
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Estação de Bombeamento Ponta da Cadeia

quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O caso do Beco dos Marianos
O Projeto Habitantes do Arroio vem sendo realizado desde janeiro de 2009, e tem como principais objetivos disseminar entre grupos urbanos e instituições locais, informações técnicas e científicas a respeito dos recursos hídricos, da bacia hidrográfica do Lago Guaíba e da microbacia do Arroio Dilúvio, a partir da construção de narrativas audiovisuais (que são postados no blog do projeto), referentes aos desafios e aos impactos ambientais, econômicos e sociais implicados na destinação adequada e no tratamento de esgotos.
Memórias do antgo riacho na Cidade Baixa:
Com a finalidade de fazer uma primeira aproximação com objeto da pesquisa, iniciei as minhas saídas a campo, no dia 24/04/2009, na região da Cidade Baixa, local onde Luna, minha colega, desenvolve seu estudo. Durante a etnografia de rua procurei descobrir os vários lugares por onde outrora corriam as águas do riacho (o dilúvio antes das obras) – rememorando o seu percurso. Constatei que aquela região guarda muitos causos referentes às enchentes, à cultura carnavalesca e quilombola da cidade, uma importante contribuição para a reconstrução da memória ambiental daquela região e de Porto Alegre.
Rua Beco dos Marianos vista do alto do Morro Snatana. Autor: Renata Ribeiro.
A Comunidade “CEEE”:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/07/comunidade-da-ceee_6311.html
Familiarizada com esta área onde antigamente passava o arroio Dilúvio, iniciei meu trabalho de campo no extremo oposto, ou seja, na região do Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana, dividido pelos Bairros Jardim Carvalho e Agronomia. Minhas primeiras saídas a campo foram guiadas pelo intuito de descobrir a forma com que os moradores daquela região do Morro Santana se autodenominavam: sentiam-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou para eles esta era apenas uma rua, como outra qualquer, no mapa da cidade.
Durante este estudo, procurei resgatar, por meio dos relatos dos moradores desta localidade, fragmentos de suas memórias que pudessem elucidar as seguintes questões: Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Além de buscar as respostas para estas e outras perguntas, tenho buscado compreender a diversidade sócio-cultural relativa à combinação entre o rural e o urbano neste espaço.
Ao longo de minha etnografia conheci Anderson, um jovem bastante pobre, de 21 anos de idade – antigo morador do Morro Santana. Este rapaz é quem, no primeiro momento, elucida minha etnografia, pois me fez saber que a região do Beco dos Marianos é denominada de “CEEE” pelos moradores, em virtude da existência de uma subestação da companhia elétrica, no alto do Morro Santana. Além disso, também contou que a rua considerada a mais importante, pelos moradores daquela região, é a Atenas e não a Beco dos Marianos, como nós pesquisadores pensávamos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Anderson também falou do porquê, na visão dele, de tanto lixo no arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá.
Na medida em que me familiarizava com aquele espaço denominado “CEEE”, eu ia me sentindo mais segura para subir o extenso aclive da Rua Beco dos Marianos. Na primeira ocasião em que estive no alto do morro, tive a feliz oportunidade de conhecer o Sr. Joyne, um homem de 53 anos de idade, de origem alemã e polonesa, residente no Morro Santana desde que nasceu.
Este homem foi quem me falou sobre ocupação daquele local cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. As primeiras pessoas foram retiradas por oficiais de justiça, disse-me. Além disso, também me falou da relação perturbada que a comunidade mantém com o DMAE, em função dos vazamentos de água que não são prontamente estancados.
Tendo em vista as suas interessantes colocações e a boa aproximação que obtive com este senhor, a equipe do projeto decidiu realizar uma entrevista com ele. Para que esta fosse bem sucedida e para que todos da equipe estivessem a par de tudo, desenvolvi um roteiro, bem como um mapa para nos situarmos melhor no local.
