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domingo, 24 de janeiro de 2010

Aulas de geografia e história no Arroio Dilúvio 2

Apresentamos mais um vídeo do percurso realizado com os alunos de 5a e 6a séries da Escola Estadual de Ensino Fundamental Prof. Sylvio Torres, que participam de um projeto desenvolvido pela professora Rosane (Vilma) Arrial.

As imagens foram feitas em dezembro de 2009, durante um percurso guiado pelos alunos, costeando o Arroio Dilúvio, até a Barragem do Sabão. Os vídeos foram editados seguindo as ótimas perguntas dos alunos sobre a sua realidade ambiental. Algumas vezes, os alunos eram provocados pela equipe de gravação ou pela professora, mas na maioria das vezes, seu olhar de estranhamento sobre a paisagem do arroio foi o que direcionou a lente da camera e o microfone.




A principal questão que aparece aqui é sobre a relação do "valão" com a barragem e com a água que abastace as casas da região. O nome de "valão" que é recorrente em outras regiões da bacia do arroio, principalmente na beira de seus afluentes, não se refere à água que corre no arroio, mas sim ao buraco pelo qual a água passa. Assim faz sentido a resposta de Guilherme sobre a utilidade da barragem - "Para destruir a casa dos outros" - na medida em que o valão vai transbordar quando tiver muita água para escorrer da barragem. Para entender o lugar desse "valo", ou "valão" na Bacia do Arroio Dilúvio, vale a pena olhar algumas imagens no blog que mostram a drenagem urbana e a posição dessa parte do dilúvio justamente entre morros.

Outra questão que é comentada é o abastecimento de água na região, e a importância da Barragem do Sabão

De acordo com um estudo feito por pesquisadores do Departamento. de Geografia da UFRGS, "A barragem Lomba do Sabão foi construída na década de 40 para o tratamento de água com fins de abastecimento público. Hoje, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Lomba do Sabão abastece, majoritariamente, os bairros Lomba do Pinheiro e Agronomia, sendo responsável pelo tratamento e distribuição de 4% da água consumida no município de Porto Alegre, abastecendo 48.300 habitantes (Bendati et al., 1998). Esta barragem é alimentada por seis sub-bacias de arroios de pequeno porte que compõem a bacia do Arroio Dilúvio e, de acordo com Tavares (1997), está localizada na região limítrofe entre os municípios de Porto Alegre (E-SE) e Viamão (W), dentro do Parque Saint Hilaire, que constitui, em sua maior parte, área de preservação permanente. A área de contribuição da represa é de 1.428 ha, na qual atualmente residem cerca de 23.000 habitantes (Bendati et al., 1998). Este reservatório tem caráter estratégico para a cidade e para o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), considerando que constitui a única captação de água que não provém do Lago Guaíba e, portanto, representa uma área livre de poluidores potenciais como o Pólo Petroquímico, o Pólo Carboquímico, indústrias de papel e celulose, de couros, além da navegação. Visto isso, "(...) a manutenção desta Estação de Tratamento de Água garante a continuidade do abastecimento, caso ocorram eventuais problemas de contaminação na bacia do Guaíba" (Bendati et al., 1998). Entretanto, a qualidade da água dos mananciais que deságuam na barragem tem sido comprometida no decorrer dos anos, devido à ocupação urbana progressiva em área no entorno do reservatório."

veja mais em:
http://www.ub.es/geocrit/b3w-407.htm


Para saber mais sobre o projeto da escola, veja a primeira postagem da série:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2010/01/aulas-de-geografia-e-historia-no-arroio.html


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Aulas de geografia e história no Arroio Dilúvio

Apresentamos alguns vídeos produzidos em parceria com um projeto da Escola Estadual de Ensino Fundamental Prof. Sylvio Torres, que é desenvolvido pela professora Rosane (Vilma) Arrial, com alunos de 5a e 6a séries.

Em dezembro de 2009 fizemos um percurso com os alunos, costeando o Arroio Dilúvio, até a Barragem do Sabão. No caminho pelas ruas da Vila Herdeiros muitos questionamentos foram feitos pelos alunos, sobre a dinâmica das águas do “valão” que costuma encher e alagar as casas às suas margens. Para além do funcionamento ecossistêmico do arroio, os alunos se perguntavam também sobre as relações da comunidade com suas águas e sobre as responsabilidades para com os problemas ambientais locais. Colocaremos aqui no blog alguns dos vídeos que apresentam estes questionamentos, apontando links de outras postagens que ajudam a esclarecer as ótimas perguntas dos alunos




A iniciativa da Professora Vilma, que como ela mesma menciona, precisa de constante investimento, já recebeu o apoio de algumas entidades voltadas para as questões ambientais e para outras questões relacionadas a cidadania e educação. Essa é uma iniciativa que poderia ser reproduzida em outras escolas que se localizam na Bacia do Arroio Dilúvio.

A Escola Estadual de Ensino Fundamental Prof. Sylvio Torres fica na Rua Erotilde Machado Santana – Bairro Agronomia - Porto Alegre - Rio Grande Do Sul Telefone: (51) 3319-7678. As fotografias que aparecem no vídeo foram feitas em junho de 2008, e foram disponibilizadas pela professora.

