharmos mais atentamente, não são apenas garças que compõem a fauna que habita o arroio. Neste trecho, entre as Avenidas Ramiro Barcelos e Silva Só, encontramos muitas tartarugas, biguás e por incrível que pareça, alguns peixes. Embora pareça uma contradição, encontrar tais animais não significa necessariamente que o arroio volta a respirar, que suas águas estejam com níveis mais aceitáveis de degradação. Justamente a presença de matéria orgânica em grande quantidade, advinda do lixo, do esgoto cloacal ainda presente no arroio, pode contribuir para a proliferação de microorganismos, de insetos, e de outras fontes de alimento para os animais de maior porte. Por outro lado, a presença de algumas poucas espécies em maior quantidade poderia ser também um sinal de degradação do ambiente, pois espécies resistentes, como a tartaruga que se vê no arroio, podem ser compreendidas como indicadores da qualidade ambiental do lugar. Tais animais, além de se reproduzirem em um habitat inusitado como as saídas de encanamentos de esgoto, podem ser vetores de doenças, ou estar sujeitos a processos conhecidos como mutagênicos, ou seja, de alteração das suas características originais, como ocorre, por exemplo, com as pombas que apresentam deformidades no meio urbano. Tais informações estarão desenvolvidas em breve, aqui no blog, após consultarmos alguns especialistas na área. Por enquanto, acompanhe a nossa pescaria de imagens e admire os ritmos da paisagem urbana.

ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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