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segunda-feira, 24 de maio de 2010

O arquipélago da Ilhota e do Areal da Baronesa

Documentário Mestre Borel - A ancestralidade negra em Porto Alegre

Divulgamos aqui algumas sequências do Documentário etnográfico Mestre Borel - A ancestralidade negra em Porto Alegre, que narra as memórias de um dos mais reconhecidos tamboreiros da religião de matriz africana em Porto Alegre. A equipe de produção do documentário contou com pesquisadores que atuam no projeto Habitantes do Arroio, uma parceria que gerou uma troca produtiva de imagens. Com a narrativa de Borel, muitas imagens dos territórios do Areal da Baronesa, da Ilhota e da antiga rua Cabo Rocha ganharam vida, revelando a relação íntima do antigo curso do Arroio Dilúvio com a memória negra na cidade.

Nesta primeira narrativa, Mestre Borel situa o Arroio Dilúvio em um "arquipélago" que remete às memórias de uma "zona de negros", como nos revela:




Na companhia de "Morena", também personagem importante da religião africana na cidade, Borel narra a relação da Ilhota e do Areal da Baronesa com a outra margem do Arroio, onde existia o chamado "Forno do Lixo", zonas de prostituição e claro, casas de religião africana, carnavalesco e sobretudo, as redes de parentesco que remontam a diferentes etnias que compuseram linhagens da memória negra na cidade.



Percorremos alguns destes territórios narrados, buscando as marcas na paisagem atual destes espaços que Mestre Borel nos faz imaginar.



O documentário foi produzido com financiamento do FUMPROARTE, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

Mestre Borel - A ancestralidade negra em Porto Alegre
2010 - 55 minutos - Porto Alegre

Produção: Ocuspocus Imagens
Direção: Anelise Gutterres e Baba Dyba de Iemonjá
Roteiro: Ana Luiza Carvalho da Rocha
Direção de Fotografia: Rafael Devos
Etnografia Sonora: Viviane Vedana
Edição: Rafael Devos, Viviane Vedana, Anelise Gutterres
Produção Executiva: Anelise Gutterres
Assistência de Produção: Inara Moraes

contato: http://www.ocusimagens.com.br

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Percursos 2

Durante nosso percurso com a Bienal do Mercosul, em novembro, conhecemos Sônia, uma ex-moradora da região do Beco dos Marianos (Morro Santana). Ela lembra emocionada da infância e da relação com as águas ao ser provacada pelos sons da água correndo entre pedras e chão de terra, pela paisagem do Arroio Dilúvio já menos canalizado.



Sônia é autora de um livro de poesias e textos sobre os arroios de Porto Alegre, obra que ela gentilmente disponibilizou para a nossa pesquisa e para alguns passageiros do percurso.

Segue abaixo trechos do livro “Águas correntes (Nossos arroios)” de Sônia Vieira.

"E o vento me leva ao arroio que ficava na frente da minha casa, lá, eu ainda menina pescava com meus irmãos. Deus! Como éramos felizes. Que sensação maravilhosa esta de pescar..."(Página 35).

"Neste momento estou enxergando os raios do sol iluminando parte das águas do meu arroio e aquela luz na areia grossa do seu fundo é maravilhosa e os peixinhos circulam faceiros." (Página 35).

"Nesses lugares a água parecia mais escura e não se enxergava o fundo. Ai ficava tudo mais misterioso. O que teria embaixo daquelas pedras? Imaginávamos cobras venenosas, monstros dos mais diversos. Era a parte mais emocionante da pescaria. Riamos muito, mas na verdade também o medo nos deixava palpitantes. É preciso que a saudade bata fundo no nosso coração e, só então, retornaremos áquele tempo, levados pelo vento, para vivenciarmos novamente aquela alegria contagiante de crianças brincando da forma mais saudável e pura possível, junto à natureza, junto à água que corre sem parar, como o tempo." (Página 36).

"Aquele arroio nos proporcionou muitas brincadeiras, além da pescaria. Brincávamos num pequeno barco de madeira, que sempre 'virava' e podíamos tomar aquele banho. Que maravilha! Que vida boa era aquela." (Página 36).

"Foi também nas águas deste arroio que minha avó, há muitos anos atrás, lavava a roupa dos seus onze filhos e lavava, também, a roupa de outras famílias para ajudar na renda familiar." (Página 36).

"Meu barco era cheio de alegrias, brincadeiras sem fim. A gente ria, ria... Até se mijar de tanto rir." (Página 38).

"As águas daquele arroio corriam sem parar sobre pedras por onde passávamos sempre pulando, uma a uma. Como era bom quando escorregávamos, era um banho maravilhoso, feliz, mais molhado não poderia ser, e o mais importante, justificado. Afinal, foi um escorregão onde poderíamos até nos machucar. Eta vida bem boa. Não sei por que passamos anos pulando sobre as pedras e ninguém teve a idéia de fazer uma pinguela sequer. Ainda bem, não teria sido tão interessante." (Página 47).

"O arroio da minha infância

Aquela água sempre corria,
corria para a mesma direção,
as vezes queria inverter.
Queria ir até sua nascente
Dizem que lá tem um olho
Um olho de água
Que grande deve ser esse olho,
olha tudo." (Página 62).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Percursos 1



Apresentamos as primeiras imagens produzidas durante o Projeto Percursos Urbanos, num percurso pelo Arroio Dilúvio, numa parceria entre o Habitantes do Arroio e a Bienal do Mercosul. Além do vídeo produzido pela equipe do projeto na Ponte de Pedra da Praça Açorianos, seguem as imagens enviadas por Tadeu Fernando Peters Dornelles que participou do percurso:


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Do outro lado da Ponte de Pedra

A Ponte de Pedra, o Pão dos Pobres e o Riacho.
Fonte: Museu Municipal Joaquim José Felizardo.
Autor e data desconhecidos

Quem contempla a atual Ponte de Pedra, na Praça dos Açorianos, pode imaginar o antigo braço do Riacho que conduzia as águas do Dilúvio até o Lago/Rio Guaíba (que naquela época era muito mais rio do que lago). Mas a dúvida sempre fica sobre o que havia no outro lado da ponte, já que na margem do centro existia a famosa Praia do Riacho, que já descrevemos em outra postagem:

http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/02/as-paragens-do-riacho.html




Nesta entrevista que apresentamos aqui, Célia Souza Machado nos conta suas lembranças da infância, quando ajudava o pai a vender ca
rvão na ponte de pedra, em meados dos anos 1940/1950. Essa entrevista foi gravada no contexto de produção do documentário Arqueologias Urbanas: Memórias do Mundo, que foi financiado pelo FUMPROARTE em 1997, tendo sido dirigido por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Maria Henriqueta Creydi Satt. O documentário investiga a memória da cidade de Porto Alegre a partir das trajetórias e estórias de trabalhadores do Mercado Público e seu entorno. Célia conta no documentário suas memórias das águas, tendo sido esposa de marinheiro e tendo trabalhado nos bares e restaurantes da região do Mercado e do Cais do Porto que atendiam a esta população embarcada. Mas sua memória começa justamente embarcada nas águas do riacho, que aparece como um caminho possível para os portoalegrenses surgidos de outras paragens, como a família de Célia, oriunda da região das Charqueadas, no RS.

No relato de Célia se confirma uma imagem diferente da atual paisagem da cidade. Os usos da ponte e do riacho que corria sob ela davam a essa região um ar de “fundos” da cidade, em relação a sua área comercial em torno do Cais e do Mercado Público. A cidade parecia acabar ali, exatamente onde se expressava a separação entre a Cidade Alta (os casarões da Av. Duque de Caxias) e a Cidade Baixa com suas moradas populares. Uma relação que se alterou com os aterros, a construção da Av. Borges de Medeiros e o avanço da cidade em direção à Zona Sul. As imagens que compõe a crônica foram produzidas igualmente para o documentário Memórias do Mundo, que pode ser encontrado no Banco de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV) junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS: www.biev.ufrgs.br

Arqueologias Urbanas - Memórias do Mundo
Direção: Ana Luiza Carvalho da Rocha e Maria Henriqueta Creydi Satt
Direção de Fotografia: Sadi Breda
Financiamento: FUMPROARTE - 1997


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O caso do Beco dos Marianos

Segue abaixo uma síntese da pesquisa de campo que está sendo realizada pela bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial Renata Ribeiro, na região da Rua Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana e que contempla parte de uma das ações do “Projeto Habitantes do Arroio”, financiado pelo CNPq. Esta pesquisa será apresentada na Feira de Iniciação Científica da UFRGS, a realizar-se no dia 20 de outubro de 2009, na Reitoria da UFRGS, Campus Central, Paulo Gama nº110, das 13 às 18hs. Contamos com a sua presença.

