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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estação de Bombeamento Ponta da Cadeia

Estas narrativas audiovisuais (crônicas) foram elaboradas com material recolhido em saída de campo realizada em 26/08/2009 na Estação de Bombeamento Ponta da Cadeia, onde estavam presentes Maria de Lourdes Wolf do departamento de comunicação social - DMAE e o Engenheiro Waldir Flores - DMAE. Nesta ocasião, nós da equipe do Projeto Habitantes do Arroio tivemos a oportunidade de conhecer e compreender, não somente, o Projeto Socioambiental, como também a realidade cotidiana do DMAE – Departamento de Água e Esgoto.

Por meio de entrevista, o Engenheiro Waldir Flores nos conta sobre os projetos em andamento, bem como a realidade enfrentada diariamente pelo departamento.

O que é o Socioambiental? De que maneira ele beneficiará o Arroio Dilúvio e a Cidade de Porto Alegre? Como ocorre a abordagem realizada pelo DMAE? De que forma esta é recebida pelos moradores? Estas são apenas algumas das muitas questões que foram elucidadas durante esta entrevista, e que são abordadas nas crônicas que seguem abaixo.




quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O caso do Beco dos Marianos

Segue abaixo uma síntese da pesquisa de campo que está sendo realizada pela bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial Renata Ribeiro, na região da Rua Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana e que contempla parte de uma das ações do “Projeto Habitantes do Arroio”, financiado pelo CNPq. Esta pesquisa será apresentada na Feira de Iniciação Científica da UFRGS, a realizar-se no dia 20 de outubro de 2009, na Reitoria da UFRGS, Campus Central, Paulo Gama nº110, das 13 às 18hs. Contamos com a sua presença.

O Projeto Habitantes do Arroio vem sendo realizado desde janeiro de 2009, e tem como principais objetivos disseminar entre grupos urbanos e instituições locais, informações técnicas e científicas a respeito dos recursos hídricos, da bacia hidrográfica do Lago Guaíba e da microbacia do Arroio Dilúvio, a partir da construção de narrativas audiovisuais (que são postados no blog do projeto), referentes aos desafios e aos impactos ambientais, econômicos e sociais implicados na destinação adequada e no tratamento de esgotos.
Rua João Alfredo (antiga Rua da Margem). Autor: Luna Carvalho.

Memórias do antgo riacho na Cidade Baixa:

Com a finalidade de fazer uma primeira aproximação com objeto da pesquisa, iniciei as minhas saídas a campo, no dia 24/04/2009, na região da Cidade Baixa, local onde Luna, minha colega, desenvolve seu estudo. Durante a etnografia de rua procurei descobrir os vários lugares por onde outrora corriam as águas do riacho (o dilúvio antes das obras) – rememorando o seu percurso. Constatei que aquela região guarda muitos causos referentes às enchentes, à cultura carnavalesca e quilombola da cidade, uma importante contribuição para a reconstrução da memória ambiental daquela região e de Porto Alegre.

Rua Beco dos Marianos vista do alto do Morro Snatana. Autor: Renata Ribeiro.

A Comunidade “CEEE”:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/07/comunidade-da-ceee_6311.html

Familiarizada com esta área onde antigamente passava o arroio Dilúvio, iniciei meu trabalho de campo no extremo oposto, ou seja, na região do Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana, dividido pelos Bairros Jardim Carvalho e Agronomia. Minhas primeiras saídas a campo foram guiadas pelo intuito de descobrir a forma com que os moradores daquela região do Morro Santana se autodenominavam: sentiam-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou para eles esta era apenas uma rua, como outra qualquer, no mapa da cidade.

Durante este estudo, procurei resgatar, por meio dos relatos dos moradores desta localidade, fragmentos de suas memórias que pudessem elucidar as seguintes questões: Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Além de buscar as respostas para estas e outras perguntas, tenho buscado compreender a diversidade sócio-cultural relativa à combinação entre o rural e o urbano neste espaço.

Ao longo de minha etnografia conheci Anderson, um jovem bastante pobre, de 21 anos de idade – antigo morador do Morro Santana. Este rapaz é quem, no primeiro momento, elucida minha etnografia, pois me fez saber que a região do Beco dos Marianos é denominada de “CEEE” pelos moradores, em virtude da existência de uma subestação da companhia elétrica, no alto do Morro Santana. Além disso, também contou que a rua considerada a mais importante, pelos moradores daquela região, é a Atenas e não a Beco dos Marianos, como nós pesquisadores pensávamos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Anderson também falou do porquê, na visão dele, de tanto lixo no arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá.

Na medida em que me familiarizava com aquele espaço denominado “CEEE”, eu ia me sentindo mais segura para subir o extenso aclive da Rua Beco dos Marianos. Na primeira ocasião em que estive no alto do morro, tive a feliz oportunidade de conhecer o Sr. Joyne, um homem de 53 anos de idade, de origem alemã e polonesa, residente no Morro Santana desde que nasceu.

Este homem foi quem me falou sobre ocupação daquele local cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. As primeiras pessoas foram retiradas por oficiais de justiça, disse-me. Além disso, também me falou da relação perturbada que a comunidade mantém com o DMAE, em função dos vazamentos de água que não são prontamente estancados.

Tendo em vista as suas interessantes colocações e a boa aproximação que obtive com este senhor, a equipe do projeto decidiu realizar uma entrevista com ele. Para que esta fosse bem sucedida e para que todos da equipe estivessem a par de tudo, desenvolvi um roteiro, bem como um mapa para nos situarmos melhor no local.

Meu objetivo nesta entrevista era trazer para o tempo do mundo fragmentos de suas lembranças referentes ao Morro Santana e ao seu processo de ocupação, bem como da memória ambiental daquele espaço. Para que isso acontecesse de forma natural foi necessário que o provocássemos a expor a sua singular trajetória social e seus itinerários urbanos. Para que, por meio de sua história de vida, tivéssemos a oportunidade de conhecer e compreender muitas coisas relacionadas ao Arroio Dilúvio.

Em outra oportunidade de saída a campo, ao chegar ao pé do Morro Santana, deparei-me com o desenvolvimento de uma obra realizada pelo DMAE na Rua 1 (Um). Ao descobrir a importância desta e ao ouvir os relatos dos trabalhadores, a equipe do projeto decidiu realizar uma filmagem com eles. Esta gravação nos rendeu uma crônica (narrativa audiovisual), com relatos de pessoas que conheciam uma outra cidade: a Porto Alegre subterrânea.

Obras de Instalação de Interceptores na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/08/produzimos-este-video-quando-retornamos.html

Ao realizar minha etnografia de rua, por diversas vezes deparei-me com informantes que presenciaram os mesmos acontecimentos; contudo, eles relembraram partes diferentes destes, possivelmente aquilo que mais lhes marcou individualmente. Justamente por isso procurei resgatar, de cada um deles, fragmentos de suas lembranças, instigando-os a pontuarem suas recordações do tempo subjetivo no tempo do mundo. Para que depois eu pudesse unir essas partes e então localizar “as raízes do presente, em solo do passado”.

