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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Rede de memórias

Os relatos dessas pessoas num bairro que ainda conserva traços de outra época proporcionam a formulação de uma rede de memórias que praticamente reconstrói toda uma paisagem que hoje apenas ao olharmos não conseguimos perceber. Uma paisagem onde o riacho devia ser parte essencial e que hoje mesmo não estando visível persiste no imaginário das pessoas que ali construíram uma vida. Luna Carvalho, uma das bolsistas do projeto, iniciou o trabalho de pesquisa etnográfica com esses moradores, com o objetivo de realizarmos algumas gravações no local. Segue o diário de campo dos dias 23 de março e 01 de abril:

A Rua João Alfredo e o seu entorno tem uma importância bem significativa para o estudo do arroio. Além de existir um conjunto de fotos e crônicas que demonstram o que se passava ali, a região que mais conservou traços da época em que o riacho ainda não era canalizado mesmo ele estando hoje canalizado e fechado. De início tinha me proposto a tentar ver marcas deixadas pelo riacho, a sinuosidade que diziam existir nas ruas construídas em cima, e pouco tinha pensado nas pessoas que poderiam me contar e sugerir coisas novas.



Rua João Alfredo

Da ponte de pedra partimos eu e um amigo para a Rua Décio Martins, que da Av. Loureiro da Silva fica meio escondida por uma pracinha cheia de árvores e pelo viaduto da Av. Borges de Medeiros que começa bem ali, é um lugar um pouco abandonado. Logo no começo da rua via-se um portão aberto com movimento de funcionários dentro, era um almoxarifado do DMAE, demos uma espiada e um homem de uns sessenta anos se aproximou, perguntamos se aquela era mesmo a rua construída em cima do riacho, ele disse não saber ao certo, mas contou ter achado na parte de trás do almoxarifado na João Alfredo canos antigos da década de setenta que ele acreditava ser do riacho canalizado. Perguntei o que eram os pavilhões do outro lado da rua, disse que era a parte de trás do pão dos pobres, nessa hora me lembrei de uma fotografia antiga, que já foi postada no blog mostrando o pão dos pobres de cima, estávamos mesmo em cima do riacho.

Seguindo então até a República, lembrei novamente da crônica de Leandro Telles que contava ter um amigo morador do prédio construído em cima do riacho nessa mesma rua, o homem que dorme em duplo leito. Agora estávamos a procura da continuação da Décio Martins, a outra rua que segue atrás da Rua João Alfredo. Da Baronesa do Gravataí dobramos na Miguel Teixeira e uma quadra depois estávamos lá: numa ruazinha estreita e asfaltada, um pouco sinuosa com um matinho alto seguindo nas suas margens, algumas bocas de lobo e no meio da quadra um tampo de concreto que provavelmente daria na água do riacho.As construções ali são simples, algumas sem reboco, grudadas nos fundos das casas da João Alfredo o que não possibilitou ver aquela paisagem das fotos antigas que mostravam os barquinhos parados próximo aos muros, já do outro lado da rua só se vêem muros altos, alguns com grafittis desenhados, eram os fundos dos prédios da Baronesa do Gravataí. Pouca gente circulava por essa rua.


Rua Dilmar Machado

Seguimos até a Av. Aureliano de Figueiredo, atravessamos e chegamos na Travessa Pesqueiro, seguindo até o meio da quadra encontramos uma casa com data de 1915, ali dois senhores trabalhavam, era uma marcenaria. Eles nos contaram que essa travessa dava acesso até o riacho, as pessoas iam por ali pra pescar. Indicaram o morador da frente que seria o mais antigo da rua e teria mais a contar. Por sorte uma senhora entrava no portão dele, não foi preciso bater, perguntamos pelo senhor e não demorou muito ele apareceu. Nos falou morar ali a vida toda,desde 1942 ano em que nasceu, quando criança jogava futebol próximo as margens e via os barcos carregados de carvão e lenha passar tanto em direção ao centro como em direção ao resto da cidade, outros que carregavam frutas. “- eles jogavam laranja pra gente”. Ele falou que melhorou muito o acesso ao centro da cidade já que para chegarem até a João Alfredo tinham que passar por um caminho estreito de terra até a ponte da Rua Miguel Teixeira, mas ao mesmo tempo contou que os tempos de riacho eram muito agradáveis, bem diferentes de hoje, segundo ele. Nos mostrou uma página de jornal com uma foto antiga do arroio. Combinamos de retornar para uma entrevista com ele.