O Projeto Habitantes do Arroio vem sendo realizado desde janeiro de 2009, e tem como principais objetivos disseminar entre grupos urbanos e instituições locais, informações técnicas e científicas a respeito dos recursos hídricos, da bacia hidrográfica do Lago Guaíba e da microbacia do Arroio Dilúvio, a partir da construção de narrativas audiovisuais (que são postados no blog do projeto), referentes aos desafios e aos impactos ambientais, econômicos e sociais implicados na destinação adequada e no tratamento de esgotos.
Rua João Alfredo (antiga Rua da Margem). Autor: Luna Carvalho.

Memórias do antgo riacho na Cidade Baixa:

Com a finalidade de fazer uma primeira aproximação com objeto da pesquisa, iniciei as minhas saídas a campo, no dia 24/04/2009, na região da Cidade Baixa, local onde Luna, minha colega, desenvolve seu estudo. Durante a etnografia de rua procurei descobrir os vários lugares por onde outrora corriam as águas do riacho (o dilúvio antes das obras) – rememorando o seu percurso. Constatei que aquela região guarda muitos causos referentes às enchentes, à cultura carnavalesca e quilombola da cidade, uma importante contribuição para a reconstrução da memória ambiental daquela região e de Porto Alegre.

Rua Beco dos Marianos vista do alto do Morro Snatana. Autor: Renata Ribeiro.

A Comunidade “CEEE”:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/07/comunidade-da-ceee_6311.html

Familiarizada com esta área onde antigamente passava o arroio Dilúvio, iniciei meu trabalho de campo no extremo oposto, ou seja, na região do Beco dos Marianos, localizada no Morro Santana, dividido pelos Bairros Jardim Carvalho e Agronomia. Minhas primeiras saídas a campo foram guiadas pelo intuito de descobrir a forma com que os moradores daquela região do Morro Santana se autodenominavam: sentiam-se realmente moradores do Beco dos Marianos? Ou para eles esta era apenas uma rua, como outra qualquer, no mapa da cidade.

Durante este estudo, procurei resgatar, por meio dos relatos dos moradores desta localidade, fragmentos de suas memórias que pudessem elucidar as seguintes questões: Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Além de buscar as respostas para estas e outras perguntas, tenho buscado compreender a diversidade sócio-cultural relativa à combinação entre o rural e o urbano neste espaço.

Ao longo de minha etnografia conheci Anderson, um jovem bastante pobre, de 21 anos de idade – antigo morador do Morro Santana. Este rapaz é quem, no primeiro momento, elucida minha etnografia, pois me fez saber que a região do Beco dos Marianos é denominada de “CEEE” pelos moradores, em virtude da existência de uma subestação da companhia elétrica, no alto do Morro Santana. Além disso, também contou que a rua considerada a mais importante, pelos moradores daquela região, é a Atenas e não a Beco dos Marianos, como nós pesquisadores pensávamos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Anderson também falou do porquê, na visão dele, de tanto lixo no arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá.

Na medida em que me familiarizava com aquele espaço denominado “CEEE”, eu ia me sentindo mais segura para subir o extenso aclive da Rua Beco dos Marianos. Na primeira ocasião em que estive no alto do morro, tive a feliz oportunidade de conhecer o Sr. Joyne, um homem de 53 anos de idade, de origem alemã e polonesa, residente no Morro Santana desde que nasceu.

Este homem foi quem me falou sobre ocupação daquele local cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. As primeiras pessoas foram retiradas por oficiais de justiça, disse-me. Além disso, também me falou da relação perturbada que a comunidade mantém com o DMAE, em função dos vazamentos de água que não são prontamente estancados.

Tendo em vista as suas interessantes colocações e a boa aproximação que obtive com este senhor, a equipe do projeto decidiu realizar uma entrevista com ele. Para que esta fosse bem sucedida e para que todos da equipe estivessem a par de tudo, desenvolvi um roteiro, bem como um mapa para nos situarmos melhor no local.

Meu objetivo nesta entrevista era trazer para o tempo do mundo fragmentos de suas lembranças referentes ao Morro Santana e ao seu processo de ocupação, bem como da memória ambiental daquele espaço. Para que isso acontecesse de forma natural foi necessário que o provocássemos a expor a sua singular trajetória social e seus itinerários urbanos. Para que, por meio de sua história de vida, tivéssemos a oportunidade de conhecer e compreender muitas coisas relacionadas ao Arroio Dilúvio.

Em outra oportunidade de saída a campo, ao chegar ao pé do Morro Santana, deparei-me com o desenvolvimento de uma obra realizada pelo DMAE na Rua 1 (Um). Ao descobrir a importância desta e ao ouvir os relatos dos trabalhadores, a equipe do projeto decidiu realizar uma filmagem com eles. Esta gravação nos rendeu uma crônica (narrativa audiovisual), com relatos de pessoas que conheciam uma outra cidade: a Porto Alegre subterrânea.

Obras de Instalação de Interceptores na Rua 1 (Um), Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Rede de Interceptores do Arroio Dilúvio:
http://habitantesdoarroio.blogspot.com/2009/08/produzimos-este-video-quando-retornamos.html

Ao realizar minha etnografia de rua, por diversas vezes deparei-me com informantes que presenciaram os mesmos acontecimentos; contudo, eles relembraram partes diferentes destes, possivelmente aquilo que mais lhes marcou individualmente. Justamente por isso procurei resgatar, de cada um deles, fragmentos de suas lembranças, instigando-os a pontuarem suas recordações do tempo subjetivo no tempo do mundo. Para que depois eu pudesse unir essas partes e então localizar “as raízes do presente, em solo do passado”.

Foi-me possível perceber que aquela comunidade alimenta costumes rurais, como: a criação de cavalos, galinhas, gansos e o cultivo de pequenas hortas. Por meio de alguns relatos constatei inclusive que alguns nativos da comunidade “CEEE” vieram da zona rural, para o Morro Santana, em busca de oportunidades para uma vida melhor.

Criança e animais em meio a Rua Beco dos Marianos. Autor: Renata Ribeiro.

Como as aprendizagens das tecnologias perpassam a minha etnografia?

Concomitantemente ao desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, eu e a equipe do projeto produzimos, por meio do tratamento documental dos dados recolhidos em campo (fotografia e vídeo), narrativas audiovisuais, crônicas, que foram postadas no blog, onde também há nossos diários de campo e as primeiras conclusões quanto à pesquisa.

O processo de construção destas crônicas iniciou-se pela filmagem previamente roteirizada. Por meio de um programa instalado nos computadores do BIEV e do Instituto Anthropos, a equipe do projeto dividiu as filmagens em episódios que passaram por um processo de catalogação, onde receberam nomes e comentários técnicos quanto à imagem e som. Em seguida, escolhemos e marcamos em cada episódio, os momentos mais importantes. Depois de todo este processo tecnológico de construção das narrativas audiovisuais, a equipe do Projeto Habitantes do Arroio postou estas crônicas, junto a diários de campo e prévias conclusões da pesquisa, no blog do projeto, com o intuito de possibilitar a interatividade entre o pesquisador, o pesquisado e todos aqueles que estejam dispostos a contribuir com seus relatos e críticas, bem como aos que estão em busca de conhecimento a respeito do Arroio Dilúvio.

Quanto a minha etnografia, as conclusões mais recentes postadas no Blog são as seguintes: a região da Rua Beco dos Marianos, no Morro Santana, dividida pelos bairros Agronomia e Jardim Carvalho esconde uma parte da Avenida Ipiranga menos urbanizada e pavimentada, denominada Rua 1 (Um), além de outras pequenas travessas, becos e ruas, que juntas formam a Comunidade “CEEE”.

Este é o espaço que tenho estudado e tentado compreender, cuja ocupação tumultuada teve seu início na década de 70. Hoje os residentes deste local consideram-se pertencentes à “CEEE”. Averigüei também que uma parcela significativa deles veio da zona rural do Estado em busca de novas oportunidades. Em virtude disso o estilo de vida predominante neste espaço pode-se dizer que é formado por uma combinação de costumes rurais e urbanos. Além disso, segundo meus informantes residentes mais antigos do Morro Santana, quando chegaram ali, o arroio já se encontrava poluído. Contudo, ainda era possível pescar.

domingo, 26 de julho de 2009

A Comunidade "CEEE"

Bolsista Renata Ribeiro

Como e quando ocorreu a ocupação e urbanização do Morro Santana? De que forma surgiu a comunidade que ocupa este espaço? O sentimento de pertença dos moradores desta comunidade é latente? Estas e outras questões me guiaram durante o desenvolvimento desta saída a campo. Por meio delas tento resgatar parte dos fragmentos da memória ambiental deste espaço referente à região do Beco dos Marianos.