Foi-me possível perceber que aquela comunidade alimenta costumes rurais, como: a criação de cavalos, galinhas, gansos e o cultivo de pequenas hortas. Por meio de alguns relatos constatei inclusive que alguns nativos da comunidade “CEEE” vieram da zona rural, para o Morro Santana, em busca de oportunidades para uma vida melhor.

Criança e animais em meio a Rua Beco dos Marianos. Autor: Renata Ribeiro.

Como as aprendizagens das tecnologias perpassam a minha etnografia?

Concomitantemente ao desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, eu e a equipe do projeto produzimos, por meio do tratamento documental dos dados recolhidos em campo (fotografia e vídeo), narrativas audiovisuais, crônicas, que foram postadas no blog, onde também há nossos diários de campo e as primeiras conclusões quanto à pesquisa.

O processo de construção destas crônicas iniciou-se pela filmagem previamente roteirizada. Por meio de um programa instalado nos computadores do BIEV e do Instituto Anthropos, a equipe do projeto dividiu as filmagens em episódios que passaram por um processo de catalogação, onde receberam nomes e comentários técnicos quanto à imagem e som. Em seguida, escolhemos e marcamos em cada episódio, os momentos mais importantes. Depois de todo este processo tecnológico de construção das narrativas audiovisuais, a equipe do Projeto Habitantes do Arroio postou estas crônicas, junto a diários de campo e prévias conclusões da pesquisa, no blog do projeto, com o intuito de possibilitar a interatividade entre o pesquisador, o pesquisado e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir com seus relatos e críticas, bem como aos que estão em busca de conhecimento a respeito do Arroio Dilúvio.

Quanto a minha etnografia, as conclusões mais recentes postadas no Blog são as seguintes: a região da Rua Beco dos Marianos, no Morro Santana, dividida pelos bairros Agronomia e Jardim Carvalho esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1 (Um), além de outras pequenas travessas, becos e ruas, que juntas formam a Comunidade “CEEE”.

Este é o espaço que tenho estudado e tentado compreender, cuja ocupação tumultuada teve seu início na década de 70. Hoje os residentes deste local consideram-se pertencentes à “CEEE”. Averigüei também que uma parcela significativa deles veio da zona rural do Estado em busca de novas oportunidades. Em virtude disso o estilo de vida predominante neste espaço pode-se dizer que é formado por uma combinação de costumes rurais e urbanos. Além disso, segundo meus informantes residentes mais antigos do Morro Santana, quando chegaram ali, o arroio já se encontrava poluído. Contudo, ainda era possível pescar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Para onde vai o esgoto da sua casa?


Fizemos esta saída de campo com a equipe do Programa “Esgoto Certo” do Departamento Municipal de Água e Esgotos – DMAE – da Prefeitura de Porto Alegre. O Engenheiro Alessandro, o técnico Clovis e sua equipe apresentam os desafios cotidianos do programa que percorre as ruas da cidade, investigando as conexões entre residências, galerias pluviais, redes de esgoto cloacal, “puxadinhos”, “arremates”, ligações e entupimentos da dinâmica hídrica subterrânea da cidade.


Entendendo o esgoto “certo”

Esgoto pluvial – é a rede de galerias, encanamentos, e arroios (canalizados ou não) que escoam a água da chuva, que contribuem para a boa irrigação do solo, evitando alagamentos, erosão, etc. Ligam-se à residência para escoar a água recolhida nas calhas, nos bueiros, escoadouros, nos gramados, etc.

Esgoto cloacal – é a rede de galerias, encanamentos, que têm a função de levar o esgoto doméstico (das pias, dos vasos sanitários, do ralo do chuveiro) para um sistema de tratamento. Atualmente, o esgoto doméstico que corre ao lado do Dilúvio, na rede cloacal, apesar de ser separado do esgoto pluvial, ainda é lançado no Lago Guaíba, mesmo passando por um primeiro tratamento. Com os novos projetos que envolvem o Programa Socioambiental, o esgoto doméstico será levado até as estações de tratamento na Zona Sul da cidade.
(para mais detalhes, veja a postagem no blog sobre o programa Socioambiental)


Certo e errado na cidadania ambiental

Embora o diagnóstico necessário do esgoto “certo” ou “errado” seja importante do ponto de vista técnico, ele se desdobra em outro procedimento do ponto de vista dos usos cotidianos da água. É a confusão entre os diferentes “saneamentos” em jogo que abre espaço para o entendimento da realidade do ponto de vista socioambiental. Não é uma questão moral que está em jogo na destinação correta dos esgotos (certo ou errado), mas sim uma adesão a uma ética de cidadania ambiental. Do ponto de vista do morador, o esgoto poderia ser simplesmente a água “servida” que ele precisa enviar para fora do seu espaço doméstico. Nossa cultura ocidental elaborou, em um longo processo civilizatório, tecnologias como o próprio sistema de saneamento para retirar da paisagem urbana, remover das preocupações cotidianas, a sujeira. Quem gosta de pensar em sujeira? Quem conversa sobre ela?

A separação entre pluvial e doméstico já diz respeito à compreensão de um sistema de saneamento que pensa os esgotos não mais “fora” do espaço habitado, mas dentro do seu espaço, e de forma constante no tempo – na confluência dos muitos encanamentos que partem de realidades diversas, e que geram, no seu conjunto, um impacto significativo, diário. No espaço público, é responsabilidade dos órgãos governamentais a manutenção (e muitas vezes a instalação) deste sistema. Mas este não é um sistema independente das práticas cotidianas. No espaço doméstico, a responsabilidade de ligar seu saneamento “interno” (os banheiros, os encanamentos, as calhas, etc) a este sistema é do proprietário do imóvel – o que nem sempre condiz com o real usuário da água nesta propriedade (morador que aluga o imóvel, usos comerciais, serviços, etc), nem mesmo com as pessoas encarregadas dos reparos e novas construções no terreno, que muitas vezes modificam ou ampliam as redes internas de saneamento. A compreensão da lógica deste sistema não é o resultado de uma explicação, mas da negociação entre o morador/usuário e os técnicos do Esgoto Certo, que muitas vezes são chamados pelos próprios moradores para resolver problemas de obstrução dos encanamentos, vazamentos, etc. Embora sejam importantes os recursos tecnológicos (os corantes, a microcamera) na descoberta da destinação da água do vaso sanitário, é o contato entre o técnico e o morador que acaba transpondo alguns conceitos de saneamento em um processo de negociação da realidade, em que esses novos limites e caminhos das águas subterrâneas passam a ser imaginados, novas fronteiras entre o espaço público (a rua) e o espaço habitado (a casa), podem ser elaboradas na confluência das águas.

Evidentemente, há casos em que esse diálogo não é possível. Quando esse diálogo não dá resultado, já é outro o dispositivo necessário, o dispositivo legal – multas, processos, etc. E há casos em que nem mesmo é possível o esgoto “certo” – na ausência de infra-estrutura sanitária, como fazer a inclusão do morador em um processo de direitos e responsabilidades, na ética ambiental?