Meu objetivo nesta entrevista era trazer para o tempo do mundo fragmentos de suas lembranças referentes ao Morro Santana e ao seu processo de ocupação, bem como da memória ambiental daquele espaço. Para que isso acontecesse de forma natural foi necessário que o provocássemos a expor a sua singular trajetória social e seus itinerários urbanos. Para que, por meio de sua história de vida, tivéssemos a oportunidade de conhecer e compreender muitas coisas relacionadas ao Arroio Dilúvio.
Em outra oportunidade de saída a campo, ao chegar ao pé do Morro Santana, deparei-me com o desenvolvimento de uma obra realizada pelo DMAE na Rua 1 (Um). Ao descobrir a importância desta e ao ouvir os relatos dos trabalhadores, a equipe do projeto decidiu realizar uma filmagem com eles. Esta gravação nos rendeu uma crônica (narrativa audiovisual), com relatos de pessoas que conheciam uma outra cidade: a Porto Alegre subterrânea.
Obras de Instalação de Interceptores na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/08/produzimos-este-video-quando-retornamos.html
Ao realizar minha etnografia de rua, por diversas vezes deparei-me com informantes que presenciaram os mesmos acontecimentos; contudo, eles relembraram partes diferentes destes, possivelmente aquilo que mais lhes marcou individualmente. Justamente por isso procurei resgatar, de cada um deles, fragmentos de suas lembranças, instigando-os a pontuarem suas recordações do tempo subjetivo no tempo do mundo. Para que depois eu pudesse unir essas partes e então localizar “as raízes do presente, em solo do passado”.
Foi-me possível perceber que aquela comunidade alimenta costumes rurais, como: a criação de cavalos, galinhas, gansos e o cultivo de pequenas hortas. Por meio de alguns relatos constatei inclusive que alguns nativos da comunidade “CEEE” vieram da zona rural, para o Morro Santana, em busca de oportunidades para uma vida melhor.
Como as aprendizagens das tecnologias perpassam a minha etnografia?
Concomitantemente ao desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, eu e a equipe do projeto produzimos, por meio do tratamento documental dos dados recolhidos em campo (fotografia e vídeo), narrativas audiovisuais, crônicas, que foram postadas no blog, onde também há nossos diários de campo e as primeiras conclusões quanto à pesquisa.
O processo de construção destas crônicas iniciou-se pela filmagem previamente roteirizada. Por meio de um programa instalado nos computadores do BIEV e do Instituto Anthropos, a equipe do projeto dividiu as filmagens em episódios que passaram por um processo de catalogação, onde receberam nomes e comentários técnicos quanto à imagem e som. Em seguida, escolhemos e marcamos em cada episódio, os momentos mais importantes. Depois de todo este processo tecnológico de construção das narrativas audiovisuais, a equipe do Projeto Habitantes do Arroio postou estas crônicas, junto a diários de campo e prévias conclusões da pesquisa, no blog do projeto, com o intuito de possibilitar a interatividade entre o pesquisador, o pesquisado e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir com seus relatos e críticas, bem como aos que estão em busca de conhecimento a respeito do Arroio Dilúvio.
Quanto a minha etnografia, as conclusões mais recentes postadas no Blog são as seguintes: a região da Rua Beco dos Marianos, no Morro Santana, dividida pelos bairros Agronomia e Jardim Carvalho esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1 (Um), além de outras pequenas travessas, becos e ruas, que juntas formam a Comunidade “CEEE”.
Este é o espaço que tenho estudado e tentado compreender, cuja ocupação tumultuada teve seu início na década de 70. Hoje os residentes deste local consideram-se pertencentes à “CEEE”. Averigüei também que uma parcela significativa deles veio da zona rural do Estado em busca de novas oportunidades. Em virtude disso o estilo de vida predominante neste espaço pode-se dizer que é formado por uma combinação de costumes rurais e urbanos. Além disso, segundo meus informantes residentes mais antigos do Morro Santana, quando chegaram ali, o arroio já se encontrava poluído. Contudo, ainda era possível pescar.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Para onde vai o esgoto da sua casa?