Depois disso percorremos a João Alfredo a procura da fábrica de instrumentos musicais que eu tinha sido informada existir desde a época do riacho, ela fica próximo a Aureliano de Figueiredo. Na entrada já se via que era um estabelecimento antigo. Um senhor e um homem estavam atrás do balcão, o mais velho veio falar conosco, lembrando que seu avô, vindo da Itália, construiu e fundou a fábrica de instrumentos, dizendo se lembrar um pouco da época que o riacho passava por ali, que era uma rota importante de comércio e transporte. A fabrica ainda possui canos antigos que transportavam gás, sistema usado depois da construção do Gasômetro. Nos contaram que toda família era de músicos, lembrando da Ilhota e do Areal da Baronesa, dos grupos de chorinho, de batuque que existiam nessas regiões.


Rua Décio Martins

Uma semana depois dessa última saída retornei a campo, dessa vez comecei o trajeto pela Ipiranga lá por umas nove horas da manhã, queria tentar fazer o caminho do arroio, mas não consegui saber ao certo onde ele fazia a curva em direção a João Alfredo. Pela Getúlio Vargas segui até a Múcio Teixeira entrando na João Alfredo, nessa hora estava uma luz legal pra fotografar o lado esquerdo da rua. Resolvi continuar até a Décio Martins, segui andando até o almoxarifado do DMAE. Ali conheci mais um antigo morador da região. Me falou largo dos abacateiros do outro lado do riacho, da praia da foz e da estação de trem perto da ponte de pedra. Do nada tinha encontrado o que procurava, alguém que se lembrasse daquela antiga paisagem, disse ter vivido um bom tempo na Avenida Luis Guaranha e na Barão do Gravataí. Dei o cartão do projeto, combinando uma futura entrevista.


Rua Miguel Teixeira

Voltando, entrei na Baronesa do Gravataí. Pela Luis Afonso fui até a João Alfredo, queria falar com seu Felippe da ferragem. A loja fica na esquina e na parede no lado da Miguel Teixeira um grande mural dá um aspecto descolado ao lugar. Entrei, e lá estava o senhor que mesmo não conhecendo sabia ser seu Felippe, uma senhora e um homem mais jovem. Me falou que a ferragem existe desde a década de 20, mas ele comprou há quarenta anos, viveu nessa zona a vida inteira e quando pequeno morava na Ilhota. Em alguns momentos a senhora que estava sentada numa cadeira virada para o lado comentava alguma coisa sem me olhar muito, também se lembra da infância junto ao riacho, dos peixes, “muito muçum”, segundo ela. Seu Felippe comentou que o arroio era navegável até o Hospital Porto Alegre, o que achei estranho lembrando dos barcos que dona Alda, outra informante, dizia passar na frente de sua casa no bairro Santana. Dos vizinhos antigos só sabia do dono da fábrica de instrumentos Valcareggi que continuou morando ali, o resto faleceu ou se mudou. Uma cliente entrou, então entreguei o cartão, me despedi e saí.

Travessa Pesqueiro

Em direção a travessa pesqueiro, passei pela frente da casa do senhor da semana passada, não estava por ali ,na marcenaria em frente pude ver as sombras dos dois senhores que trabalhavam, continuei até o final na Barão do Gravataí e segui pela direita, fazendo a volta na quadra, já que não conhecia a região. Voltando para a Travessa Pesqueiro, uma senhora varria a calçada. Lembrei dela. Perguntando pelo senhor que conheci na semana passada, contei que no outro dia tínhamos conversado sobre o arroio, descobri então que ela se lembrava tanto quanto ele do tal riacho. Morou também a vida inteira naqueles arredores, na Luis Guaranha, na Ilhota e, por último, na Travessa Pesqueiro. Enquanto varria me contava que, quando era criança, costumava passar por cima da muretinha da ponte na Getúlio Vargas e disse imaginar que um dia o Riacho Ipiranga (expressão usada por ela), transbordaria e alagaria toda cidade matando todo mundo. Sobre os vizinhos, disse que os mais antigos já morreram, inclusive um “batuqueiro” morador da casa da esquina que ainda existe. Ela estava bem interessada no assunto, no final me perguntou se eu havia visto alguma foto antiga da época, falei ter algumas no museu Joaquim Felizardo, na Rua João Alfredo, ficou animada e disse que quando tivesse tempo, iria fazer uma visita.


Fundos da antiga Rua da Margem

7 comentários:

Anônimo disse...

Luna,Interessante tua pesquisa de campo, guardando as devidas proporções, lembra de certo modo, ao meu tempo de escola da Polícia (hoje academia) onde fiz o curso de investigador de polícia, na década de 70...Investigando estavas sobre o riacho, (arroio)fazendo perguntas, trilhando caminhos da história de antanho, desta cidade, descaracterizada por obras que mutilaram sua fisionomia,e só deixaram lembranças de um tempo melhor para se viver, como atestam narrativas que conseguiste com teu estoicismo na busca de estórias da história, desta Porto Alegre de Quintana, Lupicinio,Tesourinha, e outros tantos...E porque não eu, Alberto Oliveira, humilde e obscuro cidadão desta cidade, onde pisaram meus maiores, que relembro sempre, quando penso Porto Alegre, ainda estou aqui, no teu chão...