Rafael Devos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio


Produzimos este vídeo quando retornamos ao local a que se refere a bolsista do projeto Renata Ribeiro, onde as obras estão ocorrendo:

Logo na entrada da rua, avistei à beira do arroio, um cavalete com uma placa branca onde estava escrito DMAE em azul, sinalizando a obra que estava em andamento. Vi também tratores e homens trabalhando os quais fotografei – em seguida aproximei-me de uma mulher bem vestida que se encontrava ali, também observando a obra. Saudei-a com um bom dia, apresentando-me. Falei-lhe sobre o nosso Projeto e que estava interessada em saber que obra era aquela. Muito simpática e receptiva, cumprimentou-me dizendo chamar-se Gislene – Arqueóloga, professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). Professora Gislene contou-me que aquela obra estava sendo realizada por uma empresa terceirizada do DMAE, a “Pontual Engenharia”, consistindo no Projeto de Redes de Interceptores do Arroio Dilúvio. Ou seja, futuramente os esgotos não desaguarão mais dentro arroio, seguirão por encanamentos para a Estação de Bombeamento Baronesa do Gravataí, conectada à Estação de Bombeamento da Ponta da Cadeia (Gasômetro), sendo que – de acordo com o Projeto Integrado Socioambiental – somente no bairro Serraria o esgoto receberá o tratamento completo. Trecho do diário de campo referente ao dia 03/06/2009 da bolsista Renata Ribeiro. Link da página com a postagem do referido diário: http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/06/avenida-ipiranga-rua-1um-e-o-arroio.html

Os esgotos cloacais (esgoto doméstico) e pluviais (água das chuvas) de Porto Alegre seguem atualmente em direção ao lago Guaíba, seguindo o curso do Arroio Dilúvio bem como através de outros arroios menores. A separação do esgoto doméstico, correndo em uma rede coletora separada das águas que são visíveis no Dilúvio, ainda não foi implementada em toda a bacia do arroio. Em virtude da grande contaminação dessas águas foi iniciado o Projeto Socioambiental que tem como principal objetivo reduzir o volume de coliformes lançados no Lago Guaíba desde a foz do Arroio Dilúvio até a Zona Sul da cidade, inserindo 4,3 quilômetros de interceptores e coletores de esgoto.

No Bairro Agronomia estão sendo instalados interceptores de esgoto na Região do Beco dos Marianos – Comunidade da CEEE - que beneficiarão indiretamente toda a Capital Gaúcha e diretamente a população que reside na Vila Herdeiros, Lomba do Pinheiro e no trecho da Avenida Bento Gonçalves que passa pelo Campus do Vale – UFRGS.

Este projeto beneficiará bastante o Bairro Agronomia com implantação de interceptores na bacia do Arroio Dilúvio e com a construção de redes coletoras do tipo separador absoluto e coletores-tronco. Assim, o esgoto cloacal não seguirá mais junto ao esgoto pluvial através do arroio até o Lago Guaíba, pois serão instalados ao longo do Dilúvio, os encanamentos que receberão somente o esgoto cloacal.

Da Vila Herdeiros, na fronteira com Viamão, passando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no Campus do Vale, seguindo a Rua 1, cruzando o Beco dos Marianos e finalmente percorrendo a margem direita da Avenida Ipiranga, até encontrar novos coletores. Nesse percurso, nessas imagens, revelam-se conexões entre diferentes pontos da cidade, interligados pelas águas do Arroio Dilúvio, pela água da chuva, e agora, por uma rede subterrânea de encanamentos que é visível atravessando o Dilúvio ao lado de algumas pontes.


Equipe do Projeto Habitantes do Arroio junto a trabalhadores de saneamento. Autor: Renata Ribeiro.

Caso as obras deste projeto sejam bem sucedidas, futuramente estes esgotos deverão seguir separados, em direção à Estação de Bombeamento Baronesa do Gravataí, conectada à Estação de Bombeamento da Ponta da Cadeia (Gasômetro) para então receberem um prévio tratamento: o esgoto cloacal irá por meio de encanamentos e o pluvial junto ao arroio. Após essa primeira parte do processo de limpeza, essas águas serão lançadas ao Lago Guaíba e por meio de um emissário subaquático chegarão ao Bairro Serraria na Zona Sul da cidade, para receberem o tratamento final e completo.

Referências

domingo, 19 de julho de 2009

Projeto de despoluição e revitalização

Estamos lançando uma novidade no Blog do Habitantes do Arroio. São colaborações de leitores do blog. Se você quiser colaborar, saiba como, ao final desta mensagem. As colaborações publicadas serão comentadas pela equipe ao final da mensagem.

Segue a primeira colaboração recebida:


Prezados Amigos do Blog HABITANTES DO ARROIO:

Gostaria de postar esse Projeto para que todos possam apreciar, discutir, criticar e aperfeiçoar. Um grande abraço. Luiz C. Vaz Ferreira (Design)


ARROIO DILÚVIO: PROJETO DE DESPOLUIÇÃO E REVITALIZAÇÃO - 2009 -
Proj: Luiz Carlos Vaz Ferreira Fone: (51) 9306 6367

Despoluição
Visa dividir o leito do dilúvio em 3 (três) vias, sendo a via do centro um corredor de estrutura de concreto armado em módulos, onde apenas correria a água pura e cristalina. Nos 2 (dois) lados opostos, teríamos corredores exclusivos para a captação das redes cloacais e pluviais, estas redes antes de entrar em contato com os novos corredores passariam por Estações de Reciclagem Primária para conter areia e pequenos resíduos de lixos domésticos. Estes corredores seriam transformados em Galerias de Esgoto, pois receberiam coberturas com chapas de concreto móveis para eventualmente serem retiradas para a manutenção da limpeza quando necessária e no final dos seus cursos, seriam desembocadas em duas Estações de Tratamento de Esgoto para depois desaguar no Lago Guaíba. Com a construção das Estações de Reciclagem Primária, para uma pré-seleção e, com a construção das novas galerias, de imediato poderíamos perceber que lixos domésticos, restos de obras, pneus velhos e tudo que se possa imaginar jogados no dilúvio, já seriam evitados, isto possibilitará que tenhamos um melhor fluxo.

Revitalização
Com um córrego de água cristalina deslizando sobre uma estrutura de concreto em formato oval para melhor ser visualizada, poderemos imaginar um projeto de urbanização adaptado para a comunidade apreciar e desfrutar do novo cartão postal da cidade. Além de estar voltado para os benefícios do meio ambiente, estaremos recuperando a memória histórica de um rio, que no passado passava sob a Ponte de Pedras, construída pelos escravos em 1848, teve o seu curso alterado na década de 1930 e está preservada no Largo dos Açorianos A realização desse projeto possibilitará que Porto Alegre seja considerada modelo para outras cidades como uma referência mundial.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A rede de saneamento e a rede de memórias