terça-feira, 4 de agosto de 2009
Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio
domingo, 19 de julho de 2009
Projeto de despoluição e revitalização
Segue a primeira colaboração recebida:
Prezados Amigos do Blog HABITANTES DO ARROIO:
Gostaria de postar esse Projeto para que todos possam apreciar, discutir, criticar e aperfeiçoar. Um grande abraço. Luiz C. Vaz Ferreira (Design)
Visa dividir o leito do dilúvio em 3 (três) vias, sendo a via do centro um corredor de estrutura de concreto armado em módulos, onde apenas correria a água pura e cristalina. Nos 2 (dois) lados opostos, teríamos corredores exclusivos para a captação das redes cloacais e pluviais, estas redes antes de entrar em contato com os novos corredores passariam por Estações de Reciclagem Primária para conter areia e pequenos resíduos de lixos domésticos. Estes corredores seriam transformados em Galerias de Esgoto, pois receberiam coberturas com chapas de concreto móveis para eventualmente serem retiradas para a manutenção da limpeza quando necessária e no final dos seus cursos, seriam desembocadas em duas Estações de Tratamento de Esgoto para depois desaguar no Lago Guaíba. Com a construção das Estações de Reciclagem Primária, para uma pré-seleção e, com a construção das novas galerias, de imediato poderíamos perceber que lixos domésticos, restos de obras, pneus velhos e tudo que se possa imaginar jogados no dilúvio, já seriam evitados, isto possibilitará que tenhamos um melhor fluxo.
Revitalização
Com um córrego de água cristalina deslizando sobre uma estrutura de concreto em formato oval para melhor ser visualizada, poderemos imaginar um projeto de urbanização adaptado para a comunidade apreciar e desfrutar do novo cartão postal da cidade. Além de estar voltado para os benefícios do meio ambiente, estaremos recuperando a memória histórica de um rio, que no passado passava sob a Ponte de Pedras, construída pelos escravos em 1848, teve o seu curso alterado na década de 1930 e está preservada no Largo dos Açorianos A realização desse projeto possibilitará que Porto Alegre seja considerada modelo para outras cidades como uma referência mundial.

terça-feira, 23 de junho de 2009
A rede de saneamento e a rede de memórias
Seguindo as descobertas iniciais da rede de vizinhança que nossa bolsista Luna Carvalho traçou nas imediações do Areal da Baronesa e da antiga Ilhota, entre os Bairros Cidade Baixa e Menino Deus, realizamos uma nova entrevista. Nosso interlocutor foi o Sr. Marco Antônio Macedo Moreira. As suas lembranças, associadas aos relatos do seu vizinho, Sr. José, e aos relatos de outros moradores que vão surgindo nos diários de pesquisa, nos fazem descobrir novas dimensões territoriais associadas ao antigo curso do “riacho” que passava na região, um braço do Arroio Dilúvio que seguia até o centro da cidade, passando sob a Ponte de Pedra que ainda existe na Av. Borges de Medeiros. O riacho aparece como um limitador dessa experiência territorial, de um microcosmos, onde dividem-se pequenos mundos: de um lado a turma da Ilhota, de outro, o pessoal do Areal, mais distantes, o centro da cidade e os bairros abastados como o Menino Deus. A vida na rua, a sociabilidade expressa no carnaval e nas festas, os laços de pertencimento expressos na solidariedade entre vizinhos, e uma distância maior da “cidade”, representada pelo centro administrativo de Porto Alegre. A água surge como delimitadora dessas divisões territoriais, de certa forma dando uma sensação de refúgio, guardando a vida comunitária de pequena escala, das casas lado a lado, das “avenidas”, terrenos de grande profundidade divididos entre 6, 8 casas, dos becos, das margens. Da porta de casa, Marco Antônio nos conta que enxergava ao longe o viaduto da Avenida Borges de Medeiros, um símbolo da urbanização de uma cidade que começava a se ver como metrópole, nos anos 50, quando as obras de canalização do Dilúvio ocorreram.