Veja na sequência mais postagens com vídeos feitos durante este percurso.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Surf no Dilúvio


Após o temporal que atingiu Porto Alegre na última quinta-feira, uma notícia inusitada se espalhou pelos sites de vídeos, blogs e agências de notícia do mundo todo, mostrando a iniciativa do publicitário Ricardo Dullius e de seus amigos Nelson Pinto, Juliano Didonet e Mark Daniel de aproveitar a enxurrada no Arroio Dilúvio para a prática do Surf. De todos os conflitos de uso e projetos para o Arroio, a sua utilização para o surf e como estratégia de mídia foi de longe a menos esperada de nossa pesquisa...




Conforme descrito no site http://www.aisimhein.com.br/esportes/surf-na-enchente/

"eles esperaram bastante tempo pelas condições certas. Disseram que é uma combinação de muita chuva em um curto espaço de tempo que faz o dilúvio ser surfável.

A ação só envolveu os quatro amigos.Mas muitos passantes registraram o fato. Dullius declarou em seu Twitter: ¨ Fazer algo que nunca foi feito gera uma sensação que nunca foi sentida e completamente indescritível. ¨
Sobre os boatos de a função ter sido uma ação promocional, eles disseram que sabiam que ia gerar muita mídia espontânea e que aproveitaram para divulgar as marcas deles a BOAT camisetas, a Resting Bird e de Pranchas Roots Corp."


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estação de Bombeamento Ponta da Cadeia

Estas narrativas audiovisuais (crônicas) foram elaboradas com material recolhido em saída de campo realizada em 26/08/2009 na Estação de Bombeamento Ponta da Cadeia, onde estavam presentes Maria de Lourdes Wolf do departamento de comunicação social - DMAE e o Engenheiro Waldir Flores - DMAE. Nesta ocasião, nós da equipe do Projeto Habitantes do Arroio tivemos a oportunidade de conhecer e compreender, não somente, o Projeto Socioambiental, como também a realidade cotidiana do DMAE – Departamento de Água e Esgoto.

Por meio de entrevista, o Engenheiro Waldir Flores nos conta sobre os projetos em andamento, bem como a realidade enfrentada diariamente pelo departamento.

O que é o Socioambiental? De que maneira ele beneficiará o Arroio Dilúvio e a Cidade de Porto Alegre? Como ocorre a abordagem realizada pelo DMAE? De que forma esta é recebida pelos moradores? Estas são apenas algumas das muitas questões que foram elucidadas durante esta entrevista, e que são abordadas nas crônicas que seguem abaixo.




quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O caso do Beco dos Marianos

Segue abaixo uma síntese da pesquisa de campo que está sendo realizada pela bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial Renata Ribeiro, na região da Rua Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana e que contempla parte de uma das ações do “Projeto Habitantes do Arroio”, financiado pelo CNPq. Esta pesquisa será apresentada na Feira de Iniciação Científica da UFRGS, a realizar-se no dia 20 de outubro de 2009, na Reitoria da UFRGS, Campus Central, Paulo Gama nº110, das 13 às 18hs. Contamos com a sua presença.

O Projeto Habitantes do Arroio vem sendo realizado desde janeiro de 2009, e tem como principais objetivos disseminar entre grupos urbanos e instituições locais, informações técnicas e científicas a respeito dos recursos hídricos, da bacia hidrográfica do Lago Guaíba e da microbacia do Arroio Dilúvio, a partir da construção de narrativas audiovisuais (que são postados no blog do projeto), referentes aos desafios e aos impactos ambientais, econômicos e sociais implicados na destinação adequada e no tratamento de esgotos.
Rua João Alfredo (antiga Rua da Margem). Autor: Luna Carvalho.

Memórias do antgo riacho na Cidade Baixa:

Com a finalidade de fazer uma primeira aproximação com objeto da pesquisa, iniciei as minhas saídas a campo, no dia 24/04/2009, na região da Cidade Baixa, local onde Luna, minha colega, desenvolve seu estudo. Durante a etnografia de rua procurei descobrir os vários lugares por onde outrora corriam as águas do riacho (o dilúvio antes das obras) – rememorando o seu percurso. Constatei que aquela região guarda muitos causos referentes às enchentes, à cultura carnavalesca e quilombola da cidade, uma importante contribuição para a reconstrução da memória ambiental daquela região e de Porto Alegre.

Rua Beco dos Marianos vista do alto do Morro Snatana. Autor: Renata Ribeiro.

A Comunidade “CEEE”:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/07/comunidade-da-ceee_6311.html

Familiarizada com esta área onde antigamente passava o arroio Dilúvio, iniciei meu trabalho de campo no extremo oposto, ou seja, na região do Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana, dividido pelos Bairros Jardim Carvalho e Agronomia. Minhas primeiras saídas a campo foram guiadas pelo intuito de descobrir a forma com que os moradores daquela região do Morro Santana se autodenominavam: sentiam-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou para eles esta era apenas uma rua, como outra qualquer, no mapa da cidade.

Durante este estudo, procurei resgatar, por meio dos relatos dos moradores desta localidade, fragmentos de suas memórias que pudessem elucidar as seguintes questões: Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Além de buscar as respostas para estas e outras perguntas, tenho buscado compreender a diversidade sócio-cultural relativa à combinação entre o rural e o urbano neste espaço.