Seguindo as descobertas iniciais da rede de vizinhança que nossa bolsista Luna Carvalho traçou nas imediações do Areal da Baronesa e da antiga Ilhota, entre os Bairros Cidade Baixa e Menino Deus, realizamos uma nova entrevista. Nosso interlocutor foi o Sr. Marco Antônio Macedo Moreira. As suas lembranças, associadas aos relatos do seu vizinho, Sr. José, e aos relatos de outros moradores que vão surgindo nos diários de pesquisa, nos fazem descobrir novas dimensões territoriais associadas ao antigo curso do “riacho” que passava na região, um braço do Arroio Dilúvio que seguia até o centro da cidade, passando sob a Ponte de Pedra que ainda existe na Av. Borges de Medeiros. O riacho aparece como um limitador dessa experiência territorial, de um microcosmos, onde dividem-se pequenos mundos: de um lado a turma da Ilhota, de outro, o pessoal do Areal, mais distantes, o centro da cidade e os bairros abastados como o Menino Deus. A vida na rua, a sociabilidade expressa no carnaval e nas festas, os laços de pertencimento expressos na solidariedade entre vizinhos, e uma distância maior da “cidade”, representada pelo centro administrativo de Porto Alegre. A água surge como delimitadora dessas divisões territoriais, de certa forma dando uma sensação de refúgio, guardando a vida comunitária de pequena escala, das casas lado a lado, das “avenidas”, terrenos de grande profundidade divididos entre 6, 8 casas, dos becos, das margens. Da porta de casa, Marco Antônio nos conta que enxergava ao longe o viaduto da Avenida Borges de Medeiros, um símbolo da urbanização de uma cidade que começava a se ver como metrópole, nos anos 50, quando as obras de canalização do Dilúvio ocorreram.

Marco Antônio, como outros informantes, nos relatam com prazer essas imagens. Poderíamos nos iludir sob o senso comum do saudosismo de uma cidade que não existe mais. No entanto, assim como os cabungos com o esgoto doméstico eram despejados no Rio Guaíba, ainda hoje, o esgoto doméstico, coletado separadamente do esgoto pluvial, ainda é lançado nas águas do Guaíba, passando por outros processos, é verdade, mas atualizando a relação da cidade com suas águas, que já não são o limite do mundo urbano. Também esses “arquivos”, como se define Marco Antônio (“Eu sou um arquivo vivo dessa rua”) estão ali para afirmar a continuidade de uma forma de viver a experiência da rua compartilhada. A Travessa Pesqueiro ainda é habitada como este microcosmos, as águas correm subterrâneas como essa memória, mas como o próprio Dilúvio em dias de cheia, muitas vezes, elas voltam à tona. Transbordam.

Segue o diário de Luna, e algumas narrativas de Marco Antônio e José.

“19 de maio de 2009.

Chegamos a travessa pesqueiro lá por uma três da tarde, tínhamos ido ao Museu Hipólito da Costa anteriormente. Tocamos a campainha e depois de um tempo de espera abriu a porta um senhor sorridente e falante, seu Marco Antonio, que por sorte tínhamos conhecido no dia da entrevista com seu José, seu compadre. Entrando no portão ele já foi nos indicando que era “só seguir o trem”, um corredor muito comprido, cheio de folhagens, até chegar a entrada de sua casa que era a última. Passamos por umas três casas, habitada por outros parentes.

Entrando na cozinha, onde seria feita a entrevista, a esposa de seu Marco Antonio lavava a louça. Logo de inicio ele já começou a falar, pegou as fotos e foi para a janela mostrar para a Profa. Ana Luiza, onde passava o riacho, nos fundos do seu quintal. Possui um álbum cheio de fotografias antigas, da família com os vizinhos, da frente da casa que existe desde 1915, do pai e do avô fazendo pose com espadas, e a tão famosa foto que havia falado bastante no dia que lhe conhecemos, o riacho visto dos fundos de sua casa, com casas da João Alfredo ao fundo. A primeira coisa que contou foi dos “cabungos”, recipientes que antes dos sistemas de esgoto guardavam os dejetos de cada casa, e semanalmente eram trocados, sendo levados para um trapiche perto do antigo Estaleiro Só, na Lomba do Asseio. A sujeira era despejada e o cabungo lavado.

Seu Marco Antonio, uns anos mais novo que seu José se lembra mais da fase do arroio já aterrado, “aquele chão batido, tudo vermelho”. Segundo ele quando se deu conta já não havia mais riacho. Se lembrou ao longo da entrevista dos trajetos que fazia nessa época, a partir da Quatro Jacós até a ponte de pedra, recordando das brincadeiras no “areão”. Assim como seu José, lembrava de tudo com aparente saudade, quando falava da família, principalmente os avós com quem pareceu ter tido uma boa relação. Vindo de Portugal da região de Trás dos Montes, o avô de seu Marco Antonio trocou de nome quando chegou ao Brasil, trabalhou em muitos lugares e foi quem construiu a casa da frente onde hoje funciona uma marcenaria. Tinha na família também um tio que jogava búzios, quem lhe deu muita força para entrar na CEEE, onde trabalhou um bom tempo de sua vida, e viu inclusive a mudança da sede que ficava no centro ir para a inabitada Avenida Ipiranga.

Seu Marco Antonio, assim como seu José e os outros antigos moradores que temos encontrado na Cidade Baixa, ficou um bom tempo falando do carnaval, dos puxadores de samba que eram imbatíveis, do rei Momo Lelé que ainda é vivo, e de uma mudança depois da década de setenta quando começaram a vir escolas de São Jerônimo com seus carros alegóricos até então nunca vistos por ali. Falou que seu avô, simpatizante do bloco Nós os Comandos fazia todo ano uma espécie de cerimônia, onde entregava uma lanterna que o bloco carregaria no desfile.

Noutra parte da entrevista contou dos caminhões de gelo e lenha, e de uma feira realizada perto da foz, onde se reuniam no final das tardes de sábado produtores autônomos com frutas e legumes de ótima qualidade e bom preço. Também um criador de porcos da ilha da pintada, que com os pedaços de carne a tiracolo andava pelas ruas. E de uma companhia apicultora, Mel Cardeal, que era distribuído por umas carroças verdes bem pintadas.

Referiu-se ao jogador de futebol Tesourinha e sua família, moradores do terreno ao lado por muitos anos, com muito carinho, dizendo serem vizinhos excepcionais. Recordou que seu pai já mais velho, brincava com as pessoas da casa, jogando coquinhos para o outro lado da cerca que divide os dois terrenos. Lembrou também da mãe de Tesourinha, que ajudou muito sua avó em períodos de dificuldade, dando os produtos da feira recém comprados de bom grado. Atualmente parece que a família de Tesourinha mora na Restinga, para onde foram boa parte dos moradores da região após as obras de “melhorias” da região, um bairro muito distante do Areal. Quanto aos outros moradores da rua, disse ter antes da construção dos prédios, muitos conjuntos de casas, chamados “avenidas”, com moradores que se mudavam constantemente. Nesses conjuntos sempre muitas crianças moravam, fazendo de dia sempre ter movimento na Travessa.

Já no final da entrevista, seu Marco Antonio entrou para dentro da casa e apareceu com uma espada e uma baioneta, conservadas desde o tempo de seu avô, e uma coleção de moedas também pertencentes a família a bastante tempo. Pelo que contou, gosta muito de guardar coisas antigas.

Morador a vida toda da Travessa Pesqueiro, Marco Antonio construiu sua casa nos fundos da de seus pais e avós, e parece gostar muito da vida com a vizinhança com quem sempre teve boa relação, se orgulhando muito de ser hoje um dos moradores mais antigos. Menino naquela época, andou muito pelas ruas e como pode ser visto na entrevista possui hoje um arsenal de lembranças guardadas com muito carinho, as quais gostamos muito de fazê-lo imaginar."