Marco Antônio, como outros informantes, nos relatam com prazer essas imagens. Poderíamos nos iludir sob o senso comum do saudosismo de uma cidade que não existe mais. No entanto, assim como os cabungos com o esgoto doméstico eram despejados no Rio Guaíba, ainda hoje, o esgoto doméstico, coletado separadamente do esgoto pluvial, ainda é lançado nas águas do Guaíba, passando por outros processos, é verdade, mas atualizando a relação da cidade com suas águas, que já não são o limite do mundo urbano. Também esses “arquivos”, como se define Marco Antônio (“Eu sou um arquivo vivo dessa rua”) estão ali para afirmar a continuidade de uma forma de viver a experiência da rua compartilhada. A Travessa Pesqueiro ainda é habitada como este microcosmos, as águas correm subterrâneas como essa memória, mas como o próprio Dilúvio em dias de cheia, muitas vezes, elas voltam à tona. Transbordam.
Segue o diário de Luna, e algumas narrativas de Marco Antônio e José.
“19 de maio de 2009.
Chegamos a travessa pesqueiro lá por uma três da tarde, tínhamos ido ao Museu Hipólito da Costa anteriormente. Tocamos a campainha e depois de um tempo de espera abriu a porta um senhor sorridente e falante, seu Marco Antonio, que por sorte tínhamos conhecido no dia da entrevista com seu José, seu compadre. Entrando no portão ele já foi nos indicando que era “só seguir o trem”, um corredor muito comprido, cheio de folhagens, até chegar a entrada de sua casa que era a última. Passamos por umas três casas, habitada por outros parentes.
Entrando na cozinha, onde seria feita a entrevista, a esposa de seu Marco Antonio lavava a louça. Logo de inicio ele já começou a falar, pegou as fotos e foi para a janela mostrar para a Profa. Ana Luiza, onde passava o riacho, nos fundos do seu quintal. Possui um álbum cheio de fotografias antigas, da família com os vizinhos, da frente da casa que existe desde 1915, do pai e do avô fazendo pose com espadas, e a tão famosa foto que havia falado bastante no dia que lhe conhecemos, o riacho visto dos fundos de sua casa, com casas da João Alfredo ao fundo. A primeira coisa que contou foi dos “cabungos”, recipientes que antes dos sistemas de esgoto guardavam os dejetos de cada casa, e semanalmente eram trocados, sendo levados para um trapiche perto do antigo Estaleiro Só, na Lomba do Asseio. A sujeira era despejada e o cabungo lavado.
Seu Marco Antonio, uns anos mais novo que seu José se lembra mais da fase do arroio já aterrado, “aquele chão batido, tudo vermelho”. Segundo ele quando se deu conta já não havia mais riacho. Se lembrou ao longo da entrevista dos trajetos que fazia nessa época, a partir da Quatro Jacós até a ponte de pedra, recordando das brincadeiras no “areão”. Assim como seu José, lembrava de tudo com aparente saudade, quando falava da família, principalmente os avós com quem pareceu ter tido uma boa relação. Vindo de Portugal da região de Trás dos Montes, o avô de seu Marco Antonio trocou de nome quando chegou ao Brasil, trabalhou em muitos lugares e foi quem construiu a casa da frente onde hoje funciona uma marcenaria. Tinha na família também um tio que jogava búzios, quem lhe deu muita força para entrar na CEEE, onde trabalhou um bom tempo de sua vida, e viu inclusive a mudança da sede que ficava no centro ir para a inabitada Avenida Ipiranga.
Seu Marco Antonio, assim como seu José e os outros antigos moradores que temos encontrado na Cidade Baixa, ficou um bom tempo falando do carnaval, dos puxadores de samba que eram imbatíveis, do rei Momo Lelé que ainda é vivo, e de uma mudança depois da década de setenta quando começaram a vir escolas de São Jerônimo com seus carros alegóricos até então nunca vistos por ali. Falou que seu avô, simpatizante do bloco Nós os Comandos fazia todo ano uma espécie de cerimônia, onde entregava uma lanterna que o bloco carregaria no desfile.