Mapa da região do Beco dos Marianos - Desenho: Renata Ribeiro

Diário de campo - 01/07/2009


Em virtude dos riscos existentes na região do Beco dos Marianos e da necessidade de ir mais adiante, em minhas saídas a campo, pedi a um amigo que me acompanhasse. Muito bem disposto aceitou meu convite e juntos fomos em direção ao local de pesquisa. Com a câmera fotográfica em mãos, logo comecei a registrar as imagens do arroio, bem como da Rua 1 (Um) e das pessoas que por ali passavam. Em seguida, decidimos continuar a caminhada, subindo a Rua Beco dos Marianos até a entrada do Acesso Heitor Pereira da Silva localizada em uma região alta em relação ao Arroio, na subida do Morro Santana.

Durante todo o trajeto observamos vários níveis na altitude do relevo, de forma que do local onde nos encontrávamos, as várias paisagens apareciam como se estivessem sobrepostas umas às outras. O local, que é uma espécie de beco é todo de chão batido, boa parte repleta de barro. Assim como no restante da região do Beco dos Marianos é possível perceber que no Acesso Heitor Pereira, as casas também levam dois números: um para o DMAE e outro para a CEEE. No entanto, ao contrário do restante da região, o acesso é predominantemente preenchido com casas de madeira bastante precárias, algumas mistas (madeira e alvenaria) e poucas somente de alvenaria, estas mais bem estruturadas, as primeiras do acesso em relação à Rua Beco dos Marianos.

Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor: Renata Ribeiro.

Ao longo do trajeto vai surgindo uma maior variação de estilos de casa, sendo que no fim do acesso pude observar que elas são bastante precárias. As que encontrei no final do acesso não respeitam simetria alguma, foram construídas com diferentes pedaços de madeira, são pequeninas e encontram-se cortadas por uma água que corre de cima do morro, provavelmente oriunda de alguma nascente lá no alto, desaguando no Arroio Dilúvio, à altura da Rua 1 (Um), onde estão sendo instalados os interceptores. Outras casas conseguem ser ainda mais inferiores, cercadas de muito lixo e tendo como teto simples lonas de plástico. São construções extremamente frágeis, impossível não sofrerem com apenas uma chuva leve. Contudo, certamente essas moradias representam ainda proteção e amparo aos que ali construíram o seu espaço.

Casebre no Acesso Heitor Pereira da Silva, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Já na Rua Beco dos Marianos, meu amigo e eu decidimos subir em direção ao Centro Comunitário da Vila Grécia – uma associação de moradores – para tentar contato com a presidente, Dona Ivone. Antes que chegássemos ao local, um rapaz nos abordou, perguntando sobre o que eu estava fotografando. Apresentei-me e expliquei-lhe o que eu estava fazendo naquela região. Perguntei seu nome e se era morador dali. Anderson, como disse chamar-se, falou-me que tinha nascido naquele local, que residia na Rua Grécia, número 41 e que tinha 21 anos de idade. Durante a conversa perguntei como a comunidade daquela região se denominava. Se eles se consideravam pertencentes à comunidade Beco dos Marianos e se esta de fato existe. Anderson explicou-me que os moradores chamam aquele local de “CEEE”, em função da existência da companhia elétrica naquele local. Contou-me ainda que o Bairro Agronomia está dividido em duas partes: a “CEEE” , referente ao local onde nos encontrávamos e a Tamanca, que é justamente a região onde se encontra a UFRGS. Fiquei bastante surpresa e novamente, indaguei perguntando qual das ruas é considerada a principal pelos residentes da “CEEE”. Disse-me que a principal é a Rua Atenas e que ela é considerada a mais importante não somente pelos moradores, mas por todos. Se tu pedir para o cobrador te avisar qual é a parada da Atenas, ele vai saber. Agora se tu perguntar por qualquer outra rua daqui, ele não vai saber – disse-me. Fiquei muito surpresa, pois acreditava que a principal era a Beco dos Marianos. Durante o conversa perguntei a Anderson, de que forma ele via a obra que estava sendo realizada pelo DMAE, qual era a importância da instalação dos interceptores para ele. Respondeu-me que os interceptores eram muito importantes, pois acreditava que terminariam com a poluição do arroio. Contou-me que alguns moradores da comunidade têm o costume de jogar coisas dentro do arroio. As pessoas não querem mais e atiram lá – disse-me. Despedi-me de Anderson e seguimos caminho em direção à associação bastante próxima daquele local onde nos encontrávamos.

Morro Santana, Bairro Agronomia. Autor Renata Ribeiro.

Chegando ao Centro Comunitário da Vila Grécia fomos em direção a um grupo de meninos que ali estavam. Cumprimentei-os e me apresentei falando-lhes que gostaria de encontrar a Dona Ivone a presidente da associação. Disseram-me que ela não se encontrava no local. Agradeci, dei tchau e segui fotografando um jogo de futebol que acontecia no pátio da associação.

Ainda dentro da associação encontrei um homem de meia idade, sentado perto de um cavalo em frente à sede do centro comunitário. Dirige-me até ele, saudei-o, explicando sobre o nosso projeto. Muito receptivo, falou estar disposto a ajudar no que estivesse ao seu alcance. Disse chamar-se Joyne que residia na Rua Beco dos Marianos, número 575 e que era funcionário publico estadual da Secretária da Segurança. Contou-me ser morador da região desde que nasceu há 53 anos. Recordou-se do tempo em que naquelas redondezas só havia a casa de sua mãe (que ainda é viva), mais umas duas outras ou três – o resto era mato – disse. Falou-me das ocupações cujo auge foi nos anos 70, com a construção da subestação da CEEE. Contou que as primeiras pessoas a se instalarem ali na região foram retiradas por oficiais de justiça a mando da prefeitura, mas não demorou muito para a área ser novamente ocupada. Joyne falou-me também que a sede da associação, que é um galpão, pertencia a CEEE, mais precisamente a topografia. Em seguida, ele apontou para onde estávamos sentados, dizendo que aquilo era um equipamento para elevar os carros da companhia elétrica, durante a troca de óleo.

Ao falar de suas lembranças referentes àquele espaço, o Sr. Joyne resgatou memórias de um tempo subjetivo sobre o local, trazendo-as para o tempo do mundo. No entanto essas recordações resgatadas por ele, hoje representam apenas fragmentos de um passado mais ou menos distante, não sendo mais possível trazê-las para o tempo do mundo de forma fiel e integral. Assim, um dos meus principais objetivos dentro desta comunidade é justamente buscar reunir estes fragmentos de recordações revividos pelo Sr. Joyne, bem como as de outros moradores daquele espaço. Afinal, é justamente por meio do resgate destes fragmentos que será possível parte da reconstituição da memória ambiental do Arroio Dilúvio dentro daquele espaço.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A rede de saneamento e a rede de memórias

Seguindo as descobertas iniciais da rede de vizinhança que nossa bolsista Luna Carvalho traçou nas imediações do Areal da Baronesa e da antiga Ilhota, entre os Bairros Cidade Baixa e Menino Deus, realizamos uma nova entrevista. Nosso interlocutor foi o Sr. Marco Antônio Macedo Moreira. As suas lembranças, associadas aos relatos do seu vizinho, Sr. José, e aos relatos de outros moradores que vão surgindo nos diários de pesquisa, nos fazem descobrir novas dimensões territoriais associadas ao antigo curso do “riacho” que passava na região, um braço do Arroio Dilúvio que seguia até o centro da cidade, passando sob a Ponte de Pedra que ainda existe na Av. Borges de Medeiros. O riacho aparece como um limitador dessa experiência territorial, de um microcosmos, onde dividem-se pequenos mundos: de um lado a turma da Ilhota, de outro, o pessoal do Areal, mais distantes, o centro da cidade e os bairros abastados como o Menino Deus. A vida na rua, a sociabilidade expressa no carnaval e nas festas, os laços de pertencimento expressos na solidariedade entre vizinhos, e uma distância maior da “cidade”, representada pelo centro administrativo de Porto Alegre. A água surge como delimitadora dessas divisões territoriais, de certa forma dando uma sensação de refúgio, guardando a vida comunitária de pequena escala, das casas lado a lado, das “avenidas”, terrenos de grande profundidade divididos entre 6, 8 casas, dos becos, das margens. Da porta de casa, Marco Antônio nos conta que enxergava ao longe o viaduto da Avenida Borges de Medeiros, um símbolo da urbanização de uma cidade que começava a se ver como metrópole, nos anos 50, quando as obras de canalização do Dilúvio ocorreram.