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Avenida Ipiranga, Rua 1(Um) e o Arroio Dilúvio

Ao iniciar uma pesquisa de campo nas imediações do Beco dos Marianos, no início da Avenida Ipiranga, deparamo-nos com um processo de transformação da paisagem análogo a muitos outros ocorridos ao longo do Arroio Dilúvio. Em uma área considerada de “pouca urbanização”, no sentido de pouca dotação de infra-estrutura sanitária e viária, encontramos uma comunidade em um processo de intensa urbanização em termos da ocupação do Morro Santana. Nessa área, o poder público inicia um processo de colocação de rede coletora de esgotos domésticos, para separá-lo das águas do Dilúvio. Outras imagens são escavadas junto à terra, levantando questões como a coleta de lixo nas ruelas e becos, as sub-divisões e pertencimentos da comunidade, a lógica e a memória de ocupação do morro. São questões que começam a ser levantadas por nossa bolsista Renata Ribeiro. Seguem trechos de um diário de campo e uma seqüência de imagens que revelam a futura separação dos esgotos:
Diário de Campo – 03.06.2009

"Saí de casa às 09h e 30min, levando comigo um gravador, papel, caneta, mais a vontade de começar o dia, sentindo o mistério que há até mesmo nas coisas mais banais da vida na busca do estranhamento daquilo que a primeira vista da grande maioria de nós é tão comum e corriqueiro que passa despercebido, e assim, encontrar a problemática da minha pesquisa. Cheguei ao BIEV – Banco de Imagens e Efeitos Visuais – às 10h e 30 min. para buscar uma câmera fotográfica. Ao chegar lá recebi instruções de meus colegas de como deveria utilizá-la além das recomendações da Professora Ana para que eu ficasse sempre próxima ao colégio. Após me despedi indo em direção à parada de ônibus do Campus do Vale – UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Desci do ônibus, exatamente em frente à Escola Estadual de 1° Grau Desidério Torquato Finamor, às 11h e deparei-me com a rua que leva o nome de Beco dos Marianos – esta toda pavimentada de paralelepípedos, com um grande aclive, alguns estabelecimentos comerciais e um caminhãozinho de frete, incessantemente soltando muita fumaça. Assim que avistei este pequeno caminhão, decidi parar e fotografar. Enquanto eu caminhava em direção ao arroio, ainda com a câmera à mão, avistei alguns homens trabalhando em um buraco de esgoto, novamente decidi fotografar. Fui em direção a eles e os cumprimentei, indagando sobre o que estavam fazendo ali. Falaram-me que estavam instalando fios subterrâneos para a CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica, mas que eram funcionários de uma empresa terceirizada a “Henerge Subterrâneas”. Do local onde eu me encontrava, conversando com estes trabalhadores, avistei na Rua 1(Um), tratores. Foi então que novamente dirigi a palavra a eles perguntando se aquela obra, próxima ao arroio, na Rua 1(Um), era uma continuação daquela em que estavam trabalhando. Responderam-me que não, a outra era do DEMAE – Departamento Municipal de Água e Esgoto. Despedi-me deles e fui em direção a Rua 1(Um).

Obras de Instalação de Interceptores ao lado do Arroio Dilúvio, na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

A Rua 1(Um), não sei porque leva esse nome. Na verdade é uma extensão da Avenida Ipiranga. Logo concluí que este nome funciona apenas como referencial, pois esta é a própria Avenida Ipiranga, sem grandes obras de engenharia e com uma longa pista de chão batido. Esta assim como a parte mais urbanizada, segue o percurso do Arroio Dilúvio; porém é muito mais pobre – sem pavimentação e com casas simples, mas em sua maioria de alvenaria. Nesse percurso o arroio sofreu pouca intervenção humana, no sentido de possuir bastante mata nativa, apesar de encontra-se em meio a muito lixo.

Placa demarcando a Rua 1 (Um) que é uma extensão da Av. Ipiranga no Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Logo na entrada da rua, avistei à beira do arroio, um cavalete com uma placa branca onde estava escrito DEMAE em azul, sinalizando a obra que estava em andamento. Vi também tratores e homens trabalhando os quais fotografei – em seguida aproximei-me de uma mulher bem vestida que se encontrava ali, também observando a obra. Saudei-a com um bom dia, apresentando-me. Falei-lhe sobre o nosso Projeto e que estava interessada em saber que obra era aquela. Muito simpática e receptiva, cumprimentou-me dizendo chamar-se Gislene – Arqueóloga, professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). Professora Gislene contou-me que foi aluna da UFRGS no curso de Ciências Sociais; porém em uma época em que os núcleos de pesquisa não eram abertos para os estudantes. Falou-me que aquela obra estava sendo realizada por uma empresa terceirizada do DEMAE, a “Pontual Engenharia”, consistindo no Projeto de Redes de Interceptores do Arroio Dilúvio. Ou seja, futuramente os esgotos não desaguarão mais dentro arroio, seguirão por encanamentos para a Estação de Bombeamento Baronesa do Gravataí, conectada à Estação de Bombeamento da Ponta da Cadeia (Gasômetro), sendo que – de acordo com o Projeto Integrado Socioambiental – somente no bairro Serraria o esgoto receberá o tratamento completo. Fonte: Website da Prefeitura de Porto Alegre: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/cs/default.php?reg=107732&p_secao=3&di=2009-05-19

Em seguida Professora Gislene disse que maiores informações técnicas ela não saberia dar e que se eu as quisesse, deveria procurar o Engenheiro Rui da “Pontual Engenharia”. Explicou-me que ela estava lá como Arqueóloga, pois quando obras de impacto são realizadas em locais que não sofreram grande urbanização, é necessário que exista o acompanhamento de um especialista, no caso de existir sinais de antigas populações, habitações – por exemplo – de povos indígenas. Em seguida, apresentou-me aos trabalhadores da obra: Sr. Ronaldo o mestre da obras e Sr. Cassildo o tratorista. Muito simpáticos me cumprimentaram com um forte aperto de mãos. Durante nossa breve conversa, Sr. Cassildo comentou-me, que em outros tempos, viu pescadores no arroio. Por fim, alertaram-me, dizendo que eu deveria me cuidar ao andar por aquela região. Agradeci-lhes por tudo e me despedi dizendo que voltaria lá outras vezes para acompanhar o processo da construção dos interceptores.

Homens Trabalhando na Instalação dos Interceptores do Arroio Dilúvio, na Rua 1 (Um). Autor: Renata Ribeiro.

Segui meu caminho fotografando em direção a casa de Dona Regina, informante a quem prometi em outra ocasião, levar o número de telefone do DMLU – Departamento Municipal de Limpeza Urbana. Durante o trajeto deparei-me com grandes canos de concreto que serão utilizados na obra, os quais também fotografei. Exatamente no momento em que eu iria dobrar a rua Semi Aberto, local onde Dona Regina reside, um cachorro que estava dentro de um pátio sem portão começou a latir, vindo em minha direção. Outros cães se juntaram a este, saindo dos pátios e com cara de poucos amigos. Apavorei-me e decidi seguir o meu trabalho de campo, na outra extremidade do arroio. Ufa!