Noutra parte da entrevista contou dos caminhões de gelo e lenha, e de uma feira realizada perto da foz, onde se reuniam no final das tardes de sábado produtores autônomos com frutas e legumes de ótima qualidade e bom preço. Também um criador de porcos da ilha da pintada, que com os pedaços de carne a tiracolo andava pelas ruas. E de uma companhia apicultora, Mel Cardeal, que era distribuído por umas carroças verdes bem pintadas.
Referiu-se ao jogador de futebol Tesourinha e sua família, moradores do terreno ao lado por muitos anos, com muito carinho, dizendo serem vizinhos excepcionais. Recordou que seu pai já mais velho, brincava com as pessoas da casa, jogando coquinhos para o outro lado da cerca que divide os dois terrenos. Lembrou também da mãe de Tesourinha, que ajudou muito sua avó em períodos de dificuldade, dando os produtos da feira recém comprados de bom grado. Atualmente parece que a família de Tesourinha mora na Restinga, para onde foram boa parte dos moradores da região após as obras de “melhorias” da região, um bairro muito distante do Areal. Quanto aos outros moradores da rua, disse ter antes da construção dos prédios, muitos conjuntos de casas, chamados “avenidas”, com moradores que se mudavam constantemente. Nesses conjuntos sempre muitas crianças moravam, fazendo de dia sempre ter movimento na Travessa.
Já no final da entrevista, seu Marco Antonio entrou para dentro da casa e apareceu com uma espada e uma baioneta, conservadas desde o tempo de seu avô, e uma coleção de moedas também pertencentes a família a bastante tempo. Pelo que contou, gosta muito de guardar coisas antigas.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Avenida Ipiranga, Rua 1(Um) e o Arroio Dilúvio
"Saí de casa às 09h e 30min, levando comigo um gravador, papel, caneta, mais a vontade de começar o dia, sentindo o mistério que há até mesmo nas coisas mais banais da vida na busca do estranhamento daquilo que a primeira vista da grande maioria de nós é tão comum e corriqueiro que passa despercebido, e assim, encontrar a problemática da minha pesquisa. Cheguei ao BIEV – Banco de Imagens e Efeitos Visuais – às 10h e 30 min. para buscar uma câmera fotográfica. Ao chegar lá recebi instruções de meus colegas de como deveria utilizá-la além das recomendações da Professora Ana para que eu ficasse sempre próxima ao colégio. Após me despedi indo em direção à parada de ônibus do Campus do Vale – UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Desci do ônibus, exatamente em frente à Escola Estadual de 1° Grau Desidério Torquato Finamor, às 11h e deparei-me com a rua que leva o nome de Beco dos Marianos – esta toda pavimentada de paralelepípedos, com um grande aclive, alguns estabelecimentos comerciais e um caminhãozinho de frete, incessantemente soltando muita fumaça. Assim que avistei este pequeno caminhão, decidi parar e fotografar. Enquanto eu caminhava em direção ao arroio, ainda com a câmera à mão, avistei alguns homens trabalhando em um buraco de esgoto, novamente decidi fotografar. Fui em direção a eles e os cumprimentei, indagando sobre o que estavam fazendo ali. Falaram-me que estavam instalando fios subterrâneos para a CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica, mas que eram funcionários de uma empresa terceirizada a “Henerge Subterrâneas”. Do local onde eu me encontrava, conversando com estes trabalhadores, avistei na Rua 1(Um), tratores. Foi então que novamente dirigi a palavra a eles perguntando se aquela obra, próxima ao arroio, na Rua 1(Um), era uma continuação daquela em que estavam trabalhando. Responderam-me que não, a outra era do DEMAE – Departamento Municipal de Água e Esgoto. Despedi-me deles e fui em direção a Rua 1(Um).
Obras de Instalação de Interceptores ao lado do Arroio Dilúvio, na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.