Habitantes do Arroio disse...

Que bom que te interessaste. Este é apenas o início e uma parte do que estamos tentando remontar. Seria legal entrarmos em contato,talvez tu pudesse relatar tuas experiencias nas investigações que foram feitas em outra época.
Obrigada, Luna.

Anônimo disse...

Luna, muito interessante teu trabalho etnográfico e de montagem de quebra-cabeça urbano, com a identificação do traçado urbano de Porto Alegre antes da canalização e da comparação com o atual. As fotos antigas também ilustram bem a idéia deste excelente trabalho.

alberto disse...

Luna, postei como anônimo, pq ainda não sou "manso" no trato das coisas do computador, nas próximas vêzes, vou tentar fazer a coisa certa. Mesmo com anônimo, me apresentei: Alberto Oliveira. Posso acintar tua curiosidade, relatando sobre a época que morei numa vila de ferroviarios, que havia do outro lado da ponte de pedra...Foi na década de 50, Estudei numa escola anexa do Pâo dos Pobres (D.João Becker). Fazia o trajeto da vila à escola,que era pela praia de belas,(que terminava, na época,na rua da vila)que por sua vez, era no mesmo local onde antigamente, fôra a estação do riacho...Bem, tenho muitas estórias desta fase da minha vida...Mas o foco principal, para ti, é o riacho. Já naqueles tempos eu era interessado em história, perguntava muito, e os mais velhos me contavam sobre como era àquela região da cidade, às vêzes, nos reuniamos(a gurizada)depois das brincadeiras no atêrro (que já havia começado)e percorríamos trajetos que antes haviam nos relatado,que era por onde o riacho passava antigamente...Os irmãos Lassalistas, da escola, nas aulas de História, tambem faziam referências a locais históricos próximos da onde morávamos...Por ex: A foz do riacho o Dilúvio, (que começava lá perto do meu Parthenon),é, com h mesmo, e que os casais Açorianos, ali desembarcaram, e começaram a povoação que deu nisso tudo aí...Sabes que logo depois da ponte de pedra, seguindo o riacho, naquela época, em direção à foz, havia uma ponte de ferro, onde saiam (e voltavam) os trens que eram consertados, nas oficinas que alí haviam?...E muitas vêzes passei a pé, pulando entres os dormentes que tinha entre os trilhos...E o canal ali era profundo...Para ir pela rua Pantaleão Telles, até o centro, quando não pegava uma carona dos trens...E nessa fase o riacho, já era canalizado, mas despejava a agua nas imediações da ponte, no início onde hoje é o espelho d'agua. Ponho minha memória a disposição de vocês, naquilo que meus velhos neurônios ainda ajudarem...Abraços!

Luna disse...

Alberto seria bom se pudéssemos conversar, tu poderia dar o e mail, pelo jeito o senhor viveu na mesma época das pessoas que estamos entrevistando. Seria bom se o senhor fosse sabado dia 6, lá será mostrado o que já foi produzido e coletado de material, muitos que não estao no blog. Só o que tu relataste aí já é uma boa estória, espero que possamos nos conhecer.
Abraço, Luna.

alberto disse...

Luma! Prazer retornar o diálogo virtual contigo, oportunamente, ao vivo, tentarei fazer contato com a preclara amiga. Moro em Tôrres, e a algum tempo me aposentei da função pública que já em outra oportunidade já havia declinado no "Habitantes do arroio" (1°/05/09).Nasci e me criei em Porto Alegre,no bairro Parthenon, é, com "h"...(talvez por causa do Parthenon Literário, grafia antiga...)Isso é história para outra oportunidade...Em 1991, fui morar em Tôrres, nesta mudança, aflorou em mim, uma nostalgia da minha Porto Alegre, talvez pq foi a primeira vez que fui morar em outro lugar...Bem,guria lá vai o meu(s)e-mail:albertomoliveira@bol.com.br e albertoxerife@gmail.com Pena que só hoje é que fui ler teu comentário, senão teria ido...Abraço!

JASouza. disse...

Interessantes as observações do amigo Alberto Oliveira, ainda mais se for considerada a sua capacidade de diálogo com os mais antigos e que, pelo visto, vem transmitindo a seus descendentes, por si só, um valioso manancial de resgate daquilo que está escondido sob a poeira do tempo. Certo escritor falava-me há tempos das narrativas orais de um tio, o qual considerava um contista nato e, lembrando-me dele, não tenho receio de afirmar - eis ai um escriba de grande potencial!

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