Marco Antônio, como outros informantes, nos relatam com prazer essas imagens. Poderíamos nos iludir sob o senso comum do saudosismo de uma cidade que não existe mais. No entanto, assim como os cabungos com o esgoto doméstico eram despejados no Rio Guaíba, ainda hoje, o esgoto doméstico, coletado separadamente do esgoto pluvial, ainda é lançado nas águas do Guaíba, passando por outros processos, é verdade, mas atualizando a relação da cidade com suas águas, que já não são o limite do mundo urbano. Também esses “arquivos”, como se define Marco Antônio (“Eu sou um arquivo vivo dessa rua”) estão ali para afirmar a continuidade de uma forma de viver a experiência da rua compartilhada. A Travessa Pesqueiro ainda é habitada como este microcosmos, as águas correm subterrâneas como essa memória, mas como o próprio Dilúvio em dias de cheia, muitas vezes, elas voltam à tona. Transbordam.

Segue o diário de Luna, e algumas narrativas de Marco Antônio e José.

“19 de maio de 2009.

Chegamos a travessa pesqueiro lá por uma três da tarde, tínhamos ido ao Museu Hipólito da Costa anteriormente. Tocamos a campainha e depois de um tempo de espera abriu a porta um senhor sorridente e falante, seu Marco Antonio, que por sorte tínhamos conhecido no dia da entrevista com seu José, seu compadre. Entrando no portão ele já foi nos indicando que era “só seguir o trem”, um corredor muito comprido, cheio de folhagens, até chegar a entrada de sua casa que era a última. Passamos por umas três casas, habitada por outros parentes.

Entrando na cozinha, onde seria feita a entrevista, a esposa de seu Marco Antonio lavava a louça. Logo de inicio ele já começou a falar, pegou as fotos e foi para a janela mostrar para a Profa. Ana Luiza, onde passava o riacho, nos fundos do seu quintal. Possui um álbum cheio de fotografias antigas, da família com os vizinhos, da frente da casa que existe desde 1915, do pai e do avô fazendo pose com espadas, e a tão famosa foto que havia falado bastante no dia que lhe conhecemos, o riacho visto dos fundos de sua casa, com casas da João Alfredo ao fundo. A primeira coisa que contou foi dos “cabungos”, recipientes que antes dos sistemas de esgoto guardavam os dejetos de cada casa, e semanalmente eram trocados, sendo levados para um trapiche perto do antigo Estaleiro Só, na Lomba do Asseio. A sujeira era despejada e o cabungo lavado.

Seu Marco Antonio, uns anos mais novo que seu José se lembra mais da fase do arroio já aterrado, “aquele chão batido, tudo vermelho”. Segundo ele quando se deu conta já não havia mais riacho. Se lembrou ao longo da entrevista dos trajetos que fazia nessa época, a partir da Quatro Jacós até a ponte de pedra, recordando das brincadeiras no “areão”. Assim como seu José, lembrava de tudo com aparente saudade, quando falava da família, principalmente os avós com quem pareceu ter tido uma boa relação. Vindo de Portugal da região de Trás dos Montes, o avô de seu Marco Antonio trocou de nome quando chegou ao Brasil, trabalhou em muitos lugares e foi quem construiu a casa da frente onde hoje funciona uma marcenaria. Tinha na família também um tio que jogava búzios, quem lhe deu muita força para entrar na CEEE, onde trabalhou um bom tempo de sua vida, e viu inclusive a mudança da sede que ficava no centro ir para a inabitada Avenida Ipiranga.

Seu Marco Antonio, assim como seu José e os outros antigos moradores que temos encontrado na Cidade Baixa, ficou um bom tempo falando do carnaval, dos puxadores de samba que eram imbatíveis, do rei Momo Lelé que ainda é vivo, e de uma mudança depois da década de setenta quando começaram a vir escolas de São Jerônimo com seus carros alegóricos até então nunca vistos por ali. Falou que seu avô, simpatizante do bloco Nós os Comandos fazia todo ano uma espécie de cerimônia, onde entregava uma lanterna que o bloco carregaria no desfile.

Noutra parte da entrevista contou dos caminhões de gelo e lenha, e de uma feira realizada perto da foz, onde se reuniam no final das tardes de sábado produtores autônomos com frutas e legumes de ótima qualidade e bom preço. Também um criador de porcos da ilha da pintada, que com os pedaços de carne a tiracolo andava pelas ruas. E de uma companhia apicultora, Mel Cardeal, que era distribuído por umas carroças verdes bem pintadas.

Referiu-se ao jogador de futebol Tesourinha e sua família, moradores do terreno ao lado por muitos anos, com muito carinho, dizendo serem vizinhos excepcionais. Recordou que seu pai já mais velho, brincava com as pessoas da casa, jogando coquinhos para o outro lado da cerca que divide os dois terrenos. Lembrou também da mãe de Tesourinha, que ajudou muito sua avó em períodos de dificuldade, dando os produtos da feira recém comprados de bom grado. Atualmente parece que a família de Tesourinha mora na Restinga, para onde foram boa parte dos moradores da região após as obras de “melhorias” da região, um bairro muito distante do Areal. Quanto aos outros moradores da rua, disse ter antes da construção dos prédios, muitos conjuntos de casas, chamados “avenidas”, com moradores que se mudavam constantemente. Nesses conjuntos sempre muitas crianças moravam, fazendo de dia sempre ter movimento na Travessa.

Já no final da entrevista, seu Marco Antonio entrou para dentro da casa e apareceu com uma espada e uma baioneta, conservadas desde o tempo de seu avô, e uma coleção de moedas também pertencentes a família a bastante tempo. Pelo que contou, gosta muito de guardar coisas antigas.

Morador a vida toda da Travessa Pesqueiro, Marco Antonio construiu sua casa nos fundos da de seus pais e avós, e parece gostar muito da vida com a vizinhança com quem sempre teve boa relação, se orgulhando muito de ser hoje um dos moradores mais antigos. Menino naquela época, andou muito pelas ruas e como pode ser visto na entrevista possui hoje um arsenal de lembranças guardadas com muito carinho, as quais gostamos muito de fazê-lo imaginar."

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Memórias do antigo riacho na Cidade Baixa

A ponte de pedra sobre o Arroio. Fonte: Catalogo Jacob Prudêncio
Data: século XX, década de 30.
Autor: Jacob Prudêncio Herrmann


Segue trechos do diário de campo da bolsista Renata Ribeiro, da saída de campo de 24 de abril de 2009, que seguiu o trabalho de montagem da rede de informantes nos bairros Areal da Baronesa e Cidade Baixa.

“Se há uma filosofia da poesia, ela deve nascer e renascer por ocasião de um verso dominante, na adesão total a uma imagem isolada, muito precisamente no próprio êxtase da novidade da imagem.”

Este parágrafo do livro “A Poética do Espaço” de Gaston Bachelard define bem o que senti ao realizar está saída a campo, quando experimentei o “êxtase da novidade da imagem”. Logo, os parágrafos seguintes narram o meu primeiro contato com o local de pesquisa – onde outrora o antigo riacho corria e onde hoje vivem as pessoas que podem testemunhar sobre a sua existência.

Luna e eu fomos caminhando em direção à rua Décio Martins Costa onde hoje dorme o riacho, uma rua não muito larga e cheia de casas em cujos fundos se avista uma grande parede. Na outra extremidade vê-se um prédio relativamente pequeno, onde se encontra abaixo do apartamento térreo, o antigo leito do riacho. Durante essa caminhada que fizemos, para que eu pudesse reconhecer o local de pesquisa e poder melhor me localizar, passamos por diversas ruas com o objetivo de descobrir os lugares por onde outrora corriam as águas do riacho – rememorando o seu percurso. Luna ia então me apontando o caminho por onde ele corria, tentando localizar suas antigas pontes que atualmente já não existem mais. Passamos por ruas como: Rua da República, João Alfredo, Décio Martins Costa, Travessa do Pesqueiro, Baronesa do Gravataí.

Durante esse nosso percurso, nos deslocamos em direção a Travessa Pesqueiro, lá passamos em frente à casa de seu José, um informante de aproximadamente 60 anos que Luna já conhecia de outras saídas a campo e que por coincidência se encontrava naquele exato momento no pátio, um estreito corredor, atendendo alguém que o chamava da rua. Então, ela logo me apresentou como uma colega que também estava trabalhando no Projeto Habitantes do Arroio. Em nossa breve conversa, perguntamos a ele se poderíamos fazer uma entrevista. Prontamente ele concordou, indagando se iríamos demorar muito. Respondemos que naquele momento nós duas apenas queríamos marcar a entrevista. Propusemos a quarta-feira seguinte, dia 29/04, entre 9h 30mim e 10h – sugestão que foi aceita por Seu José. Ele sugeriu-nos que seria interessante que seu compadre estivesse junto no dia da entrevista, pois os dois são, conforme seu José, os mais antigos moradores dali. “Eu sou o primeiro morador mais antigo e ele o segundo.” Ele ainda destacou a lembrança que tinha do riacho passando atrás da casa do seu compadre. “O riacho passava costeando o portão da casa dele”. Por fim, pedimos a Seu José que nos permitisse tirar uma foto dele. Muito simpático disse: “claro”, colocando-se em pose de fotografia dentro de seu pequeno pátio que é compartilhado com outras famílias. Em seguida nos despedimos e continuamos nosso percurso.