Subindo a lomba da Rua Beco dos Marianos, encontrei uma mulher que limpava a calçada, catando papéis do chão. Ainda distante dela, fotografei-a,mas logo me aproximei, apresentando-me. Perguntei-lhe qual era o seu nome e se ela era moradora do local. Respondeu-me que se chamava Eliane e que não era moradora, porém já havia residido lá há aproximadamente quatro anos. Então expliquei a ela o que eu estava fazendo naquela região e em seguida me despedi.

Próximo ao meio dia, quando os alunos já saiam do colégio, decidi voltar para o campus. Porém, ainda fotografei um carrinho para a cata de material reciclável e uma caminhonete vermelha vendendo detergente caseiro, que em outra saída a campo já havia visto. Registrei imagens de lixo e madeira à beira do arroio e da serralheria que fica ao lado assim como imagens de uma contenção de pneus.

Contenção de pneus a margem do Arroio Dilúvio na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Por conseguinte, a Rua Beco dos Marianos que se encontra no Bairro Agronomia e leva este nome em função da Faculdade de Agronomia da UFRGS, construída no ano de 1899; esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1(Um), como citei anteriormente. E é exatamente este espaço deste Bairro formado não só pela Rua Beco dos Marianos e pela Rua 1(um), mas também por outras pequenas ruas é que desejo estudar e compreender. Descobrir como este se constituiu ao longo dos anos e resgatar a memória de como ocorreu todo este processo. Compreender como funcionam as relações neste espaço: se os moradores se consideram pertencentes à comunidade do Beco dos Marianos. Saber de que forma os residentes desta região se autodenominam. Sentem-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou Será que para eles esta é apenas uma rua, como se encontra no mapa da cidade?

É também minha intenção encontrar ou ao menos tentar compreender, por meio dos relatos de moradores, o motivo da expressiva quantidade de lixo “palpável” encontrado às margens e dentro do arroio. Por fim, pretendo descobrir como percebem esta paisagem e o que ela significa em suas vidas e buscar mais informações, por meio do engenheiro Rui, sobre o Projeto de Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio, bem como buscar uma maior aproximação com Arqueóloga e com o cotidiano dos operários da obra."

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Arroio Sem Nome (1)

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, instituição da qual parte este projeto, está intimamente ligada ao Arroio Dilúvio. Uma das suas interfaces ocorre através do Arroio Sem Nome, uma “sanga”, conforme os moradores locais, que é justamente a divisa de município entre Porto Alegre e Viamão. Nesta fronteira encontra-se também o Campus do Vale da UFRGS, constituindo-se, portanto, em território de responsabilidade do Governo Federal, entre os dois municípios.

Assim como o Arroio Sem Nome, muitas pessoas cruzam diariamente essa fronteira: estudantes, moradores de Viamão, funcionários da UFRGS, motoqueiros preenchem o confuso espaço sonoro que anuncia a presença da água, nas ruas que levam à Vila Santa Isabel.

O Arroio, sem nome, quase sem margem, nomeado pela quase negação de sua característica natural, se encontra espremido entre um muro que a Universidade construiu, e os caminhos e terrenos apropriados traçados em sua margem ocupada.


Encontramos Carlos, morador da Vila Santa Isabel, e proprietário da Escadinha que presta serviço de cópias para os estudantes da UFRGS. Carlos, da porta de seu negócio, observa o comportamento daqueles que passam em frente ao arroio. Alguns o ignoram, outros lançam sacos de lixo em suas águas, em suas margens. Carlos nos conta os conflitos que observou, envolvendo a Prefeitura de Viamão, a Universidade Federal, a Prefeitura de Porto Alegre, O Ministério Público e os moradores da Vila. Carlos nos relatava iniciativas contraditórias entre estas instituições: o cercamento da margem por parte da UFRGS, a obrigatoriedade da construção de fossas sépticas na beira do arroio por parte da Prefeitura de Viamão, a instalação de uma lixeira pública na margem do arroio, como forma de remediar o uso popular do local como depósito de lixo. São todas medidas que negam aquilo a que este arroio nunca alcançou, o reconhecimento da sua importância para a bacia hidrográfica com a qual contribuiu, e a manutenção de suas características naturais.

Os moradores que encontramos nos relatam suas próprias iniciativas de limpeza do arroio, de dragagem caseira de suas margens, de táticas para driblar a presença do esgoto dos vizinhos atravessando seu quintal para chegar até à sanga. Surpreendeu-me a iniciativa desses moradores, em expor essa relação. Encontraram na equipe de gravação, estudantes da UFRGS, que conduzi até seu cotidiano, uma escuta diferenciada, e uma forma de fazer sua palavra atravessar a fronteira invisível que os segrega.

Narrando suas trajetórias e itinerários pela cidade que os levaram até a beira do arroio, os vizinhos Catarina e Oscar nos contam seus projetos, suas iniciativas, seus impasses. Evidenciam um cotidiano no qual se encontram ligados pelas águas, pela água da chuva, pela água potável cuja conta é divida entre as casas, pela água do arroio nas cheias, pela água do esgoto nos pátios.

Paradoxalmente, a ocupação irregular do arroio parece ser a única que o reconhece, e com ele convive.

A questão é pertinente:

A quem pertence este arroio?

A quem cabe nomeá-lo?

Melhor seria perguntar:

Quem é responsável por ele?

O Arroio Sem Nome tem suas nascentes no Morro Santana, ele desce pela Vila Santa Isabel, costeando o Campus do Vale da UFRGS até a barragem construída pela Universidade no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), direcionando-se então para o Arroio Dilúvio.


Saídas de Campo realizadas nos dias 06 e 13 de maio de 2009. Participaram das gravações o Bolsista DTI do Projeto Habitantes do Arroio Rafael Devos (Pesquisador Associado BIEV/UFRGS) e os bolsistas do BIEV/UFRGS, estudantes de Ciências Sociais da UFRGS, Ana Paula Parodi, Luciana Tubello Caldas, Patrick Barcelos e Stéphanie Bexiga.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Qual a importância do Arroio Dilúvio?



A primeira resposta que nos vem à mente é a questão do esgoto – levar embora a sujeira. Mas esta não é apenas uma questão de higiene. O esgoto de Porto Alegre é responsabilidade de dois órgãos municipais: o DMAE, que trata do abastecimento de água e do tratamento dos esgotos domésticos, e o DEP, que trata do esgoto pluvial, da água da chuva. Em uma de nossas primeiras consultas a técnicos da área ambiental, conversamos com Daniela Bemfica e Juliana Young, do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), que nos esclareceram algumas das questões que são cada vez mais notícia em vários estados brasileiros: as enchentes, a impermeabilização do solo e a importância dos arroios no escoamento da água da chuva.