Ao longo de minha etnografia conheci Anderson, um jovem bastante pobre, de 21 anos de idade – antigo morador do Morro Santana. Este rapaz é quem, no primeiro momento, elucida minha etnografia, pois me fez saber que a região do Beco dos Marianos é denominada de “CEEE” pelos moradores, em virtude da existência de uma subestação da companhia elétrica, no alto do Morro Santana. Além disso, também contou que a rua considerada a mais importante, pelos moradores daquela região, é a Atenas e não a Beco dos Marianos, como nós pesquisadores pensávamos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Anderson também falou do porquê, na visão dele, de tanto lixo no arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá.

Na medida em que me familiarizava com aquele espaço denominado “CEEE”, eu ia me sentindo mais segura para subir o extenso aclive da Rua Beco dos Marianos. Na primeira ocasião em que estive no alto do morro, tive a feliz oportunidade de conhecer o Sr. Joyne, um homem de 53 anos de idade, de origem alemã e polonesa, residente no Morro Santana desde que nasceu.

Este homem foi quem me falou sobre ocupação daquele local cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. As primeiras pessoas foram retiradas por oficiais de justiça, disse-me. Além disso, também me falou da relação perturbada que a comunidade mantém com o DMAE, em função dos vazamentos de água que não são prontamente estancados.

Tendo em vista as suas interessantes colocações e a boa aproximação que obtive com este senhor, a equipe do projeto decidiu realizar uma entrevista com ele. Para que esta fosse bem sucedida e para que todos da equipe estivessem a par de tudo, desenvolvi um roteiro, bem como um mapa para nos situarmos melhor no local.

Meu objetivo nesta entrevista era trazer para o tempo do mundo fragmentos de suas lembranças referentes ao Morro Santana e ao seu processo de ocupação, bem como da memória ambiental daquele espaço. Para que isso acontecesse de forma natural foi necessário que o provocássemos a expor a sua singular trajetória social e seus itinerários urbanos. Para que, por meio de sua história de vida, tivéssemos a oportunidade de conhecer e compreender muitas coisas relacionadas ao Arroio Dilúvio.

Em outra oportunidade de saída a campo, ao chegar ao pé do Morro Santana, deparei-me com o desenvolvimento de uma obra realizada pelo DMAE na Rua 1 (Um). Ao descobrir a importância desta e ao ouvir os relatos dos trabalhadores, a equipe do projeto decidiu realizar uma filmagem com eles. Esta gravação nos rendeu uma crônica (narrativa audiovisual), com relatos de pessoas que conheciam uma outra cidade: a Porto Alegre subterrânea.

Obras de Instalação de Interceptores na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/08/produzimos-este-video-quando-retornamos.html

Ao realizar minha etnografia de rua, por diversas vezes deparei-me com informantes que presenciaram os mesmos acontecimentos; contudo, eles relembraram partes diferentes destes, possivelmente aquilo que mais lhes marcou individualmente. Justamente por isso procurei resgatar, de cada um deles, fragmentos de suas lembranças, instigando-os a pontuarem suas recordações do tempo subjetivo no tempo do mundo. Para que depois eu pudesse unir essas partes e então localizar “as raízes do presente, em solo do passado”.

Foi-me possível perceber que aquela comunidade alimenta costumes rurais, como: a criação de cavalos, galinhas, gansos e o cultivo de pequenas hortas. Por meio de alguns relatos constatei inclusive que alguns nativos da comunidade “CEEE” vieram da zona rural, para o Morro Santana, em busca de oportunidades para uma vida melhor.

Criança e animais em meio a Rua Beco dos Marianos. Autor: Renata Ribeiro.

Como as aprendizagens das tecnologias perpassam a minha etnografia?

Concomitantemente ao desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, eu e a equipe do projeto produzimos, por meio do tratamento documental dos dados recolhidos em campo (fotografia e vídeo), narrativas audiovisuais, crônicas, que foram postadas no blog, onde também há nossos diários de campo e as primeiras conclusões quanto à pesquisa.

O processo de construção destas crônicas iniciou-se pela filmagem previamente roteirizada. Por meio de um programa instalado nos computadores do BIEV e do Instituto Anthropos, a equipe do projeto dividiu as filmagens em episódios que passaram por um processo de catalogação, onde receberam nomes e comentários técnicos quanto à imagem e som. Em seguida, escolhemos e marcamos em cada episódio, os momentos mais importantes. Depois de todo este processo tecnológico de construção das narrativas audiovisuais, a equipe do Projeto Habitantes do Arroio postou estas crônicas, junto a diários de campo e prévias conclusões da pesquisa, no blog do projeto, com o intuito de possibilitar a interatividade entre o pesquisador, o pesquisado e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir com seus relatos e críticas, bem como aos que estão em busca de conhecimento a respeito do Arroio Dilúvio.

Quanto a minha etnografia, as conclusões mais recentes postadas no Blog são as seguintes: a região da Rua Beco dos Marianos, no Morro Santana, dividida pelos bairros Agronomia e Jardim Carvalho esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1 (Um), além de outras pequenas travessas, becos e ruas, que juntas formam a Comunidade “CEEE”.

Este é o espaço que tenho estudado e tentado compreender, cuja ocupação tumultuada teve seu início na década de 70. Hoje os residentes deste local consideram-se pertencentes à “CEEE”. Averigüei também que uma parcela significativa deles veio da zona rural do Estado em busca de novas oportunidades. Em virtude disso o estilo de vida predominante neste espaço pode-se dizer que é formado por uma combinação de costumes rurais e urbanos. Além disso, segundo meus informantes residentes mais antigos do Morro Santana, quando chegaram ali, o arroio já se encontrava poluído. Contudo, ainda era possível pescar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Para onde vai o esgoto da sua casa?