Informante do projeto Sr. José, ao lado de sua residência. Autor: Luna Dallas.

Como bem sabemos, a máquina fotográfica é instrumento que gera curiosidade e interesse das pessoas que observam o fotógrafo. A máquina fotográfica assim como outros instrumentos, como por exemplo, câmera de vídeo gera muitas vezes uma aproximação entre o pesquisador e nativo. Como foi o caso de um rapaz que passava por ali naquele momento. Ele se aproximou muito espontâneo e logo perguntou: “por curiosidade, o que vocês estão fotografando?”. Respondemos que estávamos tirando fotos da região para o nosso projeto e explicamos no que ele basicamente consistia. Ele pensou que nós estávamos registrando aquelas imagens por causa do quilombo. Explicou-nos, então que aquelas terras em outra época pertenceram ao Barão e à Baronesa do Gravataí (Gravathay), nos apontando as ruas que hoje levam esses nomes e onde existiram muitos escravos. Além disso, nos comentou que por ali ficava o “Areal da Baronesa”. Logo a seguir, se despediu de nós, seguindo seu caminho, parecia estar com certa pressa.

Essa questão do “Areal da Baronesa” levantada pelo rapaz me despertou curiosidade e fui pesquisar sobre o assunto. Constatei que o Areal ou Araial ficava na praça Cônego Marcelino e que levava este nome devido à quantidade de areia que o riacho acumulava naquele local no passado. E que foram justamente as constantes enchentes que o riacho provocava que levaram a dona das terras, já debilitada pela velhice, a fazer a divisão daquelas terras e a construção de ruas. Mais adiante, com o fim da escravidão e com a morte da baronesa, este território que anteriormente servia como refúgio de escravos por ter uma vegetação que proporcionava bons esconderijos, tornou-se a moradia de escravos libertos. (Google: Quilombos de Porto Alegre).

Durante este trajeto fomos fotografando o local que é repleto de bares instalados em antigas residências do século anterior. Foi então que novamente a câmera fotográfica serviu de instrumento de aproximação. Enquanto registrávamos diferentes imagens, uma senhora entre 70 e 80 anos de idade nos observava da porta do edifício onde mora. Assim que percebi tive vontade de ir até ela, pois imaginei que ela pudesse ter lembranças daquela região para compartilhar conosco. Porém não foi necessário abordá-la, pois não demorou muito e ela perguntou bastante interessada, o porquê de estarmos fotografando o local. Dona Marieta, como se chama, disse que mora lá desde criança. Nós duas, felizes com a resposta que ela havia nos dado, sobre o tempo que ela mora naquela região, indagamos novamente perguntando se ela tinha lembranças do riacho. Ela disse que sim, nos relatando que quando era moça o seu irmão alugava um barco para eles passearem pelo riacho. Depois de uns minutos de conversa, o marido de Dona Marieta, Seu Omar, chegou, nos cumprimentado com simplicidade e timidez. Em seguida explicamos para eles o porquê daquelas fotos, discursando sobre o projeto e seus objetivos. Durante a conversa, obviamente falamos sobre o “Dilúvio”, o que levou Dona Marieta a se manifestar dizendo: “Na época era chamado de riacho”. Falou-nos do carnaval que acontecia ali, nos dando a entender que este era um evento importante e especialmente bonito. Comentou-nos que quando era moça, ela e as amigas se arrumavam e saiam para festejar o carnaval; contudo o seu “papai” sempre a alertava: “Só até a praça!”. Ela nos mostrou também, na própria Rua João Alfredo, onde ficava a sua antiga casa, nos comentando que atualmente funciona uma garagem naquele local. Disse também, que após sair de lá foi morar na casa que fica ao lado de sua atual residência onde hoje funciona um centro espírita. Além disso, nos apontou com o dedo um local onde antigamente funcionava uma casa de fazenda e em que atualmente, de acordo com Dona Marieta, funciona um depósito. Depois nos mostrou uma casa, que acredito estava sendo reformada para o funcionamento de um bar, explicando-nos: “Aquela casa em construção era do Lupicínio Rodrigues”.

Achei muito interessante os relatos de Dona Marieta, pois enquanto a ouvia falar, lembrei-me da Professora Ana Luiza falando em uma reunião geral do BIEV, sobre Tempo Subjetivo (onde se encontra a narrativa e a lembrança do que já foi vivenciado) e o Tempo do Mundo (onde se encontra o registro do mundo social e cultural). Afinal, dona Marieta quando narra a sua história utiliza-se do Tempo Subjetivo, pontuando sempre com o Tempo do Mundo.


Dona Marieta prosseguiu nos falando sobre a enchente de 1941. Ela contou que felizmente a sua família não perdeu nada, pois seu “papai” e seus irmãos acomodaram os móveis em lugares altos de maneira que a água não os alcançasse. Todavia, tanto Dona Marieta quanto Seu Omar nos disseram que se lembram bem de que para sair de casa, só era possível de barco. Dona Marieta até nos apontou, em relação à parede do edifício, a altura que a água da enchente atingia.
Casal de idosos informantes do projeto. Autor: Luna Dallas.

Por fim, pedimos a eles licença para fotografá-los. Aceitaram com uma pequena resistência da Dona Mareta, que falou não estar arrumada, porém não foi necessário nem mesmo insistir para bater a foto, ela logo se posicionou, abraçando o seu marido e sorrindo para a câmera fotográfica. Despedimos-nos deles e Seu Omar disse que procuraria em sua casa fotos antigas da região; além disso, nos disseram, muito simpáticos, que poderíamos voltar em outra hora para conversarmos mais sobre suas lembranças do arroio.

Seguimos o nosso caminho em direção ao Viaduto da Avenida Borges de Medeiros, onde subimos. Paramos para visualizar de forma privilegiada pela altura em que nos encontrávamos a imensidão das ruas que atualmente são pavimentadas com asfalto. Era até mesmo difícil de acreditar que em outra época, o riacho passava por ali, seguindo o seu percurso em direção a Ponte de Pedra. Ainda de cima do viaduto, nós avistamos alguns prédios em meio a uma fumaça, neblina ou poluição, não soubemos identificar, mas que nos chamou a atenção e fotografamos.

O último local em que tivemos em nossa saída a campo foi a Ponte de Pedra, pois eu havia comentado com Luna que eu nunca tinha passado pela famosa ponte e queria muito ir até lá. Foi então, que ela me passou a câmera fotográfica para que eu também pudesse passar pela experiência de fotografar, nessa minha primeira saída a campo. De cima da ponte, logo visualizamos supostamente uma “moradora de rua” que estava alimentando as pombas com farelos. A cena provocada pela ação dessa mulher foi extremamente bonita. Eram centenas de pombos voando rapidamente, mas sem perder a leveza de um pássaro que plana antes de chegar ao chão, ao seu redor, deixando-a um pouco desnorteada, porém aparentemente feliz com todos aqueles pássaros a sua volta.

Ponte de Pedra. Autor: Renata Ribeiro.

Por fim, acredito que esta minha primeira saída a campo foi bastante produtiva e até mesmo privilegiada, pois logo nos deparamos com aquele casal tão bem disposto a compartilhar conosco suas lembranças do riacho, das enchentes e da cultura daquele local. Com certeza a Cidade Baixa ainda guarda muitas outras histórias, causos referentes ao riacho, constituindo-se em importante página para o resgate da memória ambiental de Porto Alegre e que está sendo realizado através do Projeto Habitantes do Arroio. Gostaria de destacar também que esta saída a campo desenrolou-se com bastante naturalidade e até com certa inspiração, pois me foi possível ver e expressar a beleza e a poesia que de forma sensível todos podemos perceber em tudo o que nos cerca.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sr. José - A infância na beira do riacho

Nesta postagem, nossa bolsista Renata Ribeiro apresenta trechos de seu diário da entrevista com Sr. José, realizada em 29 de abril de 2009, na qual nos contou, entre outras coisas, a sua infância no antigo riacho que cortava a Cidade Baixa, ligando a Ipiranga à Ponte de Pedra, no Centro da cidade.


Essa entrevista com Seu José tem como objetivo, o resgate de uma realidade vivenciada por ele em seu passado. Fatos, imagens, lembranças que marcaram, não somente
a sua vida, mas também a história de Porto Alegre. Por conseguinte, esta é a busca do devaneio de um homem que vivenciou parte da existência do antigo riacho. Por meio de palavras tento reviver algumas de suas recordações, do passado do riacho, nos parágrafos seguintes.