A Rua 1(Um), não sei porque leva esse nome. Na verdade é uma extensão da Avenida Ipiranga. Logo concluí que este nome funciona apenas como referencial, pois esta é a própria Avenida Ipiranga, sem grandes obras de engenharia e com uma longa pista de chão batido. Esta assim como a parte mais urbanizada, segue o percurso do Arroio Dilúvio; porém é muito mais pobre – sem pavimentação e com casas simples, mas em sua maioria de alvenaria. Nesse percurso o arroio sofreu pouca intervenção humana, no sentido de possuir bastante mata nativa, apesar de encontra-se em meio a muito lixo.
Placa demarcando a Rua 1 (Um) que é uma extensão da Av. Ipiranga no Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.
Logo na entrada da rua, avistei à beira do arroio, um cavalete com uma placa branca onde estava escrito DEMAE em azul, sinalizando a obra que estava
Homens Trabalhando na Instalação dos Interceptores do Arroio Dilúvio, na Rua 1 (Um). Autor: Renata Ribeiro.
Segui meu caminho fotografando em direção a casa de Dona Regina, informante a quem prometi em outra ocasião, levar o número de telefone do DMLU – Departamento Municipal de Limpeza Urbana. Durante o trajeto deparei-me com grandes canos de concreto que serão utilizados na obra, os quais também fotografei. Exatamente no momento em que eu iria dobrar a rua Semi Aberto, local onde Dona Regina reside, um cachorro que estava dentro de um pátio sem portão começou a latir, vindo em minha direção. Outros cães se juntaram a este, saindo dos pátios e com cara de poucos amigos. Apavorei-me e decidi seguir o meu trabalho de campo, na outra extremidade do arroio. Ufa!
Subindo a lomba da Rua Beco dos Marianos, encontrei uma mulher que limpava a calçada, catando papéis do chão. Ainda distante dela, fotografei-a,mas logo me aproximei, apresentando-me. Perguntei-lhe qual era o seu nome e se ela era moradora do local. Respondeu-me que se chamava Eliane e que não era moradora, porém já havia residido lá há aproximadamente quatro anos. Então expliquei a ela o que eu estava fazendo naquela região e em seguida me despedi.
Próximo ao meio dia, quando os alunos já saiam do colégio, decidi voltar para o campus. Porém, ainda fotografei um carrinho para a cata de material reciclável e uma caminhonete vermelha vendendo detergente caseiro, que em outra saída a campo já havia visto. Registrei imagens de lixo e madeira à beira do arroio e da serralheria que fica ao lado assim como imagens de uma contenção de pneus.
Contenção de pneus a margem do Arroio Dilúvio na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.
Por conseguinte, a Rua Beco dos Marianos que se encontra no Bairro Agronomia e leva este nome em função da Faculdade de Agronomia da UFRGS, construída no ano de 1899; esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1(Um), como citei anteriormente. E é exatamente este espaço deste Bairro formado não só pela Rua Beco dos Marianos e pela Rua 1(um), mas também por outras pequenas ruas é que desejo estudar e compreender. Descobrir como este se constituiu ao longo dos anos e resgatar a memória de como ocorreu todo este processo. Compreender como funcionam as relações neste espaço: se os moradores se consideram pertencentes à comunidade do Beco dos Marianos. Saber de que forma os residentes desta região se autodenominam. Sentem-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou Será que para eles esta é apenas uma rua, como se encontra no mapa da cidade?
É também minha intenção encontrar ou ao menos tentar compreender, por meio dos relatos de moradores, o motivo da expressiva quantidade de lixo “palpável” encontrado às margens e dentro do arroio. Por fim, pretendo descobrir como percebem esta paisagem e o que ela significa em suas vidas e buscar mais informações, por meio do engenheiro Rui, sobre o Projeto de Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio, bem como buscar uma maior aproximação com Arqueóloga e com o cotidiano dos operários da obra."
terça-feira, 19 de maio de 2009
O Arroio Sem Nome (1)
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, instituição da qual parte este projeto, está intimamente ligada ao Arroio Dilúvio. Uma das suas interfaces ocorre através do Arroio Sem Nome, uma “sanga”, conforme os moradores locais, que é justamente a divisa de município entre Porto Alegre e Viamão. Nesta fronteira encontra-se também o Campus do Vale da UFRGS, constituindo-se, portanto, em território de responsabilidade do Governo Federal, entre os dois municípios.