Fizemos esta saída de campo com a equipe do Programa “Esgoto Certo” do Departamento Municipal de Água e Esgotos – DMAE – da Prefeitura de Porto Alegre. O Engenheiro Alessandro, o técnico Clovis e sua equipe apresentam os desafios cotidianos do programa que percorre as ruas da cidade, investigando as conexões entre residências, galerias pluviais, redes de esgoto cloacal, “puxadinhos”, “arremates”, ligações e entupimentos da dinâmica hídrica subterrânea da cidade.


Entendendo o esgoto “certo”

Esgoto pluvial – é a rede de galerias, encanamentos, e arroios (canalizados ou não) que escoam a água da chuva, que contribuem para a boa irrigação do solo, evitando alagamentos, erosão, etc. Ligam-se à residência para escoar a água recolhida nas calhas, nos bueiros, escoadouros, nos gramados, etc.

Esgoto cloacal – é a rede de galerias, encanamentos, que têm a função de levar o esgoto doméstico (das pias, dos vasos sanitários, do ralo do chuveiro) para um sistema de tratamento. Atualmente, o esgoto doméstico que corre ao lado do Dilúvio, na rede cloacal, apesar de ser separado do esgoto pluvial, ainda é lançado no Lago Guaíba, mesmo passando por um primeiro tratamento. Com os novos projetos que envolvem o Programa Socioambiental, o esgoto doméstico será levado até as estações de tratamento na Zona Sul da cidade.
(para mais detalhes, veja a postagem no blog sobre o programa Socioambiental)


Certo e errado na cidadania ambiental

Embora o diagnóstico necessário do esgoto “certo” ou “errado” seja importante do ponto de vista técnico, ele se desdobra em outro procedimento do ponto de vista dos usos cotidianos da água. É a confusão entre os diferentes “saneamentos” em jogo que abre espaço para o entendimento da realidade do ponto de vista socioambiental. Não é uma questão moral que está em jogo na destinação correta dos esgotos (certo ou errado), mas sim uma adesão a uma ética de cidadania ambiental. Do ponto de vista do morador, o esgoto poderia ser simplesmente a água “servida” que ele precisa enviar para fora do seu espaço doméstico. Nossa cultura ocidental elaborou, em um longo processo civilizatório, tecnologias como o próprio sistema de saneamento para retirar da paisagem urbana, remover das preocupações cotidianas, a sujeira. Quem gosta de pensar em sujeira? Quem conversa sobre ela?

A separação entre pluvial e doméstico já diz respeito à compreensão de um sistema de saneamento que pensa os esgotos não mais “fora” do espaço habitado, mas dentro do seu espaço, e de forma constante no tempo – na confluência dos muitos encanamentos que partem de realidades diversas, e que geram, no seu conjunto, um impacto significativo, diário. No espaço público, é responsabilidade dos órgãos governamentais a manutenção (e muitas vezes a instalação) deste sistema. Mas este não é um sistema independente das práticas cotidianas. No espaço doméstico, a responsabilidade de ligar seu saneamento “interno” (os banheiros, os encanamentos, as calhas, etc) a este sistema é do proprietário do imóvel – o que nem sempre condiz com o real usuário da água nesta propriedade (morador que aluga o imóvel, usos comerciais, serviços, etc), nem mesmo com as pessoas encarregadas dos reparos e novas construções no terreno, que muitas vezes modificam ou ampliam as redes internas de saneamento. A compreensão da lógica deste sistema não é o resultado de uma explicação, mas da negociação entre o morador/usuário e os técnicos do Esgoto Certo, que muitas vezes são chamados pelos próprios moradores para resolver problemas de obstrução dos encanamentos, vazamentos, etc. Embora sejam importantes os recursos tecnológicos (os corantes, a microcamera) na descoberta da destinação da água do vaso sanitário, é o contato entre o técnico e o morador que acaba transpondo alguns conceitos de saneamento em um processo de negociação da realidade, em que esses novos limites e caminhos das águas subterrâneas passam a ser imaginados, novas fronteiras entre o espaço público (a rua) e o espaço habitado (a casa), podem ser elaboradas na confluência das águas.

Evidentemente, há casos em que esse diálogo não é possível. Quando esse diálogo não dá resultado, já é outro o dispositivo necessário, o dispositivo legal – multas, processos, etc. E há casos em que nem mesmo é possível o esgoto “certo” – na ausência de infra-estrutura sanitária, como fazer a inclusão do morador em um processo de direitos e responsabilidades, na ética ambiental?