Chegamos à rua onde Seu José reside (Travessa Pesqueiro) próximo às 10 horas, a fim de realizarmos a entrevista previamente agendada. Ao chegarmos lá, os Professores Ana Luiza, Rafael e Viviane bem como minha colega Luna e eu, Renata, fomos em direção a pequena casa de seu José – onde fomos recepcionados por sua esposa. Após os cumprimentos e apresentações, decidimos realizar a entrevista em uma pequena sala de jantar. Seu José sentou-se em uma cadeira em frente à janela, pois acreditávamos que a luz da rua poderia ser aproveitada para iluminar a filmagem. Posicionamo-nos próximos uns aos outros, em frente ao entrevistado. Professor Rafael estava com a câmera de vídeo, a Professora Viviane com o equipamento de som, a Professora Ana Luiza e Luna faziam a entrevista e eu auxiliando a todos no que precisassem.

A Professora Ana, se não me engano, foi quem pediu para que Seu José se apresentasse em frente à câmera. Ele então começou falando que se chamava José Antônio da Silva Vieira, que tinha 67 anos, quatro filhos e oito netos. Em seguida, a Professora Ana perguntou-lhe a respeito de suas experiências marcantes em relação ao riacho. Ele respondeu que pescava naquelas águas e que sobre um tronco, ele e os amigos se divertiam atravessando o riacho. Brincavam de tocar pedras uns nos outros, separados pelo riacho. Além disso, muitas vezes ele e os amigos aguardavam os canoeiros passarem, jogando frutas para os que se encontravam em suas margens. Ainda recordou-se dos grandes barcos de carvão que passavam pelo arroio em direção ao gasômetro. O entrevistado falou-nos também do percurso do riacho. Disse que ele passava pela Ilhota, entrava na Rua Getúlio Vargas e desaguava no “Pão dos Pobres”. Contou-nos por diversas vezes que esta era uma época muito boa.
Seu José relembrou também dos tanques, os “cabungos”, que existiam em frente às casas, que acumulavam o esgoto doméstico e eram levados pela prefeitura para a “Ponta do Asseio”, na beira do Lago Guaíba. Falou-nos ainda sobre a canalização do antigo riacho, relatando que este procedimento ocorreu quando ele tinha aproximadamente 10 anos de idade. Contou-nos que ele e os amigos tinham medo de brincar em meio à obra, pois os operários os amedrontavam, dizendo que quando eles abrissem a passagem da água, quem estivesse no canal do arroio, poderia morrer afogado. Falou-nos também que antes desta obra de engenharia, não ocorriam muitas enchentes, mas que posteriormente estas foram inúmeras. Motivo que levou diversos moradores a se mudarem da região. Contou-nos ainda sobre um incêndio que destruiu antigas casinhas de madeira que havia no lugar das atuais que se encontram no pátio de Seu José. Relatou que esta calamidade aconteceu na véspera de Natal de 1978 e que o fogo alcançou quase até a esquina de sua rua, onde existi um prédio. Recordou-se também das rixas “de guris” entre os moradores do Areal e da Ilhota.

Convidamos Seu José para ir até a rua nos mostrar a região. Nosso objetivo era resgatar parte da memória daquele local por meio das lembranças de um tempo já vivenciado por ele. Ao sairmos para a rua, nos deparamos imediatamente com o compadre de Seu José. Ele mostrou-se extremamente simpático e feliz com a realização do nosso Projeto Habitantes do Arroio. A sensação que eu tive, foi que o projeto significa para Seu Marco Antonio uma forma de buscar no passado a sua própria história. Mostrou sentir-se valorizado por estarmos em busca desses fatos vividos, no passado, por eles e que hoje são apenas suas recordações, mas que para nós agora, significam a memória ambiental da cidade.

Seu Marco Antonio apontou-nos sua residência que fica no mesmo terreno de uma casa do ano de 1915, que aluga para um ferreiro. Esta antiga residência de tom rosa com janelas e portas cor vinho, segundo Seu Marco Antonio, é alugada para este senhor há aproximadamente 30 anos. Contou-nos também que durante uma enchente, um parente seu teve que sair de dentro de casa numa canoa. Relembrou que a rua hoje toda de paralelepípedos, no passado era de chão batido. Durante a conversa, por inúmeras vezes, Seu Marco Antonio exaltou a bondade de seu amigo José que costumava levar para dentro da sua própria casa, pessoas desabrigadas. Não somente isso, assim como seu amigo, ele comentou que os dois eram os mais antigos moradores do local. Lembrou-se do irmão mais velho de Seu José, que já morrera, e que foi uma grande referência para os dois.

Seu Marco Antonio por diversas vezes me pareceu bastante emocionado e agradecido, por ter a oportunidade de narrar sua vida, que faz parte da história do velho riacho, que teve suas águas domadas por encanamentos. Contou-nos ter uma pequena foto pessoal do riacho, passando atrás de sua casa. Os dois amigos também nos mostram o terreno onde morava a mãe do futebolista Tesourinha onde se avistava apenas um matagal e o esqueleto de uma antiga casa. Em seguida, sugerimos a realização de uma nova entrevista com ele em outro momento, para que pudesse compartilhar conosco um pouco mais de suas lembranças.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Qual a importância do Arroio Dilúvio?



A primeira resposta que nos vem à mente é a questão do esgoto – levar embora a sujeira. Mas esta não é apenas uma questão de higiene. O esgoto de Porto Alegre é responsabilidade de dois órgãos municipais: o DMAE, que trata do abastecimento de água e do tratamento dos esgotos domésticos, e o DEP, que trata do esgoto pluvial, da água da chuva. Em uma de nossas primeiras consultas a técnicos da área ambiental, conversamos com Daniela Bemfica e Juliana Young, do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), que nos esclareceram algumas das questões que são cada vez mais notícia em vários estados brasileiros: as enchentes, a impermeabilização do solo e a importância dos arroios no escoamento da água da chuva.

O que parece atualmente um problema controlado, se revela o nó da questão para a revisão do planejamento urbano das cidades, dos vales, das áreas baixas do Brasil. O esgoto pluvial não se apresenta como um problema para Porto Alegre, mas escoar a água da chuva é uma das maiores dificuldades urbanas contemporâneas, com a impermeabilização do solo. Muitas reivindicações são feitas quanto a saneamento, no sentido de acabar com o esgoto doméstico “à céu aberto”, com a sujeira, mas o saneamento dos “valões” vai para muito além disso, pois revela uma interdependência ainda maior entre muitas localidades da cidade, que nem imaginam que estão ligadas pela água da chuva. O convencimento da população (moradores, empresários da construção civil, proprietários de imóveis, arquitetos) de como colaborar com essa face do saneamento e conviver com a dinâmica hídrica é complicado. Muitas vezes, a solução reivindicada, a canalização dos arroios pode acelerar sua vazão, necessitando de bombeamento, diques e outras medidas de proteção. A obra do Arroio Dilúvio, fundamental para Porto Alegre, é a expressão máxima desse modelo de saneamento, que reunia ao mesmo tempo a construção de grandes avenidas, a valorização das terras urbanas em áreas alagadiças e o saneamento pluvial e doméstico. Embora tenha resolvido o problema das cheias constantes do Arroio Dilúvio, o modelo de urbanização em que a obra estava inserida passou a ser aplicada a muitas regiões da cidade, fazendo com que a capacidade do solo urbano de absorver a água da chuva diminuísse cada vez mais. A negociação que se apresenta agora é sobre um novo modelo de saneamento, no qual os arroios não sejam mais canalizados, pelo contrário, se prevê uma revisão da construção civil nas áreas em torno dos arroios.

Indicado pelas técnicas do DEP entrevistadas pela equipe de pesquisa, Sr. Leopoldino Borges nos conta as negociações necessárias com os moradores, e a trama institucional que se passa na canalização do Dilúvio nos anos 1950/60. Ele nos conta que, na época, ocorreu um imenso investimento do Governo Federal nas obras de contenção de cheias, de drenagem, de urbanização das cidades brasileiras em conjunto com uma estratégia de controle da fúria das águas. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou, foi responsável por inúmeras obras em Porto Alegre e no interior do RS, com o objetivo de evitar que a grande tragédia da Enchente de 1941 se repetisse. A enchente de 1941, e as cheias seguintes, na década de 1960, revelaram à cidade de Porto Alegre seu frágil lugar na Bacia Hidrográfica: às margens do Lago Guaíba, em uma área baixa, recebe mais de um terço das águas de todo o Rio Grande do Sul. Embora as cheias estivessem presentes na memória dos habitantes, a sua relação com a urbanização não é evidente. A tendência é que o solo urbano tome a frente da água, nas questões fundiárias.