O que parece atualmente um problema controlado, se revela o nó da questão para a revisão do planejamento urbano das cidades, dos vales, das áreas baixas do Brasil. O esgoto pluvial não se apresenta como um problema para Porto Alegre, mas escoar a água da chuva é uma das maiores dificuldades urbanas contemporâneas, com a impermeabilização do solo. Muitas reivindicações são feitas quanto a saneamento, no sentido de acabar com o esgoto doméstico “à céu aberto”, com a sujeira, mas o saneamento dos “valões” vai para muito além disso, pois revela uma interdependência ainda maior entre muitas localidades da cidade, que nem imaginam que estão ligadas pela água da chuva. O convencimento da população (moradores, empresários da construção civil, proprietários de imóveis, arquitetos) de como colaborar com essa face do saneamento e conviver com a dinâmica hídrica é complicado. Muitas vezes, a solução reivindicada, a canalização dos arroios pode acelerar sua vazão, necessitando de bombeamento, diques e outras medidas de proteção. A obra do Arroio Dilúvio, fundamental para Porto Alegre, é a expressão máxima desse modelo de saneamento, que reunia ao mesmo tempo a construção de grandes avenidas, a valorização das terras urbanas em áreas alagadiças e o saneamento pluvial e doméstico. Embora tenha resolvido o problema das cheias constantes do Arroio Dilúvio, o modelo de urbanização em que a obra estava inserida passou a ser aplicada a muitas regiões da cidade, fazendo com que a capacidade do solo urbano de absorver a água da chuva diminuísse cada vez mais. A negociação que se apresenta agora é sobre um novo modelo de saneamento, no qual os arroios não sejam mais canalizados, pelo contrário, se prevê uma revisão da construção civil nas áreas em torno dos arroios.

Indicado pelas técnicas do DEP entrevistadas pela equipe de pesquisa, Sr. Leopoldino Borges nos conta as negociações necessárias com os moradores, e a trama institucional que se passa na canalização do Dilúvio nos anos 1950/60. Ele nos conta que, na época, ocorreu um imenso investimento do Governo Federal nas obras de contenção de cheias, de drenagem, de urbanização das cidades brasileiras em conjunto com uma estratégia de controle da fúria das águas. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou, foi responsável por inúmeras obras em Porto Alegre e no interior do RS, com o objetivo de evitar que a grande tragédia da Enchente de 1941 se repetisse. A enchente de 1941, e as cheias seguintes, na década de 1960, revelaram à cidade de Porto Alegre seu frágil lugar na Bacia Hidrográfica: às margens do Lago Guaíba, em uma área baixa, recebe mais de um terço das águas de todo o Rio Grande do Sul. Embora as cheias estivessem presentes na memória dos habitantes, a sua relação com a urbanização não é evidente. A tendência é que o solo urbano tome a frente da água, nas questões fundiárias.



Apesar do investimento ser do Governo Federal, as negociações quanto ao solo urbano são mediadas pelo Município, pela Prefeitura. Ainda hoje, o direito a um saneamento adequado, e as obrigações quanto à destinação correta de efluentes são colocadas a partir de leis federais, enquanto que a gestão deste saneamento cabe ao município. Vemos se processar contemporaneamente esta lógica inversa em muitas cidades do Brasil, atingidas por cheias: a situação de emergência, de calamidade pública convoca o Governo Federal a tomar medidas para remediar a tragédia, os prejuízos. São certamente negociações políticas, mas pode-se também perguntar qual o papel dos demais atores nesta interdependência. Certamente, o reconhecimento desse processo de impermeabilização do solo por parte de quem volta seus projetos de construção para as regiões em torno dos arroios é fundamental, do empresário da construção civil, passando pelo futuro morador de um prédio, até o morador que constrói sua casa com a ajuda de sua rede de vizinhança.

A obra do Dilúvio, apesar de seguir o modelo das canalizações, foi fundamental. Mas novas possibilidades se apresentam contemporaneamente. A virada possível no saneamento contemporâneo é a necessidade de manter, ao longo dos arroios, a mata nativa, a vegetação constantemente cuidada, espaços largos onde a água da chuva que transborda possa ser absorvida. Ainda que se possa construir muros de contenção, diques e outras soluções, a permanência da feição “natural” do arroio, sua inserção no conjunto das obras das vias urbanas, dos espaços destinados à construção civil é fundamental, ou seja, uma nova urbanização se configura neste sentido.
Perguntamo-nos, depois dessa herança das cidades brasileiras, dessa luta contra a água e as áreas naturais no processo de urbanização que marca a memória ambiental de muitas cidades como Porto Alegre, como inverter essa lógica conquistada do concreto sobre a terra a água? Sanear não é necessariamente “limpar”, mas a oposição entre a limpeza e a sujeira, como nos ensina a Antropologia, nos convoca a repensar a ordem do universo, a forma como ordenamos esse arranjo de moradas, avenidas e arroios.

A alternativa contemporânea, de “renaturalizar” arroios no mundo inteiro, não precisaria ainda ser seguida por Porto Alegre, mas certamente, não é mais necessário canalizar, “enterrar” arroios na cidade. Há uma série de iniciativas previstas na cidade, com relação, por exemplo, ao Arroio Moinho, afluente do Dilúvio, que seguem essa nova perspectiva. Prepara-se uma nova etapa do saneamento pluvial na cidade – o debate sobre como fazer contenção de cheias: fazer piscinões como os de São Paulo (onde?), estender a foz do Arroio até mais adentro do Guaíba, lançando lago adentro as águas do Dilúvio? Apesar do Dilúvio parecer “controlado” quanto ao esgoto pluvial, seus afluentes ainda não são. Um debate que as técnicas do DEP prevêem, ainda se colocará presente na cidade.

Créditos das fotos:

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951


terça-feira, 28 de abril de 2009

A obra que modificou Porto Alegre

Sr. Leopoldino Braga foi um informante indicado por Daniela Bemfica, técnica do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), como um engenheiro que havia participado das obras de canalização do Arroio Dilúvio. Ao contatar Leopoldino, descobrimos que ele não apenas participou, como foi também o responsável técnico pela execução da obra. Seguem alguns momentos da entrevista:

Duas imagens ficaram gravadas na minha lembrança, depois da entrevista com Sr. Leopoldino Borges. A primeira foi quando ele abriu a porta, sorridente, nos recebendo com ar seguro, pedindo que entrássemos. Estava estampada em seu rosto a vontade de falar do Arroio Dilúvio, ou como veríamos a seguir, sobre o DNOS. A segunda imagem foi quando ele, no meio da entrevista, segurou a mão no ar, fechou os olhos e disse:

- Feche os olhos, tire fora a Ipiranga. O que sobra?



Esse seria o tom de toda a entrevista, imaginar não apenas Porto Alegre, mas todo o Estado do Rio Grande do Sul, sem as obras que foram realizadas pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou como engenheiro civil e superintendente durante muitos anos. Foram inúmeras obras de construção de esgoto sanitário, barragens, canalização de arroios, e outras medidas tomadas no Estado, após a grande enchente de 1941, com o intuito de domar a fúria das águas, evitar alagamentos e promover saúde pública. Parte do milagre econômico, da transformação das capitais em metrópoles e do desenvolvimentismo brasileiro, foi também um marco na construção civil do RS este departamento: um órgão federal, destinado à realizar obras de grande porte, de infra-estrutura urbana, que após concluídas passavam a ser responsabilidade dos municípios beneficiados. Fechado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo na década de 1990, nos perguntamos, na companhia de Leopoldino, onde foram parar a memória, e os bens do DNOS? Uma parte certamente está com Leopoldino, em suas lembranças, mas e as outras? Uma máquina destinada a dragagem constante do Arroio Dilúvio da qual não se sabe o paradeiro, ou os 40 teodolitos encomendados da Suíça, dos quais ele lembra com gosto. E certamente retomamos a importância deste órgão, no atual contexto de inundações constantes em todas as regiões do país.