Rafael Devos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio


Produzimos este vídeo quando retornamos ao local a que se refere a bolsista do projeto Renata Ribeiro, onde as obras estão ocorrendo:

Logo na entrada da rua, avistei à beira do arroio, um cavalete com uma placa branca onde estava escrito DMAE em azul, sinalizando a obra que estava em andamento. Vi também tratores e homens trabalhando os quais fotografei – em seguida aproximei-me de uma mulher bem vestida que se encontrava ali, também observando a obra. Saudei-a com um bom dia, apresentando-me. Falei-lhe sobre o nosso Projeto e que estava interessada em saber que obra era aquela. Muito simpática e receptiva, cumprimentou-me dizendo chamar-se Gislene – Arqueóloga, professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). Professora Gislene contou-me que aquela obra estava sendo realizada por uma empresa terceirizada do DMAE, a “Pontual Engenharia”, consistindo no Projeto de Redes de Interceptores do Arroio Dilúvio. Ou seja, futuramente os esgotos não desaguarão mais dentro arroio, seguirão por encanamentos para a Estação de Bombeamento Baronesa do Gravataí, conectada à Estação de Bombeamento da Ponta da Cadeia (Gasômetro), sendo que – de acordo com o Projeto Integrado Socioambiental – somente no bairro Serraria o esgoto receberá o tratamento completo. Trecho do diário de campo referente ao dia 03/06/2009 da bolsista Renata Ribeiro. Link da página com a postagem do referido diário: http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/06/avenida-ipiranga-rua-1um-e-o-arroio.html

Os esgotos cloacais (esgoto doméstico) e pluviais (água das chuvas) de Porto Alegre seguem atualmente em direção ao lago Guaíba, seguindo o curso do Arroio Dilúvio bem como através de outros arroios menores. A separação do esgoto doméstico, correndo em uma rede coletora separada das águas que são visíveis no Dilúvio, ainda não foi implementada em toda a bacia do arroio. Em virtude da grande contaminação dessas águas foi iniciado o Projeto Socioambiental que tem como principal objetivo reduzir o volume de coliformes lançados no Lago Guaíba desde a foz do Arroio Dilúvio até a Zona Sul da cidade, inserindo 4,3 quilômetros de interceptores e coletores de esgoto.

No Bairro Agronomia estão sendo instalados interceptores de esgoto na Região do Beco dos Marianos – Comunidade da CEEE - que beneficiarão indiretamente toda a Capital Gaúcha e diretamente a população que reside na Vila Herdeiros, Lomba do Pinheiro e no trecho da Avenida Bento Gonçalves que passa pelo Campus do Vale – UFRGS.

Este projeto beneficiará bastante o Bairro Agronomia com implantação de interceptores na bacia do Arroio Dilúvio e com a construção de redes coletoras do tipo separador absoluto e coletores-tronco. Assim, o esgoto cloacal não seguirá mais junto ao esgoto pluvial através do arroio até o Lago Guaíba, pois serão instalados ao longo do Dilúvio, os encanamentos que receberão somente o esgoto cloacal.

Da Vila Herdeiros, na fronteira com Viamão, passando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no Campus do Vale, seguindo a Rua 1, cruzando o Beco dos Marianos e finalmente percorrendo a margem direita da Avenida Ipiranga, até encontrar novos coletores. Nesse percurso, nessas imagens, revelam-se conexões entre diferentes pontos da cidade, interligados pelas águas do Arroio Dilúvio, pela água da chuva, e agora, por uma rede subterrânea de encanamentos que é visível atravessando o Dilúvio ao lado de algumas pontes.


Equipe do Projeto Habitantes do Arroio junto a trabalhadores de saneamento. Autor: Renata Ribeiro.

Caso as obras deste projeto sejam bem sucedidas, futuramente estes esgotos deverão seguir separados, em direção à Estação de Bombeamento Baronesa do Gravataí, conectada à Estação de Bombeamento da Ponta da Cadeia (Gasômetro) para então receberem um prévio tratamento: o esgoto cloacal irá por meio de encanamentos e o pluvial junto ao arroio. Após essa primeira parte do processo de limpeza, essas águas serão lançadas ao Lago Guaíba e por meio de um emissário subaquático chegarão ao Bairro Serraria na Zona Sul da cidade, para receberem o tratamento final e completo.

Referências

terça-feira, 5 de maio de 2009

Qual a importância do Arroio Dilúvio?



A primeira resposta que nos vem à mente é a questão do esgoto – levar embora a sujeira. Mas esta não é apenas uma questão de higiene. O esgoto de Porto Alegre é responsabilidade de dois órgãos municipais: o DMAE, que trata do abastecimento de água e do tratamento dos esgotos domésticos, e o DEP, que trata do esgoto pluvial, da água da chuva. Em uma de nossas primeiras consultas a técnicos da área ambiental, conversamos com Daniela Bemfica e Juliana Young, do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), que nos esclareceram algumas das questões que são cada vez mais notícia em vários estados brasileiros: as enchentes, a impermeabilização do solo e a importância dos arroios no escoamento da água da chuva.

O que parece atualmente um problema controlado, se revela o nó da questão para a revisão do planejamento urbano das cidades, dos vales, das áreas baixas do Brasil. O esgoto pluvial não se apresenta como um problema para Porto Alegre, mas escoar a água da chuva é uma das maiores dificuldades urbanas contemporâneas, com a impermeabilização do solo. Muitas reivindicações são feitas quanto a saneamento, no sentido de acabar com o esgoto doméstico “à céu aberto”, com a sujeira, mas o saneamento dos “valões” vai para muito além disso, pois revela uma interdependência ainda maior entre muitas localidades da cidade, que nem imaginam que estão ligadas pela água da chuva. O convencimento da população (moradores, empresários da construção civil, proprietários de imóveis, arquitetos) de como colaborar com essa face do saneamento e conviver com a dinâmica hídrica é complicado. Muitas vezes, a solução reivindicada, a canalização dos arroios pode acelerar sua vazão, necessitando de bombeamento, diques e outras medidas de proteção. A obra do Arroio Dilúvio, fundamental para Porto Alegre, é a expressão máxima desse modelo de saneamento, que reunia ao mesmo tempo a construção de grandes avenidas, a valorização das terras urbanas em áreas alagadiças e o saneamento pluvial e doméstico. Embora tenha resolvido o problema das cheias constantes do Arroio Dilúvio, o modelo de urbanização em que a obra estava inserida passou a ser aplicada a muitas regiões da cidade, fazendo com que a capacidade do solo urbano de absorver a água da chuva diminuísse cada vez mais. A negociação que se apresenta agora é sobre um novo modelo de saneamento, no qual os arroios não sejam mais canalizados, pelo contrário, se prevê uma revisão da construção civil nas áreas em torno dos arroios.