Assim como o Arroio Sem Nome, muitas pessoas cruzam diariamente essa fronteira: estudantes, moradores de Viamão, funcionários da UFRGS, motoqueiros preenchem o confuso espaço sonoro que anuncia a presença da água, nas ruas que levam à Vila Santa Isabel.
O Arroio, sem nome, quase sem margem, nomeado pela quase negação de sua característica natural, se encontra espremido entre um muro que a Universidade construiu, e os caminhos e terrenos apropriados traçados em sua margem ocupada.
Paradoxalmente, a ocupação irregular do arroio parece ser a única que o reconhece, e com ele convive.
A questão é pertinente:
A quem pertence este arroio?
A quem cabe nomeá-lo?
Melhor seria perguntar:
Quem é responsável por ele?
O Arroio Sem Nome tem suas nascentes no Morro Santana, ele desce pela Vila Santa Isabel, costeando o Campus do Vale da UFRGS até a barragem construída pela Universidade no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), direcionando-se então para o Arroio Dilúvio.
Saídas de Campo realizadas nos dias 06 e 13 de maio de 2009. Participaram das gravações o Bolsista DTI do Projeto Habitantes do Arroio Rafael Devos (Pesquisador Associado BIEV/UFRGS) e os bolsistas do BIEV/UFRGS, estudantes de Ciências Sociais da UFRGS, Ana Paula Parodi, Luciana Tubello Caldas, Patrick Barcelos e Stéphanie Bexiga.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Qual a importância do Arroio Dilúvio?



Créditos das fotos:
terça-feira, 28 de abril de 2009
A obra que modificou Porto Alegre
Sr. Leopoldino Braga foi um informante indicado por Daniela Bemfica, técnica do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), como um engenheiro que havia participado das obras de canalização do Arroio Dilúvio. Ao contatar Leopoldino, descobrimos que ele não apenas participou, como foi também o responsável técnico pela execução da obra. Seguem alguns momentos da entrevista:
- Feche os olhos, tire fora a Ipiranga. O que sobra?
Esse seria o tom de toda a entrevista, imaginar não apenas Porto Alegre, mas todo o Estado do Rio Grande do Sul, sem as obras que foram realizadas pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou como engenheiro civil e superintendente durante muitos anos. Foram inúmeras obras de construção de esgoto sanitário, barragens, canalização de arroios, e outras medidas tomadas no Estado, após a grande enchente de 1941, com o intuito de domar a fúria das águas, evitar alagamentos e promover saúde pública. Parte do milagre econômico, da transformação das capitais em metrópoles e do desenvolvimentismo brasileiro, foi também um marco na construção civil do RS este departamento: um órgão federal, destinado à realizar obras de grande porte, de infra-estrutura urbana, que após concluídas passavam a ser responsabilidade dos municípios beneficiados. Fechado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo na década de 1990, nos perguntamos, na companhia de Leopoldino, onde foram parar a memória, e os bens do DNOS? Uma parte certamente está com Leopoldino, em suas lembranças, mas e as outras? Uma máquina destinada a dragagem constante do Arroio Dilúvio da qual não se sabe o paradeiro, ou os 40 teodolitos encomendados da Suíça, dos quais ele lembra com gosto. E certamente retomamos a importância deste órgão, no atual contexto de inundações constantes em todas as regiões do país.