Além da história do DNOS, aprendemos muitas coisas nesta entrevista, que iremos divulgar agora no blog, em algumas postagens. Na primeira narrativa editada, Leopoldino nos conta os longos anos que esta obra necessitou, tendo sido iniciada pelo município de Porto Alegre, e terminada pelo DNOS, com a participação de personagens ilustres da capital aos quais Leopoldino se refere com intimidade: Ildo Meneghetti, Telmo Thompson Flores, entre outros que se envolveram com a transformação da região do Arroio Dilúvio em Avenida Ipiranga. Leopoldino conta que a Prefeitura realizou as obras de escavação da Av. Praia de Belas até a Ponte da Av. Azenha, assim como a urbanização do antigo braço do riacho aterrado, até a Ponte dos Açorianos. Da Ponte da Azenha e da João Pessoa, até a Barragem do Sabão, em Viamão, o DNOS assumiu a obra, transformando o “filete” que era o dilúvio no largo canal que vemos hoje. Mostramos algumas fotografias da construção do canal para Leopoldino. A perspectiva atual de imaginar o que resta de arroio em meio à região urbanizada se inverte: era a configuração urbana, a estética de ruas, avenidas, trânsito, canalizações, que parece surgir do barro, da lama, nas imagens.



Outra narrativa incrível foram as negociações com os moradores que tiveram de ser removidos, dos terrenos desapropriados durante as obras. A sua habilidade na argumentação com um “português” que queria embargar a obra, e temia a ligação da sanga de seu terreno no largo canal do Dilúvio, ganha destaque. Leopoldino ri com gosto dessas lembranças. Sua simpatia e seu senso de humor quanto aos conflitos inerentes a uma obra deste porte revelaram um aspecto pouco conhecido, e mais humano, de um período de grandes transformações da cidade. Aos 86 anos, Leopoldino parecia ter claras essas imagens, dedicava a elas alguns silêncios durante a entrevista. Interrompia às vezes a narrativa, para resgatar algum detalhe que a memória costuma embaralhar, ou para consolar sua fiel cadelinha, que no início implicou com o microfone da equipe, mas que depois aconchegou-se ao seu lado, e dali não saiu.

Em outras narrativas, Leopoldino faz referência à antiga Ilhota, onde morava sua esposa, durante a infância. Ela nos contou, ao final da entrevista, sua convivência com a vida social da Ilhota, e a enchente de 41 que elevou as águas à altura de um adulto, na sua casa. O casal soma já mais de 60 anos de casados, e se mostrou muito disponível para narrar essa Porto Alegre que viu nascer a Avenida Ipiranga. Saímos de sua casa satisfeitos, com uma nova bagagem para a pesquisa, mas com vontade de saber mais. Gostaria também de ver como será a surpresa de Leopoldino e sua família, ao verem suas narrativas na internet. Essa é a fase da pesquisa das lembranças, das narrativas, sobre essa velha e alagadiça Porto Alegre. Mais estórias virão.

Entrevista com Leopoldino Borges. Realizada em 16 de abril de 2009. Participaram da entrevista Ana Luiza Carvalho da Rocha, Rafael Devos, Viviane Vedana e Ana Paula Marcante Soares.

Créditos das fotos

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951

domingo, 19 de abril de 2009

Urbanização de arroios

Saída de Campo com o Engenheiro Sanitarista Paulo Paim, nosso consultor da equipe do projeto, e atualmente representante do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. A equipe de gravação era composta por Ana Luiza Carvalho da Rocha na direção, Rafael Devos na câmera e Viviane Vedana na etnografia sonora.

Saímos de casa em “horário de engenheiro”, 06:30 da manhã, para buscarmos Paim. No caminho, algumas combinações. Paim vai olhando ao longo do arroio, da Av. Barão do Amazonas até a Av. Antônio de Carvalho, algumas questões para nos mostrar. Vou gravando com Vi suas primeiras falas, para ajustar o dispositivo de gravação. O rosto de Paim levemente iluminado pelo sol da manhã e o arroio passando ao fundo evocam outras imagens produzidas pela pesquisa.

Primeiro ponto a observar: Beco dos Marianos. Ali Paim nos comenta o que seria o “arroio natural”, com a vegetação em volta que ajuda a sustentar o leito do arroio, o solo que absorve boa parte da água, e uma “cara de sistema” que está sendo hoje recuperada pelo sanitarismo contemporâneo – recentes loteamentos devem deixar como área de lazer, “parque” os leitos dos arroios, sem construir nada na margem, sem canalizar. Ainda vou me ajustando ao esquema de entrevistar e gravar ao mesmo tempo, com Paim já tenho intimidade para segurar a entrevista mesmo olhando pelo visor da câmera. De dentro do carro, percorrendo esse trecho da Av Ipiranga ainda sem asfalto, Paim observa que apesar do arroio parecer “natural” ele possui uma murada de contenção. Paramos o carro para conversar com uns moradores sobre o “nível” até onde chega o arroio em cheias. Essa parece ser uma informação muito importante – na Ipiranga do asfalto, o limite é a altura das pontes, exatamente. Os moradores, dois rapazes, não parecem muito am interessados, mas fazem sinal que estão atrasados para pegar o ônibus. Esse é o problema de abordar alguém na Av. Ipiranga – ali a ética é a da pressa e do trânsito que flui, não do passeio, com exceção para os corredores e caminhantes do final de tarde. Ainda dentro do carro, Paim retoma suas lembranças de Teresópolis – confessa que os seus pais pedim para ele jogar o lixo de casa no arroio, no mesmo arroio que ele e o irmão brincavam. Constata que apesar da casa estar “de costas” para o arroio, deste ser os “fundos” da casa, era para eles um quintal, ou seja, fico pensando, fazia parte de um microcosmos. Interessante como Paim retoma constantemente essa imagem da infância, do arroio Passo Fundo no Bairro Teresópolis como sua imagem primeira da água. É o que Bachelard vai nos dizer sobre a nossa rivière íntima, uma água que corre nas profundezas de nosso imaginário, e que nos remete ao nosso cosmos interior, que é mais presente na infância. Claro que essa imagem da lembrança foi acionada pelo “arroio natural”. Quando entramos no arroio onde é mais evidente a obra de saneamento, foram mais outras questões de saneamento e sua relação com a cidade que surgiram. Ana chama a atenção para o fato de que essa aparente “desordem”, “falta de obra” que o arroio “natural” apresenta poderia ser uma motivação simbólica para um certo descaso com o arroio, no sentido de que ele seria uma fronteira, limite, fim do espaço urbanizado, não ser “de ninguém”.

ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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