Indicado pelas técnicas do DEP entrevistadas pela equipe de pesquisa, Sr. Leopoldino Borges nos conta as negociações necessárias com os moradores, e a trama institucional que se passa na canalização do Dilúvio nos anos 1950/60. Ele nos conta que, na época, ocorreu um imenso investimento do Governo Federal nas obras de contenção de cheias, de drenagem, de urbanização das cidades brasileiras em conjunto com uma estratégia de controle da fúria das águas. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou, foi responsável por inúmeras obras em Porto Alegre e no interior do RS, com o objetivo de evitar que a grande tragédia da Enchente de 1941 se repetisse. A enchente de 1941, e as cheias seguintes, na década de 1960, revelaram à cidade de Porto Alegre seu frágil lugar na Bacia Hidrográfica: às margens do Lago Guaíba, em uma área baixa, recebe mais de um terço das águas de todo o Rio Grande do Sul. Embora as cheias estivessem presentes na memória dos habitantes, a sua relação com a urbanização não é evidente. A tendência é que o solo urbano tome a frente da água, nas questões fundiárias.



Apesar do investimento ser do Governo Federal, as negociações quanto ao solo urbano são mediadas pelo Município, pela Prefeitura. Ainda hoje, o direito a um saneamento adequado, e as obrigações quanto à destinação correta de efluentes são colocadas a partir de leis federais, enquanto que a gestão deste saneamento cabe ao município. Vemos se processar contemporaneamente esta lógica inversa em muitas cidades do Brasil, atingidas por cheias: a situação de emergência, de calamidade pública convoca o Governo Federal a tomar medidas para remediar a tragédia, os prejuízos. São certamente negociações políticas, mas pode-se também perguntar qual o papel dos demais atores nesta interdependência. Certamente, o reconhecimento desse processo de impermeabilização do solo por parte de quem volta seus projetos de construção para as regiões em torno dos arroios é fundamental, do empresário da construção civil, passando pelo futuro morador de um prédio, até o morador que constrói sua casa com a ajuda de sua rede de vizinhança.

A obra do Dilúvio, apesar de seguir o modelo das canalizações, foi fundamental. Mas novas possibilidades se apresentam contemporaneamente. A virada possível no saneamento contemporâneo é a necessidade de manter, ao longo dos arroios, a mata nativa, a vegetação constantemente cuidada, espaços largos onde a água da chuva que transborda possa ser absorvida. Ainda que se possa construir muros de contenção, diques e outras soluções, a permanência da feição “natural” do arroio, sua inserção no conjunto das obras das vias urbanas, dos espaços destinados à construção civil é fundamental, ou seja, uma nova urbanização se configura neste sentido.
Perguntamo-nos, depois dessa herança das cidades brasileiras, dessa luta contra a água e as áreas naturais no processo de urbanização que marca a memória ambiental de muitas cidades como Porto Alegre, como inverter essa lógica conquistada do concreto sobre a terra a água? Sanear não é necessariamente “limpar”, mas a oposição entre a limpeza e a sujeira, como nos ensina a Antropologia, nos convoca a repensar a ordem do universo, a forma como ordenamos esse arranjo de moradas, avenidas e arroios.

A alternativa contemporânea, de “renaturalizar” arroios no mundo inteiro, não precisaria ainda ser seguida por Porto Alegre, mas certamente, não é mais necessário canalizar, “enterrar” arroios na cidade. Há uma série de iniciativas previstas na cidade, com relação, por exemplo, ao Arroio Moinho, afluente do Dilúvio, que seguem essa nova perspectiva. Prepara-se uma nova etapa do saneamento pluvial na cidade – o debate sobre como fazer contenção de cheias: fazer piscinões como os de São Paulo (onde?), estender a foz do Arroio até mais adentro do Guaíba, lançando lago adentro as águas do Dilúvio? Apesar do Dilúvio parecer “controlado” quanto ao esgoto pluvial, seus afluentes ainda não são. Um debate que as técnicas do DEP prevêem, ainda se colocará presente na cidade.

Créditos das fotos:

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951


terça-feira, 28 de abril de 2009

A obra que modificou Porto Alegre

Sr. Leopoldino Braga foi um informante indicado por Daniela Bemfica, técnica do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), como um engenheiro que havia participado das obras de canalização do Arroio Dilúvio. Ao contatar Leopoldino, descobrimos que ele não apenas participou, como foi também o responsável técnico pela execução da obra. Seguem alguns momentos da entrevista:

Duas imagens ficaram gravadas na minha lembrança, depois da entrevista com Sr. Leopoldino Borges. A primeira foi quando ele abriu a porta, sorridente, nos recebendo com ar seguro, pedindo que entrássemos. Estava estampada em seu rosto a vontade de falar do Arroio Dilúvio, ou como veríamos a seguir, sobre o DNOS. A segunda imagem foi quando ele, no meio da entrevista, segurou a mão no ar, fechou os olhos e disse:

- Feche os olhos, tire fora a Ipiranga. O que sobra?