Apesar do investimento ser do Governo Federal, as negociações quanto ao solo urbano são mediadas pelo Município, pela Prefeitura. Ainda hoje, o direito a um saneamento adequado, e as obrigações quanto à destinação correta de efluentes são colocadas a partir de leis federais, enquanto que a gestão deste saneamento cabe ao município. Vemos se processar contemporaneamente esta lógica inversa em muitas cidades do Brasil, atingidas por cheias: a situação de emergência, de calamidade pública convoca o Governo Federal a tomar medidas para remediar a tragédia, os prejuízos. São certamente negociações políticas, mas pode-se também perguntar qual o papel dos demais atores nesta interdependência. Certamente, o reconhecimento desse processo de impermeabilização do solo por parte de quem volta seus projetos de construção para as regiões em torno dos arroios é fundamental, do empresário da construção civil, passando pelo futuro morador de um prédio, até o morador que constrói sua casa com a ajuda de sua rede de vizinhança.

A obra do Dilúvio, apesar de seguir o modelo das canalizações, foi fundamental. Mas novas possibilidades se apresentam contemporaneamente. A virada possível no saneamento contemporâneo é a necessidade de manter, ao longo dos arroios, a mata nativa, a vegetação constantemente cuidada, espaços largos onde a água da chuva que transborda possa ser absorvida. Ainda que se possa construir muros de contenção, diques e outras soluções, a permanência da feição “natural” do arroio, sua inserção no conjunto das obras das vias urbanas, dos espaços destinados à construção civil é fundamental, ou seja, uma nova urbanização se configura neste sentido.
Perguntamo-nos, depois dessa herança das cidades brasileiras, dessa luta contra a água e as áreas naturais no processo de urbanização que marca a memória ambiental de muitas cidades como Porto Alegre, como inverter essa lógica conquistada do concreto sobre a terra a água? Sanear não é necessariamente “limpar”, mas a oposição entre a limpeza e a sujeira, como nos ensina a Antropologia, nos convoca a repensar a ordem do universo, a forma como ordenamos esse arranjo de moradas, avenidas e arroios.

A alternativa contemporânea, de “renaturalizar” arroios no mundo inteiro, não precisaria ainda ser seguida por Porto Alegre, mas certamente, não é mais necessário canalizar, “enterrar” arroios na cidade. Há uma série de iniciativas previstas na cidade, com relação, por exemplo, ao Arroio Moinho, afluente do Dilúvio, que seguem essa nova perspectiva. Prepara-se uma nova etapa do saneamento pluvial na cidade – o debate sobre como fazer contenção de cheias: fazer piscinões como os de São Paulo (onde?), estender a foz do Arroio até mais adentro do Guaíba, lançando lago adentro as águas do Dilúvio? Apesar do Dilúvio parecer “controlado” quanto ao esgoto pluvial, seus afluentes ainda não são. Um debate que as técnicas do DEP prevêem, ainda se colocará presente na cidade.

Créditos das fotos:

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951


terça-feira, 28 de abril de 2009

A obra que modificou Porto Alegre

Sr. Leopoldino Braga foi um informante indicado por Daniela Bemfica, técnica do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), como um engenheiro que havia participado das obras de canalização do Arroio Dilúvio. Ao contatar Leopoldino, descobrimos que ele não apenas participou, como foi também o responsável técnico pela execução da obra. Seguem alguns momentos da entrevista:

Duas imagens ficaram gravadas na minha lembrança, depois da entrevista com Sr. Leopoldino Borges. A primeira foi quando ele abriu a porta, sorridente, nos recebendo com ar seguro, pedindo que entrássemos. Estava estampada em seu rosto a vontade de falar do Arroio Dilúvio, ou como veríamos a seguir, sobre o DNOS. A segunda imagem foi quando ele, no meio da entrevista, segurou a mão no ar, fechou os olhos e disse:

- Feche os olhos, tire fora a Ipiranga. O que sobra?



Esse seria o tom de toda a entrevista, imaginar não apenas Porto Alegre, mas todo o Estado do Rio Grande do Sul, sem as obras que foram realizadas pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no qual Sr. Leopoldino trabalhou como engenheiro civil e superintendente durante muitos anos. Foram inúmeras obras de construção de esgoto sanitário, barragens, canalização de arroios, e outras medidas tomadas no Estado, após a grande enchente de 1941, com o intuito de domar a fúria das águas, evitar alagamentos e promover saúde pública. Parte do milagre econômico, da transformação das capitais em metrópoles e do desenvolvimentismo brasileiro, foi também um marco na construção civil do RS este departamento: um órgão federal, destinado à realizar obras de grande porte, de infra-estrutura urbana, que após concluídas passavam a ser responsabilidade dos municípios beneficiados. Fechado pelo ex-presidente Fernando Collor de Melo na década de 1990, nos perguntamos, na companhia de Leopoldino, onde foram parar a memória, e os bens do DNOS? Uma parte certamente está com Leopoldino, em suas lembranças, mas e as outras? Uma máquina destinada a dragagem constante do Arroio Dilúvio da qual não se sabe o paradeiro, ou os 40 teodolitos encomendados da Suíça, dos quais ele lembra com gosto. E certamente retomamos a importância deste órgão, no atual contexto de inundações constantes em todas as regiões do país.

Além da história do DNOS, aprendemos muitas coisas nesta entrevista, que iremos divulgar agora no blog, em algumas postagens. Na primeira narrativa editada, Leopoldino nos conta os longos anos que esta obra necessitou, tendo sido iniciada pelo município de Porto Alegre, e terminada pelo DNOS, com a participação de personagens ilustres da capital aos quais Leopoldino se refere com intimidade: Ildo Meneghetti, Telmo Thompson Flores, entre outros que se envolveram com a transformação da região do Arroio Dilúvio em Avenida Ipiranga. Leopoldino conta que a Prefeitura realizou as obras de escavação da Av. Praia de Belas até a Ponte da Av. Azenha, assim como a urbanização do antigo braço do riacho aterrado, até a Ponte dos Açorianos. Da Ponte da Azenha e da João Pessoa, até a Barragem do Sabão, em Viamão, o DNOS assumiu a obra, transformando o “filete” que era o dilúvio no largo canal que vemos hoje. Mostramos algumas fotografias da construção do canal para Leopoldino. A perspectiva atual de imaginar o que resta de arroio em meio à região urbanizada se inverte: era a configuração urbana, a estética de ruas, avenidas, trânsito, canalizações, que parece surgir do barro, da lama, nas imagens.



Outra narrativa incrível foram as negociações com os moradores que tiveram de ser removidos, dos terrenos desapropriados durante as obras. A sua habilidade na argumentação com um “português” que queria embargar a obra, e temia a ligação da sanga de seu terreno no largo canal do Dilúvio, ganha destaque. Leopoldino ri com gosto dessas lembranças. Sua simpatia e seu senso de humor quanto aos conflitos inerentes a uma obra deste porte revelaram um aspecto pouco conhecido, e mais humano, de um período de grandes transformações da cidade. Aos 86 anos, Leopoldino parecia ter claras essas imagens, dedicava a elas alguns silêncios durante a entrevista. Interrompia às vezes a narrativa, para resgatar algum detalhe que a memória costuma embaralhar, ou para consolar sua fiel cadelinha, que no início implicou com o microfone da equipe, mas que depois aconchegou-se ao seu lado, e dali não saiu.

Em outras narrativas, Leopoldino faz referência à antiga Ilhota, onde morava sua esposa, durante a infância. Ela nos contou, ao final da entrevista, sua convivência com a vida social da Ilhota, e a enchente de 41 que elevou as águas à altura de um adulto, na sua casa. O casal soma já mais de 60 anos de casados, e se mostrou muito disponível para narrar essa Porto Alegre que viu nascer a Avenida Ipiranga. Saímos de sua casa satisfeitos, com uma nova bagagem para a pesquisa, mas com vontade de saber mais. Gostaria também de ver como será a surpresa de Leopoldino e sua família, ao verem suas narrativas na internet. Essa é a fase da pesquisa das lembranças, das narrativas, sobre essa velha e alagadiça Porto Alegre. Mais estórias virão.

Entrevista com Leopoldino Borges. Realizada em 16 de abril de 2009. Participaram da entrevista Ana Luiza Carvalho da Rocha, Rafael Devos, Viviane Vedana e Ana Paula Marcante Soares.