Além da história do DNOS, aprendemos muitas coisas nesta entrevista, que iremos divulgar agora no blog, em algumas postagens. Na primeira narrativa editada, Leopoldino nos conta os longos anos que esta obra necessitou, tendo sido iniciada pelo município de Porto Alegre, e terminada pelo DNOS, com a participação de personagens ilustres da capital aos quais Leopoldino se refere com intimidade: Ildo Meneghetti, Telmo Thompson Flores, entre outros que se envolveram com a transformação da região do Arroio Dilúvio



Outra narrativa incrível foram as negociações com os moradores que tiveram de ser removidos, dos terrenos desapropriados durante as obras. A sua habilidade na argumentação com um “português” que queria embargar a obra, e temia a ligação da sanga de seu terreno no largo canal do Dilúvio, ganha destaque. Leopoldino ri com gosto dessas lembranças. Sua simpatia e seu senso de humor quanto aos conflitos inerentes a uma obra deste porte revelaram um aspecto pouco conhecido, e mais humano, de um período de grandes transformações da cidade. Aos 86 anos, Leopoldino parecia ter claras essas imagens, dedicava a elas alguns silêncios durante a entrevista. Interrompia às vezes a narrativa, para resgatar algum detalhe que a memória costuma embaralhar, ou para consolar sua fiel cadelinha, que no início implicou com o microfone da equipe, mas que depois aconchegou-se ao seu lado, e dali não saiu.
Em outras narrativas, Leopoldino faz referência à antiga Ilhota, onde morava sua esposa, durante a infância. Ela nos contou, ao final da entrevista, sua convivência com a vida social da Ilhota, e a enchente de 41 que elevou as águas à altura de um adulto, na sua casa. O casal soma já mais de 60 anos de casados, e se mostrou muito disponível para narrar essa Porto Alegre que viu nascer a Avenida Ipiranga. Saímos de sua casa satisfeitos, com uma nova bagagem para a pesquisa, mas com vontade de saber mais. Gostaria também de ver como será a surpresa de Leopoldino e sua família, ao verem suas narrativas na internet. Essa é a fase da pesquisa das lembranças, das narrativas, sobre essa velha e alagadiça Porto Alegre. Mais estórias virão.
Entrevista com Leopoldino Borges. Realizada em 16 de abril de 2009. Participaram da entrevista Ana Luiza Carvalho da Rocha, Rafael Devos, Viviane Vedana e Ana Paula Marcante Soares.
Créditos das fotos
Ano: 1951
domingo, 19 de abril de 2009
Urbanização de arroios
Saída de Campo com o Engenheiro Sanitarista Paulo Paim, nosso consultor da equipe do projeto, e atualmente representante do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. A equipe de gravação era composta por Ana Luiza Carvalho da Rocha na direção, Rafael Devos na câmera e Viviane Vedana na etnografia sonora.
Saímos de casa em “horário de engenheiro”, 06:30 da manhã, para buscarmos Paim. No caminho, algumas combinações. Paim vai olhando ao longo do arroio, da Av. Barão do Amazonas até a Av. Antônio de Carvalho, algumas questões para nos mostrar. Vou gravando com Vi suas primeiras falas, para ajustar o dispositivo de gravação. O rosto de Paim levemente iluminado pelo sol da manhã e o arroio passando ao fundo evocam outras imagens produzidas pela pesquisa.
Primeiro ponto a observar: Beco dos Marianos. Ali Paim nos comenta o que seria o “arroio natural”, com a vegetação em volta que ajuda a sustentar o leito do arroio, o solo que absorve boa parte da água, e uma “cara de sistema” que está sendo hoje recuperada pelo sanitarismo contemporâneo – recentes loteamentos devem deixar como área de lazer, “parque” os leitos dos arroios, sem construir nada na margem, sem canalizar. Ainda vou me ajustando ao esquema de entrevistar e gravar ao mesmo tempo, com Paim já tenho intimidade para segurar a entrevista mesmo olhando pelo visor da câmera. De dentro do carro, percorrendo esse trecho da Av Ipiranga ainda sem asfalto, Paim observa que apesar do arroio parecer “natural” ele possui uma murada de contenção. Paramos o carro para conversar com uns moradores sobre o “nível” até onde chega o arroio
ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver
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