Esse seria o tom de toda a entrevista, imaginar não apenas Porto Alegre, mas todo o Estado do Rio Grande do Sul, sem as obras que foram realizadas pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou como engenheiro civil e superintendente durante muitos anos. Foram inúmeras obras de construção de esgoto sanitário, barragens, canalização de arroios, e outras medidas tomadas no Estado, após a grande enchente de 1941, com o intuito de domar a fúria das águas, evitar alagamentos e promover saúde pública. Parte do milagre econômico, da transformação das capitais em metrópoles e do desenvolvimentismo brasileiro, foi também um marco na construção civil do RS este departamento: um órgão federal, destinado à realizar obras de grande porte, de infra-estrutura urbana, que após concluídas passavam a ser responsabilidade dos municípios beneficiados. Fechado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo na década de 1990, nos perguntamos, na companhia de Leopoldino, onde foram parar a memória, e os bens do DNOS? Uma parte certamente está com Leopoldino, em suas lembranças, mas e as outras? Uma máquina destinada a dragagem constante do Arroio Dilúvio da qual não se sabe o paradeiro, ou os 40 teodolitos encomendados da Suíça, dos quais ele lembra com gosto. E certamente retomamos a importância deste órgão, no atual contexto de inundações constantes em todas as regiões do país.

Além da história do DNOS, aprendemos muitas coisas nesta entrevista, que iremos divulgar agora no blog, em algumas postagens. Na primeira narrativa editada, Leopoldino nos conta os longos anos que esta obra necessitou, tendo sido iniciada pelo município de Porto Alegre, e terminada pelo DNOS, com a participação de personagens ilustres da capital aos quais Leopoldino se refere com intimidade: Ildo Meneghetti, Telmo Thompson Flores, entre outros que se envolveram com a transformação da região do Arroio Dilúvio em Avenida Ipiranga. Leopoldino conta que a Prefeitura realizou as obras de escavação da Av. Praia de Belas até a Ponte da Av. Azenha, assim como a urbanização do antigo braço do riacho aterrado, até a Ponte dos Açorianos. Da Ponte da Azenha e da João Pessoa, até a Barragem do Sabão, em Viamão, o DNOS assumiu a obra, transformando o “filete” que era o dilúvio no largo canal que vemos hoje. Mostramos algumas fotografias da construção do canal para Leopoldino. A perspectiva atual de imaginar o que resta de arroio em meio à região urbanizada se inverte: era a configuração urbana, a estética de ruas, avenidas, trânsito, canalizações, que parece surgir do barro, da lama, nas imagens.



Outra narrativa incrível foram as negociações com os moradores que tiveram de ser removidos, dos terrenos desapropriados durante as obras. A sua habilidade na argumentação com um “português” que queria embargar a obra, e temia a ligação da sanga de seu terreno no largo canal do Dilúvio, ganha destaque. Leopoldino ri com gosto dessas lembranças. Sua simpatia e seu senso de humor quanto aos conflitos inerentes a uma obra deste porte revelaram um aspecto pouco conhecido, e mais humano, de um período de grandes transformações da cidade. Aos 86 anos, Leopoldino parecia ter claras essas imagens, dedicava a elas alguns silêncios durante a entrevista. Interrompia às vezes a narrativa, para resgatar algum detalhe que a memória costuma embaralhar, ou para consolar sua fiel cadelinha, que no início implicou com o microfone da equipe, mas que depois aconchegou-se ao seu lado, e dali não saiu.

Em outras narrativas, Leopoldino faz referência à antiga Ilhota, onde morava sua esposa, durante a infância. Ela nos contou, ao final da entrevista, sua convivência com a vida social da Ilhota, e a enchente de 41 que elevou as águas à altura de um adulto, na sua casa. O casal soma já mais de 60 anos de casados, e se mostrou muito disponível para narrar essa Porto Alegre que viu nascer a Avenida Ipiranga. Saímos de sua casa satisfeitos, com uma nova bagagem para a pesquisa, mas com vontade de saber mais. Gostaria também de ver como será a surpresa de Leopoldino e sua família, ao verem suas narrativas na internet. Essa é a fase da pesquisa das lembranças, das narrativas, sobre essa velha e alagadiça Porto Alegre. Mais estórias virão.

Entrevista com Leopoldino Borges. Realizada em 16 de abril de 2009. Participaram da entrevista Ana Luiza Carvalho da Rocha, Rafael Devos, Viviane Vedana e Ana Paula Marcante Soares.