Créditos das fotos

Fonte: DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) - Porto Alegre

Fundo de Origem: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

Ano: 1951

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Rede de memórias

Os relatos dessas pessoas num bairro que ainda conserva traços de outra época proporcionam a formulação de uma rede de memórias que praticamente reconstrói toda uma paisagem que hoje apenas ao olharmos não conseguimos perceber. Uma paisagem onde o riacho devia ser parte essencial e que hoje mesmo não estando visível persiste no imaginário das pessoas que ali construíram uma vida. Luna Carvalho, uma das bolsistas do projeto, iniciou o trabalho de pesquisa etnográfica com esses moradores, com o objetivo de realizarmos algumas gravações no local. Segue o diário de campo dos dias 23 de março e 01 de abril:

A Rua João Alfredo e o seu entorno tem uma importância bem significativa para o estudo do arroio. Além de existir um conjunto de fotos e crônicas que demonstram o que se passava ali, a região que mais conservou traços da época em que o riacho ainda não era canalizado mesmo ele estando hoje canalizado e fechado. De início tinha me proposto a tentar ver marcas deixadas pelo riacho, a sinuosidade que diziam existir nas ruas construídas em cima, e pouco tinha pensado nas pessoas que poderiam me contar e sugerir coisas novas.



Rua João Alfredo

Da ponte de pedra partimos eu e um amigo para a Rua Décio Martins, que da Av. Loureiro da Silva fica meio escondida por uma pracinha cheia de árvores e pelo viaduto da Av. Borges de Medeiros que começa bem ali, é um lugar um pouco abandonado. Logo no começo da rua via-se um portão aberto com movimento de funcionários dentro, era um almoxarifado do DMAE, demos uma espiada e um homem de uns sessenta anos se aproximou, perguntamos se aquela era mesmo a rua construída em cima do riacho, ele disse não saber ao certo, mas contou ter achado na parte de trás do almoxarifado na João Alfredo canos antigos da década de setenta que ele acreditava ser do riacho canalizado. Perguntei o que eram os pavilhões do outro lado da rua, disse que era a parte de trás do pão dos pobres, nessa hora me lembrei de uma fotografia antiga, que já foi postada no blog mostrando o pão dos pobres de cima, estávamos mesmo em cima do riacho.

Seguindo então até a República, lembrei novamente da crônica de Leandro Telles que contava ter um amigo morador do prédio construído em cima do riacho nessa mesma rua, o homem que dorme em duplo leito. Agora estávamos a procura da continuação da Décio Martins, a outra rua que segue atrás da Rua João Alfredo. Da Baronesa do Gravataí dobramos na Miguel Teixeira e uma quadra depois estávamos lá: numa ruazinha estreita e asfaltada, um pouco sinuosa com um matinho alto seguindo nas suas margens, algumas bocas de lobo e no meio da quadra um tampo de concreto que provavelmente daria na água do riacho.As construções ali são simples, algumas sem reboco, grudadas nos fundos das casas da João Alfredo o que não possibilitou ver aquela paisagem das fotos antigas que mostravam os barquinhos parados próximo aos muros, já do outro lado da rua só se vêem muros altos, alguns com grafittis desenhados, eram os fundos dos prédios da Baronesa do Gravataí. Pouca gente circulava por essa rua.


Rua Dilmar Machado

Seguimos até a Av. Aureliano de Figueiredo, atravessamos e chegamos na Travessa Pesqueiro, seguindo até o meio da quadra encontramos uma casa com data de 1915, ali dois senhores trabalhavam, era uma marcenaria. Eles nos contaram que essa travessa dava acesso até o riacho, as pessoas iam por ali pra pescar. Indicaram o morador da frente que seria o mais antigo da rua e teria mais a contar. Por sorte uma senhora entrava no portão dele, não foi preciso bater, perguntamos pelo senhor e não demorou muito ele apareceu. Nos falou morar ali a vida toda,desde 1942 ano em que nasceu, quando criança jogava futebol próximo as margens e via os barcos carregados de carvão e lenha passar tanto em direção ao centro como em direção ao resto da cidade, outros que carregavam frutas. “- eles jogavam laranja pra gente”. Ele falou que melhorou muito o acesso ao centro da cidade já que para chegarem até a João Alfredo tinham que passar por um caminho estreito de terra até a ponte da Rua Miguel Teixeira, mas ao mesmo tempo contou que os tempos de riacho eram muito agradáveis, bem diferentes de hoje, segundo ele. Nos mostrou uma página de jornal com uma foto antiga do arroio. Combinamos de retornar para uma entrevista com ele.

Depois disso percorremos a João Alfredo a procura da fábrica de instrumentos musicais que eu tinha sido informada existir desde a época do riacho, ela fica próximo a Aureliano de Figueiredo. Na entrada já se via que era um estabelecimento antigo. Um senhor e um homem estavam atrás do balcão, o mais velho veio falar conosco, lembrando que seu avô, vindo da Itália, construiu e fundou a fábrica de instrumentos, dizendo se lembrar um pouco da época que o riacho passava por ali, que era uma rota importante de comércio e transporte. A fabrica ainda possui canos antigos que transportavam gás, sistema usado depois da construção do Gasômetro. Nos contaram que toda família era de músicos, lembrando da Ilhota e do Areal da Baronesa, dos grupos de chorinho, de batuque que existiam nessas regiões.


Rua Décio Martins

Uma semana depois dessa última saída retornei a campo, dessa vez comecei o trajeto pela Ipiranga lá por umas nove horas da manhã, queria tentar fazer o caminho do arroio, mas não consegui saber ao certo onde ele fazia a curva em direção a João Alfredo. Pela Getúlio Vargas segui até a Múcio Teixeira entrando na João Alfredo, nessa hora estava uma luz legal pra fotografar o lado esquerdo da rua. Resolvi continuar até a Décio Martins, segui andando até o almoxarifado do DMAE. Ali conheci mais um antigo morador da região. Me falou largo dos abacateiros do outro lado do riacho, da praia da foz e da estação de trem perto da ponte de pedra. Do nada tinha encontrado o que procurava, alguém que se lembrasse daquela antiga paisagem, disse ter vivido um bom tempo na Avenida Luis Guaranha e na Barão do Gravataí. Dei o cartão do projeto, combinando uma futura entrevista.


Rua Miguel Teixeira

Voltando, entrei na Baronesa do Gravataí. Pela Luis Afonso fui até a João Alfredo, queria falar com seu Felippe da ferragem. A loja fica na esquina e na parede no lado da Miguel Teixeira um grande mural dá um aspecto descolado ao lugar. Entrei, e lá estava o senhor que mesmo não conhecendo sabia ser seu Felippe, uma senhora e um homem mais jovem. Me falou que a ferragem existe desde a década de 20, mas ele comprou há quarenta anos, viveu nessa zona a vida inteira e quando pequeno morava na Ilhota. Em alguns momentos a senhora que estava sentada numa cadeira virada para o lado comentava alguma coisa sem me olhar muito, também se lembra da infância junto ao riacho, dos peixes, “muito muçum”, segundo ela. Seu Felippe comentou que o arroio era navegável até o Hospital Porto Alegre, o que achei estranho lembrando dos barcos que dona Alda, outra informante, dizia passar na frente de sua casa no bairro Santana. Dos vizinhos antigos só sabia do dono da fábrica de instrumentos Valcareggi que continuou morando ali, o resto faleceu ou se mudou. Uma cliente entrou, então entreguei o cartão, me despedi e saí.

Travessa Pesqueiro

Em direção a travessa pesqueiro, passei pela frente da casa do senhor da semana passada, não estava por ali ,na marcenaria em frente pude ver as sombras dos dois senhores que trabalhavam, continuei até o final na Barão do Gravataí e segui pela direita, fazendo a volta na quadra, já que não conhecia a região. Voltando para a Travessa Pesqueiro, uma senhora varria a calçada. Lembrei dela. Perguntando pelo senhor que conheci na semana passada, contei que no outro dia tínhamos conversado sobre o arroio, descobri então que ela se lembrava tanto quanto ele do tal riacho. Morou também a vida inteira naqueles arredores, na Luis Guaranha, na Ilhota e, por último, na Travessa Pesqueiro. Enquanto varria me contava que, quando era criança, costumava passar por cima da muretinha da ponte na Getúlio Vargas e disse imaginar que um dia o Riacho Ipiranga (expressão usada por ela), transbordaria e alagaria toda cidade matando todo mundo. Sobre os vizinhos, disse que os mais antigos já morreram, inclusive um “batuqueiro” morador da casa da esquina que ainda existe. Ela estava bem interessada no assunto, no final me perguntou se eu havia visto alguma foto antiga da época, falei ter algumas no museu Joaquim Felizardo, na Rua João Alfredo, ficou animada e disse que quando tivesse tempo, iria fazer uma visita.


Fundos da antiga Rua da Margem

ARROIO DILÚVIO - Mapa dos locais pesquisados em Porto Alegre - clique nos ícones para ver


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