Créditos das fotos

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951

terça-feira, 24 de março de 2009

Serviços de saneamento



A proteção contra inundações e a drenagem urbana

Porto Alegre, situada nas margens do Lago Guaíba, ocupa uma posição geograficamente estratégica, mas também perigosa. No lago desaguam os rios Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí, em cujas nascentes ocorrem as maiores precipitações pluviométricas do Estado, principalmente nos meses de agosto, setembro e outubro. Em razão disso as inundações resultantes da subida do nível das águas do lago (cuja lâmina d’água, em tempo seco, situa-se na altitude de um metro) foram freqüentes ao longo de sua história. A maior delas ocorreu em 1941, quando grande parte do centro da cidade ficou inundado, deixando flagelados setenta mil habitantes. As águas subiram até a altitude de 4,75 m, superando a de 3,50m, registrada em 1873, e a de 3,22m, ocorrida em 1936, as maiores até então conhecidas. Cheias como a de 1941 possuem uma recorrência de 125 anos.
Além disso, em períodos de chuva intensa, as áreas baixas, situadas na planície fluvial no Rio Gravataí e do Arroio Dilúvio, ficam constantemente alagadas. Enquanto a inundação é o resultado da elevação do nível da água do lago, o alagamento é causado pelo não escoamento da água da chuva. Cerca de 35% da área urbanizada de Porto Alegre situa-se nas terras baixas, com altitude inferior a 3 m, estando apenas 2 m acima do nível médio da lâmina d’agua do Lago Guaíba. O sistema de proteção contra inundações implantado em Porto Alegre é integrado com a drenagem pluvial e procura solucionar os dois problemas.
O sistema de proteção, de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), foi projetado para cheias de altitudes de até cinco metros, as quais podem ocorrer a cada 370 anos. A proteção de regiões inundáveis foi feita pela construção de 68 km de diques externos, diques internos e de uma cortina de proteção, chamada de Muro da Mauá, implantados na década de 70. Os diques externos situam-se nas margens do lago e do Rio Gravataí. Conciliando a infra-estrutura de transporte com a de proteção, os diques estendem-se desde a confluência da Avenida Assis Brasil com a Auto-Estrada, passando pela Avenida Castelo Branco, Muro da Mauá e Avenida Edevaldo Pereira Paiva, até a Avenida Diário de Notícias. Os diques internos, construídos nas margens dos principais arroios, formam um sistema de pôlderes nas regiões mais baixas. Em cada pôlder há uma casa de bombas e comportas que, ao mesmo tempo em que impedem a entrada de água, permitem a retirada da água acumulada dentro da área protegida de forma independente e ágil em caso de inundação e alagamento.
O sistema de drenagem pluvial, projetado para as chuvas fortes que podem ocorrer a cada cinco anos, escoa separadamente as águas da chuva (cuja precipitação média é de 110 mm) das regiões altas e baixas. Nas regiões altas acima da altitude de cinco metros, o escoamento é recolhido através de condutos forçados (macrodrenagem) e lançado diretamente no lago, dispensando o uso da casa de bombas. Nas áreas baixas, a rede pluvial recolhe as águas por meio de bocas de lobo (microdrenagem) e as conduz por galerias até as casas de bombas, que, acionadas aceleram a retirada da água por meio de canais de expurgo. Entretanto, quando as chuvas ocorrem de forma muito intensa, superando a capacidade do sistema, ou quando, eventualmente, as bocas de lobo estão entupidas, o excesso de águas nas galerias origina alagamentos.

Fonte: Atlas Ambiental de Porto Alegre. Rualdo Menegat (Coord.). Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1998. Pg. 175 e 176.

Autores: Maria da Graça Ilgenfritz e Vicente Rauber

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Inundações, aterros e o arroio

[...] volta e meia o Guaíba saía do seu leito e inundava ruas, praças e avenidas que nunca sonharam em tomar banho de enxurrada.

Para por cobro a essa impertinente mania do rio, o Governo do Estado passou a estudar a possibilidade de detê-lo com um grande e monumental cais. E assim Borges de Medeiros, em meados de 1911, iniciou esse porto que hoje temos. Não há dúvida que o velho e manhoso rio deve ter mordido o freio quando viu chegar esses enormes blocos de pedra para conter-lhe as águas. Estava muito acostumado a espreguiçar-se despreocupadamente. Imagine-se apenas que suas margens ordinárias vinham aí pela praça da Alfândega, fundos do Palácio Municipal, e uma boa parte da rua que ainda hoje tem um nome que o lembra – Rua da Praia!

Mais tarde outros aterros foram feitos e construíu-se o cais Marcílio Dias. E ainda há pouco, no governo Brizola, criou-se mesmo um bairro inteiro – Praia de Belas -, com terras do fundo do rio, a despeito do rio, diminuindo o rio, encurtando seu leito e beleza..

Menor, dentro dos seus limites que cada vez mais se estreitam, o Guaíba pouco a pouco vai sentindo a civilizadora mão do homem[...]

O velho Riacho do Sabão, também conhecido como Arroio Dilúvio, o mais grosso braço esquerdo do rio, agora está saneadoramente retificado, deixou de malandrear nessa baixada entre o antigo morro da Praia e o necropólico morro da Azenha, e perdeu a sua infatigável mania de assustar os velhos bairros da cidade com suas enxurradas e inundações.

Nem mais se vê aquele indefectível exército de lavadeiras às suas margens, negras novas ou idosas, que com o colorido das suas vestes davam singular e pitoresco aspecto às suas águas barrentas.


Fonte: Editora Movimento/Instituto Estadual do Livro.

Título do documento: Crônicas da Minha Cidade.Volume 2.

Autor: Ary Veiga Sanhudo

Data: 1975


Antigo riacho passando atrás da Rua da Margem (atual João Alfredo)

Fonte: Museu Joaquim José Felizardo


Barcos de pescadores na margem do antigo Riacho

Fonte: Museu Joaquim José Felizardo


ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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